Prestar vestibular como treineiro traz experiência, mas é preciso ficar atento para o lado negativo que a prática pode ter para adolescentes que estejam no início do ensino médio. Segundo a psicóloga Eponina Carvalho, do Núcleo de Orientação Vocacional, a maioria dos estudantes do primeiro ano ainda não tem maturidade emocional para fazer a prova.
“Eles estão numa fase de muitas cobranças e exigências consigo mesmos, se tiverem um resultado baixo, isso pode influenciar na decisão de escolherem uma carreira mais concorrida no futuro’’, explica.
Para ela, o concorrente que se dá melhor no vestibular é aquele que consegue se manter calmo. “E o estudante que começa a se preocupar com o assunto muito cedo costuma ser ansioso e tenso, assim como sua família.’’ Segundo a psicóloga, as preocupações com o vestibular não podem ocupar o espaço das atividades esportivas, culturais e sociais durante o início do ensino médio. “O apoio da família nesse momento é de fundamental importância’’, afirma Eponina.
A jornalista Susana Espíndola, que escreveu o livro “Vestibular - Evitando o Stress Familiar’’ (Editora Gutenberg) após acompanhar a passagem de dois filhos pelo processo seletivo, afirma acreditar que há dois perigos em fazer o teste antes da hora. “Se o estudante for bem, pode baixar a guarda. Se for mal, tem uma frustração que poderia ser evitada. Meus filhos fizeram só simulados’’, conta.
Para Espíndola, os simulados podem ser menos danosos para a parte emocional do estudante. “Acho que estes testes já valem como treinamento para o estudante saber qual é o tipo de prova que o vestibular oferece’’, diz.
Rafael Parpinel Cavina, 15 anos, que fez o vestibular da Fuvest como treineiro no final do primeiro ano do ensino médio, afirma que seu bom desempenho na primeira fase - ele acertou 64 de 90 questões - serviu para deixá-lo tranqüilo, mas não ao ponto de parar de estudar. “Agora, no segundo ano, vou estudar mais para as olimpíadas de física e matemática. No terceiro ano, eu vou me dedicar a valer para o vestibular.’’
A mãe de Rafael, Adriana Parpinel Cavina, avalia que a experiência é positiva para o filho. “Ele é estudioso, se interessou em fazer e eu achei bom. Ele vai olhando o esquema, o ambiente e no vestibular de verdade não vai passar nervoso’’, afirma.
A partir do segundo ano já fica mais interessante prestar o vestibular como treineiro, segundo Eponina. “O aluno já está mais preparado para se familiarizar com os tipos de questão, com o clima do vestibular e o ambiente que terá de encarar no ano seguinte.’’
Natália Dalsenter Avilez, 17 anos, que terminou o segundo ano do ensino médio no ano passado, fez a prova do vestibular da Fuvest pela primeira vez como treineira por sugestão da mãe. “Ela fez na época em que estudava e disse que achava interessante que eu fizesse’’, afirma.
A estudante fez também a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para sentir o clima e saber que tipo de questão é cobrada. “Achei as questões mais fáceis que na Fuvest’’, avalia. Após ter um bom desempenho na primeira fase da Fuvest - ela acertou 59 questões - e ter passado para a segunda etapa, Natália diz que descartou a hipótese de fazer cursinho e terceiro ano do ensino médio ao mesmo tempo. “Acho que vai ser melhor, e suficiente, estudar em casa depois do colégio’’, afirma.
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Fuvest
Desde o início do vestibular da Fuvest, em 1976, estudantes participam do processo seletivo antes do último ano do ensino médio para ter o primeiro contato com a prova. Com o passar dos anos, a adesão ficou tão grande que, em 1995, os coordenadores do vestibular decidiram passar a diferenciar os vestibulandos reais dos que estavam apenas treinando. “Em algumas carreiras, como enfermagem, que era menos concorrida, eles chegavam a ser a maioria dos candidatos’’, afirma Roberto Costa, coordenador do vestibular da Fuvest.
Para que a distorção deixasse de existir, a partir daquele ano, os estudantes que não haviam terminado o ensino médio começaram a concorrer em três carreiras fictícias, exclusivas para treineiros. Eles podem escolher entre as áreas de humanas, exatas e biológicas para que possam fazer provas de suas áreas específicas se passarem para a segunda fase.
Quem escolhe humanas faz os mesmos testes de direito - português, história e geografia. O pessoal de exatas faz as provas de engenharia - português, matemática, física e química - e quem opta por biológicas faz os de medicina - português, biologia, física e química. Além disso, os treineiros têm uma lista separada de aprovação.
Já no vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os treineiros fazem a inscrição normalmente, têm que escolher uma carreira para concorrer como os outros candidatos e fazem as provas como qualquer outro vestibulando. A única diferença é que eles não aparecem na lista de aprovados. Os treineiros ficam sabendo se teriam sido aprovados ao acessar a página com informações sobre seu desempenho individual no site www.convest.unicamp.br.
Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), os treineiros fazem todo o processo seletivo normalmente e seus nomes são divulgados até na lista de aprovados - mas eles não podem fazer a matrícula. Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), treineiros já preenchem uma inscrição específica e têm uma classificação que é feita separadamente.