“Ah, seu filho da mãe, você está atrasado (gargalhadas). Vamos conversar!”. É assim que Jair Rodrigues dá início à entrevista ao Jornal da Cidade, por telefone, falando de sua casa em São Paulo. E, pode ter certeza, é essa mesma descontração, simpatia, boa energia e humildade que o público deve encontrar hoje à noite, no show que um dos maiores nomes da música brasileira faz no restaurante Beef Street, no Alameda Quality Center.
“Não faz muito tempo que não vou para esses lados, acho que uns três ou quatro anos. Em Bauru, acho que um pouquinho mais. Mas é bom viajar. Fui contatado para mostrar meu trabalho, que é a profissão de cantar. Estou muito feliz de rever a cidade, rever os amigos”, prossegue Jair, 67 anos, nascido em Igarapava, Interior paulista.
Seu último CD, “Alma Negra”, foi lançado em 2005 e, para este ano, esse “mestre profissional do cantar” já tem alguns projetos na fila. “No ano passado, durante um mês em Londres, fiz um show com Elza Soares. De repente, armaram uma idéia de fazer um disco com ela e já estão programando de 25 a 30 shows pelo mundo todo, Japão, Espanha, etc.”, revela Jair.
Segundo o cantor, nem mesmo o repertório do disco está definido. “Vamos conversar depois do Carnaval, vamos sentar, Elza e eu, para acertar tudo. A única certeza é que o produtor será Rildo Hora”, adianta Jair. Com Elza Soares, outra “mestra” na profissão de cantar, Jair já havia dividido microfones no histórico programa “O Fino da Bossa”, que ele apresentava com Elis Regina.
Falando sobre suas parcerias, Jair é modesto ao citar como passeou entre muitos gêneros da canção ao encontrar, gravar e cantar com diversos nomes da música brasileira. “Quando apresentava o programa com minha querida Elis, cantei com Elza, mostrei um lado mais sertanejo, cantei seresta, cantei ao lado dos saudosos Sílvio Caldas e Ataulfo Alves... E ultimamente, canto sempre com Jairzinho e Luciana”, diz, referindo-se aos filhos Jair de Oliveira e Luciana Mello, prova de que talento musical, nesse caso, é genético.
Jair explica que o show que traz a Bauru é um retrato de sua trajetória na música, incluindo faixas de seu último CD, no qual regravou clássicos do samba. “Mesmo que seja a turnê de lançamento de um CD, não dá para ficar só cantando músicas do disco novo. Garanto sempre que vou cantar ‘Disparada’, ‘Deixa Isso pra Lá’, ‘Majestade o Sabiá’, ‘Menino da Porteira’... Canto as músicas conhecidas, que eu gosto de cantar, e com o decorrer do show, mostro coisas novas”, aponta.
Ele vem acompanhado de banda com bateria, viola, violão, teclado, baixo e, possivelmente, cavaco e percussão. “Ainda não sabemos como é a estrutura, mas quero levar um cavaquinista e um percussionista. Meu show é calcado nas músicas que o público conhece. Cantamos todo tipo de música, não tem só samba. Tem forró, música sertaneja, seresta. E tem sempre uma homenagem a Elis, canto ‘Arrastão’ ou aquele pot-pourri de sambas que gravamos (em ‘2 na Bossa’, que inclui ‘O Morro Não Tem Vez’, ‘Samba do Carioca’, ‘O Sol Nascerá a Sorrir’, ‘Diz Que Fui por Aí’).”
Comentando sobre seus sucessos, Jair se envaidece novamente ao comentar sobre o projeto “500 Anos de Folia”, dois CDs gravados ao vivo com diversos convidados e a proposta de homenagear a música brasileira - através de um de seus grandes intérpretes. “Esse show também foi gravado em DVD, sabia? Até hoje não saiu, não sei por quê. Foi muito legal, os CDs são bastante procurados. Devido ao pessoal dizer que quem gravou o primeiro rap fui eu (‘Deixa Isso pra Lá’), levei o grupo Camorra, o Rappin’ Hood, foi um espetáculo com todo esse pessoal, mais uma orquestra, três maestros... Foi direção do Jair (seu filho) com Bernardo Vilhena”, relembra, com carinho.
Ele também planeja começar a produção de um disco de inéditas, provavelmente para o segundo semestre. Ao final da conversa, Jair revela que a reportagem o interrompeu em uma tarefa. Ele faz uma temporada de shows no Rio de Janeiro com os maiores sambas-enredo dos Carnavais, no início do próximo mês. “Já fiz as pesquisas, mas estou passando as músicas de ‘long play’ (LP) para fita, para depois passarem para CD e eu poder estudar as letras. Muita coisa eu já cantei, mas tem que tirar as letras”, confessa. Quem sabe pedindo com vontade, o público de Bauru não ganha esse extra no show de hoje também?
• Serviço
Série “Grandes Nomes” recebe show de Jair Rodrigues, hoje a partir das 21h, no restaurante Beef Steeet do Alameda Quality Center (altura do quilômetro 335 da Rodovia Marechal Rondon). Ingresso a R$ 79,90 por pessoa com direito a jantar. Mais informações: (14) 3321-5005.
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‘Crooner’ e mestre
Jair Rodrigues de Oliveira nasceu em Igarapava (SP) e começou na carreira musical no final da década de 1950, em São Carlos, como “crooner” em bandas de baile. Na década de 60, ele passou a participar de programas de calouros na TV na Capital e chamou atenção ao ficar em primeiro lugar no “Programa de Cláudio de Luna”. Dois anos depois, já entrava em estúdio para gravar duas músicas: “Brasil Sensacional” e “Marechal da Vitória”, especialmente para a Copa do Mundo de Futebol.
O primeiro álbum veio em 1963, “O Samba Como Ele É”, mas foi com o segundo trabalho que o sucesso de Jair Rodrigues começou. Ele lançou “Vou de Samba Com Você”, em 1964, que trazia a música “Deixa Isso pra Lá”, de Alberto Paz e Edson Meneses. O sucesso da música fez com que Jair passasse a ser convidado freqüentemente para programas de TV, entre eles, o “Almoço com as Estrelas”, da extinta TV Tupi, apresentado por Airton e Lolita Rodrigues.
Em um desses programas, pediram para que Elis Regina e Jair Rodrigues cantassem juntos, sem ensaio ou acompanhamento. A parceria deu certo e, em 1965, eles começaram a apresentar juntos “O Fino da Bossa”, na TV Record. No ano seguinte, Jair participou novamente do festival com a música “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Conhecido por cantar sambas, Jair surpreendeu com uma interpretação emocionante e a canção empatou com a “A Banda”, de Chico Buarque e interpretada por Nara Leão, como vencedoras.
Além de trabalho de destaque a partir de então, com inúmeras canções de sucesso, Jair ainda partiu para uma carreira internacional pela Europa, Estados Unidos e Japão. Em 1971, gravou o samba-enredo “Festa Para Um Rei Negro”, da Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro.
Nos últimos anos, além do projeto “500 Anos de Folia”, Jair lançou os CDs “Intérprete”, com produção musical de seu filho Jair de Oliveira e participações especiais de Lobão, Dominguinhos, Wilson Simoninha e Luciana Mello; “A Nova Bossa por Jair Rodrigues”, com clássicos da bossa nova; e “Alma Negra”, com interpretações emocionantes do melhor do samba.
Da Redação