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Engenharia geotécnica de luto


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Em meus artigos para esta coluna tenho evitado abordar temas que digam respeito à minha profissão. Sou, há 29 anos, engenheiro civil especializado em geotecnia. Para quem não sabe, engenheiros geotécnicos trabalham com escavações, aterros, barragens, encostas, túneis, fundações, pavimentação, enfim, obras que se relacionam diretamente com o solo e, como é para o solo que a água infiltra, também com ela. Lidamos, portanto, intimamente com dois dos quatro elementos. Os outros dois, ar e fogo, são objeto de outras especialidades da engenharia.

Os tristes acontecimentos dos últimos dias me levam a abordar esse tema profissional: ruptura de barragem de resíduos em Minas Gerais, deslizamento de encostas no Espírito Santo e o trágico colapso da estação Pinheiros do Metrô de São Paulo. Todas obras com importantes condicionamentos geotécnicos. Sinto-me de luto pelas vítimas dos acidentes, mas também pelos colegas geotécnicos envolvidos nesses projetos. Para o bom engenheiro, e todos eles o são, caso contrário não estariam envolvidos em obras desse porte, cada projeto é um filho que ele gesta, no escritório, nasce e cresce no canteiro de obras para tornar-se um adulto que será o orgulho do pai-engenheiro. A ruína de uma obra é, para o profissional, como a morte de um filho que não chegou à idade adulta: uma tragédia indelével e permanente. Daí, a minha dor solidária com os colegas.

O projeto e a execução de qualquer obra envolvem riscos. As obras geotécnicas envolvem riscos maiores que as outras especialidades pois lidamos com o solo, que é um meio descontínuo e as sondagens e outras prospecções efetuadas para subsidiar os projetos nem sempre detectam essas descontinuidades. Mesmo em Bauru, que repousa sobre uma formação sedimentar muito homogênea, temos inúmeros casos de descontinuidades que só foram detectadas no momento da implantação das fundações do prédio. Por isso, o engenheiro geotécnico nunca trabalha só no escritório; tem que estar em campo observando atentamente.

No caso da bacia sedimentar da Grande São Paulo (rios Tietê, Pinheiros e seus afluentes), onde ocorreu o acidente do Metrô, esse problema é comum. Ano retrasado, projetei, para a SABESP as fundações da Estação de Tratamento de Esgoto de Santana do Parnaíba, na margem do rio Tietê, onde todas as estacas atingiram cerca de 10 metros de profundidade, encontrando solo resistente. Em dois locais, entretanto, o solo resistente não foi encontrado nem a 30 metros de profundidade, sendo necessário projetar uma verdadeira ponte para ultrapassar a descontinuidade do maciço. Esse tipo de situação sempre me faz lembrar que, por mais que eu adote um grande coeficiente de segurança no projeto, a fé em Deus precisa ser maior, muito maior!

Não pretendo, com este artigo de “condolências” aos colegas envolvidos nos acidentes, eximir a culpa de ninguém. É fundamental que se apure com precisão cada aspecto técnico que levou ao insucesso, não só para identificar os culpados, mas para que todos aprendamos com o erro. Vou alem: caso tenha ocorrido erro de engenharia (e é provável que sim) que se apure se houve condicionante de outra ordem a coagir a decisão técnica. Vou ser mais claro. No caso do Metrô, trata-se de uma obra em PPP (parceria público privada) onde as empreiteiras estão menos submissas à Cia. do Metrô que nos contratos normais. Teria havido decisão administrativa a coagir a decisão técnica? No caso das barragens em Minas Gerais a situação é idêntica: o cliente final é o próprio dono do resíduo. No caso das encostas no Espírito Santo, o cliente é o poder público...aí, não preciso falar mais nada, não é?

Por último, vamos parar com essa história de culpar o solo e a água pelos insucessos da engenharia. Esses dois elementos são dados dos problemas e precisam ser equacionados tanto no projeto, como no correr da obra. Não podem, jamais, serem rotulados de vilões ou “responsáveis”, nem mesmo pelas erosões e buracos de Bauru. Responsáveis são os homens que alteram o meio ambiente sem as cautelas técnicas adequadas.

O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião - e-mail: eric@mstecnologia.com.br

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