Bairros

Descuidos com ‘fauna urbana’ afetam Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Na última quarta-feira, por volta das 13h, um cachorro vagava despreocupado pelas ruas do Jardim Redentor, zona leste de Bauru. Até aí tudo bem: as ruas da cidade estão repletas de animais abandonados. Pouco importa que ele estivesse com o corpo coberto de feridas e com alguns ossos da costela à mostra. Em outros bairros, animais nas mesmas condições podem ser achados aos montes. O interessante nesse caso, porém, é que cão passeava às vistas dos funcionários do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru.

Como era horário de almoço, vários deles estavam sentados na calçada, sob a sombra das árvores. A presença dos homens não intimidou o animal, que manteve os ritmo das passadas. Se quisessem, os funcionários poderiam tê-lo recolhido para o interior do CCZ, onde ele receberia alimentação e cuidados médicos. O fato é que ele passou ileso pelos trabalhadores. Quando o cão estava defronte à entrada do complexo, o portão se abriu e um carro apareceu. O bicho nem fez conta, como se adivinhasse que nada fosse lhe ocorrer.

É provável que o motorista nem tenha percebido a presença do cão. O veículo deixou o local e o cachorro permaneceu. Logo depois, o bicho resolveu ir para outra parte do bairro. Minutos depois, outros dois cachorros apareceram no lugar e também não foram recolhidos.

A situação pode parecer corriqueira, mas na verdade é grave, pois mostra que a presença de bichos abandonados pelas ruas se tornou algo comum para os bauruenses. Mesmo as pessoas encarregadas de solucionar o problema não se espantam em dar de cara com um cão sarnento solto pelas ruas.

Hoje eles são inúmeros. “Não temos como precisar o tamanho dessa população”, reconhece o chefe da seção de controle de zoonoses de Bauru, o médico veterinário Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez. A Secretaria Municipal de Saúde realizou um censo canino no final do ano passado, apenas com os animais domiciliados.

Foram identificados aproximadamente 60 mil cachorros vivendo nas residências de Bauru. Ao lado de todos esses cães, vive uma quantidade infindável de animais de outras espécies. Gatos, por exemplo, aparentam ser tantos quanto seus “rivais”. Só que pelas características comportamentais dos felinos (eles costumam ser um tanto arredios em relação ao homem), é quase impossível saber ao certo seu número.

Além de grande, a população animal de Bauru é variada. Nos bairros de periferia é possível se encontrar de cavalos e vacas até porcos e galos de briga. Só que a presença dessa fauna diversificada em meio urbano costuma trazer sérios riscos à saúde dos seres humanos.

Doenças como leishmaniose têm causado preocupação às autoridades sanitárias do município nos últimos anos. A infecção, típica de países tropicais, é considerada a principal zoonose de Bauru na atualidade.

A enfermidade só obteve êxito em se alastrar graças à presença de uma grande quantidade de cães abandonados e mal cuidados ao redor da cidade. O mosquito palha, transmissor da doença, fica contaminado após picar animais infectados.

Atualmente a secretária de saúde vem tentando eliminar os cachorros infectados por meio de eutanásia, na tentativa de impedir o avanço da doença, mas a medida gera controvérsias. Entidades de proteção aos animais consideram a alternativa cruel e pouco eficaz.

Enquanto outra solução viável para o problema não surge, muitos proprietários de cães ficam sem saber o que fazer. Ninguém quer ficar doente. Os mais prudentes buscam auxílio no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da prefeitura ou nas clínicas veterinárias, apelando para os sacrifício nos casos em que a infecção é confirmada.

Já os incautos (e estes são muitos) preferem descartar os cachorros da maneira mais cômoda possível: soltam o animal em algum lugar bem distante, para que a doença nunca mais venha a ameaçar a integridade do lar e de seus moradores.

De consciência tranqüila, o proprietário volta para casa, satisfeito por haver livrado a família do perigo iminente. Resta ao cão doente e esfomeado aguardar o socorro de umas das três entidades defesa dos animais existentes em Bauru ou então rondar sem rumo pelas ruas, deixando as ruas de Bauru ainda mais abarrotadas de bichos abandonados.

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