Ordenado em 1998, o padre Roberto Francisco Daniel, ou simplesmente padre Beto, é um religioso presente em diversos setores da comunidade bauruense. Além da atuação na Paróquia Universitária, ele é professor na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e tem um programa de rádio na 96 FM cujo foco é cultura.
Antes de qualquer coisa, na realidade, o padre Beto, é um pensador dos mais inteligentes. Um pensador afiado, respaldado pela formação acadêmica que inclui três graduações (em direito, história e teologia), um doutorado e, principalmente, uma sensível percepção do mundo à sua volta. Isso faz dele uma figura ímpar, capaz de transitar pelos assuntos mais densos com a mesma naturalidade com que fala sobre temas prosaicos, sem perder o característico sorriso no rosto.
Na entrevista a seguir, Beto fala sobre o seu dia-a-dia como religioso, sua paixão pelos livros e expõe seu ponto de vista sobre o sacerdócio, deixando claro o objetivo de estimular a reflexão nas pessoas. A seguir, os melhores trechos do bate-papo.
Jornal da Cidade – Como é o seu dia-a-dia como padre?
Padre Beto – Não tenho rotina. A minha vida é diversificada. Trabalho com a Pastoral Universitária, que não tem atividades regulares, mas reúne projetos variados que realizamos e que quebram qualquer possibilidade de rotina. Também dou aula de filosofia do direito na ITE e de ética; desenvolvo um programa de rádio (“Conexão 96” que vai ar aos domingos na 96 FM das 22h às 24h), que é um café cultural; e escrevo minha coluna de domingo para o JC, que também exige preparação. Claro que tenho as minhas atividades como padre, dou atendimento na paróquia toda quinta-feira à noite, das 19h30 às 21h, e rezo as missas de domingo, às 18h e 20h, além das coisas que surgem para um padre: casamentos, batismos, velórios. Os padres vivem os momentos significativos das pessoas. É uma vida de acompanhamento e, por isso, de reflexão.
Jornal da Cidade – O senhor tem uma vida social ativa...
Beto – Eu sigo Jesus Cristo. As pessoas se prendem mais a uma Igreja antes do concílio Vaticano II (assembléia convocada pelo papa João XXIII, entre 1962 e 1965, que propôs novas bases para a Igreja Católica), do que à visão do próprio Jesus Cristo. As pessoas não lêem os Evangelhos e não prestam atenção em como Jesus viveu, mas prestam atenção em como os padres viviam antes do concílio. Aí começam a fazer comparações e entra a contradição: o padre tem que seguir Jesus Cristo e o que ele fez? Jesus caminhou com o seu povo sem preconceitos, ele teve contato com gente, com pessoas humanas da sua época e por isso foi muito criticado pelos religiosos da época como beberrão, comilão... isso está literalmente nos Evangelhos. Ele era visto em festas em lugares públicos e não em sinagogas. Ele é um homem que viveu com os seres humanos. Eu acho que essa é minha missão. Se eu quero ser um bom padre, eu tenho que estar onde as pessoas estão, seja no velório ou seja no bar, seja no supermercado ou seja no cinema, seja na igreja ou seja num culto ecumênico de formatura em uma universidade. Quer dizer, eu tenho que estar vivendo integralmente na minha sociedade, claro, seguindo os meus valores. Isso não quer dizer que eu vá vender os meus valores cristãos, pelo contrário. Estou sendo essencialmente cristão a partir do momento em que ser cristão não é seguir regras morais simplesmente, mas é lutar pela dignidade da pessoa humana, é ser solidário, é viver com veracidade, é ser honesto, não admitir injustiças e saber seus limites.
Jornal da Cidade – Limites?
Beto – A questão da bebida, por exemplo. Dizem: “o padre bebe um uísque, uma cerveja”. Claro que ele bebe, isso não quer dizer que ele está pregando o alcoolismo. Ao beber um uísque, ele está mostrando que sabe beber, que sabe quando parar. É isso que temos que passar para as gerações que estão aí. Eu posso usufruir das coisas sabendo o momento, o limite. Tudo é assim, até mesmo as coisas que chamamos de “boas”. Até a religião. Se eu não souber os limites das práticas religiosas, eu posso acabar entrando em desarmonia na vida. São aquelas pessoas que vivem enfiadas na igreja e deixam a casa desarrumada, não cuidam dos familiares, do seu cotidiano. O segredo é o limite. Eu caminho com o meu povo e é assim que eu vou entender o meu povo. O sacerdote tem que compreender a mentalidade da sua época. Eu nunca vou compreender a mentalidade da minha época sem vivê-la.
