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Vanitas Vanitatum...


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Vanitas vanitatum et omnia vanitas (Vaidade das vaidades e tudo é vaidade). As palavras do Eclesiastes, e tantas vezes repetidas, mostram que o nada deste mundo nunca desencorajou as pessoas a assentarem-se sobre mil e uma futilidades. Há incontáveis acontecimentos mostrando a conexão da vaidade com o ser humano, desde que o mundo é mundo. Todos conhecem a lenda de Narciso, personagem da mitologia grega: apaixonado pela própria imagem ao mirar as águas de uma nascente, nelas se precipitou, pagando caro tributo à sua vanglória. Outro exemplo é o de Maria Antonieta, rainha da França e esposa de Luiz XVI. Quem teve a felicidade de visitar o Palácio de Versalhes, por certo ficou estarrecido com o fausto do guarda-roupa dela, ainda hoje conservado, permitindo-lhe, durante mais de um ano, trocar mais de dois vestidos por dia, sem repetir um só traje. Imprudente e pródiga, Maria Antonieta tornou-se impopular, e, embora sendo de somenos se sofreu ou não com dignidade, fato é que passou pelo cativeiro e morreu na guilhotina. Esses exemplos nos vieram à cabeça provocados por uma pequena nota na Folha de S.Paulo, do dia 19 de janeiro, próximo passado, página E2. Era uma notícia pequena, na coluna de Mônica Bergamo, afirmando que o presidente Lula, depois das férias no Guarujá, antes de voltar a Brasília, recebeu, na base aérea de Cumbica, o estilista Ricardo Almeida e o cabeleireiro Wanderley Nunes. A colunista continua, dizendo que, naquela ocasião, Lula ouviu dicas de estilo, aparou a barba e apanhou potes do produto francês que usa para não deixar os cabelos brancos ficarem amarelados.

Nada contra a um pouco de vaidade. Político que se preza não deve mesmo mostrar-se mal ajambrado, sob pena de ser ridicularizado. Mas, façam-nos um favor, chamar dois consultores de beleza para recebê-lo ainda no aeroporto - porque ninguém em seu juízo perfeito vai admitir que a dupla RA/WN estava lá por acaso - e, ainda por cima aparar a barba e apanhar potes de produto francês anti-amarelecente, é demais, não é não?

Nosso presidente não deveria estar mais preocupado ante a iminência da conferência de cúpula do Mercosul, no Rio de Janeiro? Em vez de chamar estilista e cabeleireiro, por que não chamou alguns ministros para trocar idéias até Brasília sobre o que poderia ser feito para que essa tal conferência não fosse a palhaçada que foi, quando um Evo Morales e um Hugo Chávez botaram pra quebrar, fazendo do Brasil uma espécie de quintal de suas próprias casas? Como está lá no jornal O Estado de S. Paulo, de 20 de janeiro, A3, “quem previu uma reunião apenas improdutiva e marcada pela retórica terceiro-mundista pecou por otimismo. A realidade foi pior.”

Há pessoas que já nascem blindadas e imunes a quantas tolices possam fazer. Parece-nos ser esse o caso de nosso recém-reeleito presidente. Ele pode cometer as maiores gafes, pode jogar papel de bala no chão, pode dizer que não sabe se estão roubando sob suas próprias barbas (aparadas e não amareladas), colocar acidentes geográficos em lugar errado no globo, chamar urubu de meu nego, que nada acontece para ele. Já outros políticos, coitados!, passam longe de deslizes e tragédias, como, por exemplo, essa do metrô de São Paulo, e já lhes imputam faltas e são cobrados energicamente por um mal que não cometeram.

E por falar em metrô, até a hora em que escreviamos esta matéria já tinham se passado alguns dias dessa tragédia e o presidente sequer havia enviado uma nota, nenhuma palavra de conforto ao governador e ao prefeito da Capital. Será que ele não sabia de nada, como de costume? É esse o comportamento adequado diante de fato tão lastimável que abalou não apenas São Paulo, mas grande parte do país? Ora, nosso presidente anda preocupado com outras coisas, aparentemente mais importantes. Não sabemos por qual razão lembramo-nos de Montherlant: para servir de exemplo a essa juventude o que nos falta é um mestre de conduta.

A autora, Maria da Glória De Rosa, é colaboradora de Opinião, e-mail: mgderosa@uol.com.br

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