Reza a lenda de que estudantes são todos “duros”, ou seja, não dispõem de muitos recursos para sobreviver. Na prática, é difícil saber se essa afirmação é ou não verdadeira. Em todo caso, um olhar rápido sobre as moradias dos jovens que cursam universidade em Bauru ajuda a dar uma idéia de qual seria a resposta para questão.
Grande parte deles opta por quitinetes, apartamentos de área reduzida, em geral divididos apenas em sala e cozinha. A razão para isso é simples. “Como esses locais são menores, o aluguel deles costuma ser bem mais barato do que o de uma moradia comum”, explica Célio Pessan, diretor de uma imobiliária em Bauru.
O inconveniente nesses casos é ter de morar sozinho. Nem todos se importam; a estudante de relações públicas Juliana Cristina Tancler, 25 anos, até prefere. “Acho melhor assim, pois dessa forma posso resguardar minha privacidade”, pensa.
Ela é de Botucatu e está pronta para se mudar para um apartamento nas imediações do shopping. Prestes a deixar a família, Tancler admite ter receio em relação a repúblicas, outra forma de moradia muito procurada pelos universitários que estudam em Bauru. “Nada garante que a convivência com as demais pessoas irá ser boa. É quase como jogar com a sorte”, acredita.
A bióloga Diana Calcidoni Moreira, 24 anos, nem quis arriscar. Logo que se mudou para Bauru, em 2004, ela foi morar sozinha em um apartamento nas proximidades do campus da Universidade Estadual Paulista, na zona leste da cidade.
“Já me chamaram para morar em república, mas preferi continuar aqui mesmo. Tenho meus próprios hábitos. Seria complicado dividir uma casa com mais gente”, diz ela. Nem todos compartilham dessa opinião.
Rodolfo Tragueta, 26 anos, é recém-formado em química pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Desde que veio para Bauru, em 2002, ele tem vivido numa república localizada no bairro de Higienópolis (região central da cidade).
“Quando me mudei para cá, a casa só tinha estudantes da Universidade de São Paulo (USP). Depois eles se formaram e foram se mudando, e meus colegas de faculdade acabaram vindo morar comigo”, explica o químico, que é natural de São Paulo, Capital.
Atualmente a casa é ocupada por seis rapazes. Tragueta garante que entre eles atritos são difíceis de ocorrer. “De vez em quando rola alguma discussão por causa de valor de contas, mas são coisa naturais”, pensa.
O estudante Fernando Narita, 23 anos, também mora numa república (denominada “Arapuca”), só que com mais sete rapazes. A casa está localizada na Vila Universitária, nas redondezas do campus da USP - por sinal, uma das regiões de Bauru mais procuradas pelos universitários.
“Em geral os estudantes gostam de viver em casas, pois elas dão mais liberdade aos moradores. Eles querem dar festas e receber visitas quando bem entender. Num condomínio esse tipo de coisa não é permitido”, explica Célio Pessan.
A residência alugada pelos amigos é espaçosa: tem três quartos, uma edícula e até piscina. Todo esse conforto compensa a perda de privacidade no dia-a-dia. “Como dividimos as contas, elas acabam não pesando muito no bolso de cada um”, explica.
O estudante estima que seus gastos mensais com moradia girem em torno de R$ 200,00, valor bem inferior ao que gastaria caso morasse sozinho. “Além de economizar dinheiro, a gente aqui tem a vantagem de sempre estar na companhia dos amigos”, pensa Narita.
____________________ Em busca de segurança
Apesar de toda liberdade e conforto proporcionados pelas casas, alguns universitários não abrem mão, de maneira alguma, da segurança oferecida pelos apartamentos. Natural de Bady Bassitt, região de São José do Rio Preto, Adalberto Ribeiro vive em Bauru há cerca de um ano.
“No começo, eu morei numa república no Altos da Cidade. Era uma casa bem espaçosa”, conta. Devido à distância do local em relação à Universidade Estadual Paulista - onde cursa licenciatura em física -, Ribeiro resolveu se mudar para um apartamento relativamente próximo à faculdade, ao lado do shopping.
A distância da moradia em relação ao local de estudo não foi o único fator levado em conta no momento da escolha. “Não há como negar que apartamento dá mais segurança. Você tem a certeza de que ninguém vai invadir seu lar quando ele estiver vazio”, argumenta.
Essa tranqüilidade também fez com que a estudante de jornalismo Paula Maria Prado, 24 anos, resolvesse morar em um apartamento na Vila Universitária. Nascida em São José dos Campos, ela já experimentou diversos tipos de moradias desde que se mudou para Bauru, em 2004.
“Primeiro dividi um apartamento com uma amiga no Camélias. Depois fui viver em um prédio na rua Constituição, no bairro de Higienópolis. Em seguida, morei numa república instalada numa casa, no Altos da Cidade”, conta.
Após um desentendimento ocorrido entre as companheiras de república, o último lar acabou se desagregando. Prado foi obrigada a trocar de residência e não teve dúvidas. “Optei por uma apartamento, pois é mais seguro do que uma casa”, garante.
O valor das despesas (dividido com mais duas amigas que habitam o local) não é lá dos mais convidativos. “Gasto cerca R$ 260,00 em moradia, sem contar alimentação. Se for analisar, este é lugar mais caro onde já estive aqui em Bauru”, assegura.
Por outro lado, Prado considera que os gastos compensam. “Na época das férias, posso ficar três meses longe daqui com a certeza de que tudo vai estar no lugar quando eu voltar”, justifica.
____________________ Improviso
Nem só à base de regras rígidas funcionam as repúblicas estudantis de Bauru. Na verdade, o dia-a-dia delas costuma apresentar uma realidade oposta, marcada por um pouco de desorganização e por muita improvisação.
Os sete moradores da república “Arapuca”, na Vila Universitária - todos alunos da Universidade Estadual Paulista -, inventaram um novo tipo de churrasqueira móvel. Os tijolos que compõem a peça foram dispostos dentro de um carrinho de supermercado.
Dessa forma, a churrasqueira pode ser transportada com facilidade para qualquer lugar da residência. Quando faz sol, ela pode ser colocada ao lado da piscina; já nos dias de chuva, eles podem escondê-la na edícula. Desde que a inovação foi lançada, eles nunca mais tiveram de adiar confraternizações com os amigos devido ao mau tempo.
Na “Vira-Lata”, república localizada na mesma vizinhança, a criatividade das moradoras é tanta que chega a subir pelas paredes, literalmente.
“O contrato de locação nos obriga a devolver a casa inteiramente pintada para o proprietário. Por isso resolvemos liberar as paredes para que nossos amigos assinem ou deixem mensagens escritas”, explica a estudante de relações pública Lindsay Oliveira Barros, 22 anos, que vive no local com outras seis amigas.