Jornal da Cidade – Esse ponto de vista pode chocar quem tem um conceito mais tradicionalista da Igreja e da missão do padre. O senhor se considera polêmico?
Beto – Não gosto particularmente do termo polêmico, talvez porque tenha estado na Alemanha e para o alemão a palavra é mais ou menos “superficial”. A pessoa polêmica lá é alguém superficial, que só quer fazer barulho. Não é o mesmo significado que aqui...
Jornal da Cidade – O senhor seria então um instrumento de discussão?
Beto – Eu quero ser um instrumento de discussão porque eu acho que, se colocar um ponto de interrogação na cabeça das pessoas, já atingi o meu objetivo. Se eu levar as pessoas ao questionamento, mesmo que elas cheguem à conclusão que elas estão certas e eu, errado, eu atingi o meu objetivo. O meu objetivo é que as pessoas pensem, reflitam. Isso é teológico, essencialmente teológico. Se eu pensar que Deus nos deu o dom da vida e se eu pensar que Deus nos deu o dom da vida nos fazendo como pessoas, pertence à característica da pessoa ser racional. Deus deseja não é um bando de ovelhas que abaixa a cabeça e segue o pastor. O que Deus deseja é que cada pessoa humana, na sua integridade, pense, use de toda a sua potencialidade de ser humano para poder entender esse mundo. Aí eu entro num caminho de verdade e de vida. Jesus Cristo disse: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Se ele é o caminho, eu tenho que olhar como ele caminhou e Jesus foi livre, essencialmente livre, autêntico, falou o que pensava e fez as pessoas pensarem. Ele era motivo de discussão e por isso vivia verdadeiramente.
Jornal da Cidade – Quando o senhor descobriu que deveria seguir a vida religiosa?
Beto – Eu sempre fui uma pessoa mística, inconformada com a situação. A caminhada mística começa com esse inconformismo, seja ele pessoal ou social. Eu sempre fui uma pessoa que estava em busca de algo. O meu histórico acadêmico é um histórico de busca. Até chegar à conclusão que o sacerdócio abrangeria todas as dimensões com as quais eu quero trabalhar, que são dimensões existenciais, eu levei muito tempo. Eu fui despertar com 26, 27 anos. Eu sempre tive essa necessidade de fazer alguma coisa, tanto no nível pessoal quanto no coletivo, que fosse significativa.
Jornal da Cidade – O estudo de teologia confirmou sua vocação...
Beto – Fui me identificando cada vez mais com a teologia que eu tive na Alemanha. A formação teológica alemã não é uma teologia de catecismo, mas sim uma teologia que leva ao questionamento. Eu tive um professor de Antigo Testamento que era um egiptólogo. Durante um semestre ele era arqueólogo no Egito e no outro ele dava aulas. Ele dizia assim: “a dúvida e a fé caminham juntas”. A fé sem dúvidas é infantil. Agora a dúvida sem fé cai no ceticismo. Então uma é amiga da outra e uma faz com que a outra se alimente. Isso fez com que eu compreendesse o papel de São Tomé. Ele é popularmente visto como aquele que não acreditou, mas as aparições de Tomé no Evangelho são fantásticas porque ele questiona e por questionar ele tem respostas. Se ele não tivesse duvidado, não teria havido a segunda aparição de Jesus Cristo aos apóstolos. Então muitas pistas a teologia na Alemanha foi me dando para entender que Jesus não veio fundar uma religião e não veio trazer uma vida regrada por normas que eu devo seguir cegamente, mas ele veio trazer um exemplo de vida que é uma vida de sabedoria, de conhecimento, de auto-conhecimento e por isso uma vida perigosa também porque mexe com todas as estruturas.
Jornal da Cidade – O senhor, além de religioso, é um pensador. Como essas duas posturas caminham juntas em harmonia?
Beto – As pessoas ainda vêem uma diferença entre o livre pensador e o religioso, o que é um grande erro. Ser religioso é ser justamente, ser integralmente humano e, portanto, utilizar a sua potencialidade mais sensível que é a razão. Então o saber e a religião estão intimamente ligadas, querendo ou não. Eu ouço comentários de que eu sou mais filósofo do que religioso e isso é um grande erro porque a filosofia é extremamente religiosa. Não há místico que não seja filósofo e em qualquer homilia você transmite uma filosofia de vida, é inevitável. Seja consciente ou não, qualquer padre, qualquer pastor, está transmitindo uma ética, formas de comportamento. Não há como separar o saber, o pensar sobre a vida, da religião, porque somos humanos e compreendemos Deus como seres humanos.
Jornal da Cidade – O senhor pratica algum esporte? Quanto tempo dedica aos seus hobbies?
Beto – Vou três vezes por semana à academia. Acho a prática de esportes importante. Não consigo ter um horário fixo para leitura por causa das atividades que surgem, mas assim que chego em casa, sento na minha poltrona para ler. Tenho muitos livros, gosto de comprá-los e os consulto muito. Tenho a mania de encapar os livros que eu leio com plástico então na minha biblioteca é possível ver os livros que eu já li inteiros e os que eu só consultei. Vou mantendo um controle.
Jornal da Cidade – Tem ciúme dos seus livros?
Beto – Eu tenho. Não os empresto de forma alguma. Vou deixá-los uma dia para uma biblioteca que atenda a comunidade mas enquanto estiver vivo vou cuidar deles. Mas eu não sacralizo o livro. Eu faço anotações, dialogo com o autor, marco idéias, escrevo. Então, futuramente, as pessoas que forem ler os livros que passaram pela minha biblioteca vão interagir com os meus pensamentos. O livro é para ser degustado e não para ficar intocado.
Jornal da Cidade – Algum gênero predomina em sua biblioteca?
Beto – O que predomina é teologia, filosofia, ética, mas eu tenho literatura também. Tenho a coleção inteira de Thomas Mann, de Brecht, de Shakespeare, de Schiller, de Nietzsche e por aí vai.
Jornal da Cidade – O senhor também tem muitos CDs e filmes?
Beto – Nem tanto, o livro me apaixona mais. Tenho os filmes que gosto de rever como “Magnólia”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “A Vida em Preto e Branco”, “Sociedade dos Poetas Mortos”, “Beleza Americana”... Tenho uma pequena videoteca e tenho muitos filmes que gravei da televisão na Alemanha, que passa filmes clássicos, fugindo um pouco dos filmes americanos. Sempre revejo esses filmes. Gosto muito de música também, trabalho com música no programa de rádio. Gosto de música para escrever também, mas tem que ser instrumental.
Jornal da Cidade – Na sua casa há uma coleção de imagens de deuses...
Beto – Me interesso pelas visões religiosas e desde que comecei a estudar teologia comecei a colecionar imagens artísticas de divindades de outras religiões. A primeira imagem que ganhei e que despertou o meu interesse foi um Krishna que ganhei de um amigo indiano, cristão, que morava no meu seminário na Alemanha. Hoje tenho desde imagens da cultura afro-brasileira até as culturas japonesa e chinesa. Guardo a coleção com carinho e procuro sempre enriquecê-la.
Jornal da Cidade – O senhor tem algum sonho?
Beto – Eu não tenho mais sonhos concretos a realizar. Se eu morresse hoje, morreria feliz, tranqüilo, dizendo assim “fiz minha parte, contribui do jeito que eu pude contribuir”. Talvez não tenha grandes sonhos para o futuro, mas não tenho medo de usufruir das oportunidades que aparecerem para contribuir para a melhoria do mundo, da sociedade, da humanidade.
Jornal da Cidade – O que o aguarda após a morte?
Beto – Eu acho que vou ter uma surpresa incrível. Acho que todos nós vamos ter uma surpresa porque todas as respostas que temos hoje são medíocres frente à realidade do pós-morte, se ela existir. Mas não é isso o que conta. O que conta é o aqui e agora. É procurar caminhar de uma forma tal que o que eu faça, aqui e agora, tenha um significado.
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Perfil
Nome completo: Roberto Francisco Daniel
Local de nascimento: Bauru
Idade: 41 anos
Irmão: Native Paulo Daniel, 46 anos
Hobbies: Leitura e cinema
Livro de cabeceira: A obra de Michel Foucault
Filme preferido: “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson
Estilo musical predileto: Jazz e rock progressivo, em especial o Pink Floyd
Time de coração: São Paulo
Para quem daria nota 10: Che Guevara, pela coerência e o idealismo; e o papa João XXIII, pelo ato de realização
Para quem daria nota 0: Para todos os comodistas.