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O primeiro dia de aula

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

Nos primeiros anos de vida, a criança está muito próxima aos pais. A casa é seu habitat natural e sua relação com a família é a primeira referência de mundo. Diante deste cenário protetor, é fácil imaginar o forte impacto que a escola exerce no cotidiano infantil, principalmente quando se trata de alunos pequenos. Para muitos deles, o ingresso no ambiente escolar é acompanhado de dificuldades em adequar-se a este contexto, que inclui lugares diferentes e novas pessoas. Em alguns casos, sentimentos de alegria e excitação podem se confundir com medo e ansiedade.

Por isto, a participação dos pais facilita o processo de adaptação dos filhos ao novo colégio, defende a psicóloga escolar paulista Marta Bitetti. De acordo com ela, a presença da família no ambiente escolar é uma alternativa eficaz para que as crianças se sintam mais seguras e enfrentem a sala de aula sem sofrimento.

“Como a criança não tem a compreensão do tempo, acredita que a mãe está abandonando-a na escola e nunca mais voltará. Por isto, ela sente medo. Se a mãe está presente, a criança entenderá que ela pode desenvolver atividades em um outro espaço, no caso a escola, e sua mãe estará lá”, diz, ressaltando que a família permanece no espaço de ensino somente por um tempo determinado, até que a criança se acostume ao ambiente.

“O filho deve perceber que a mãe está na escola apenas para dar apoio emocional”, destaca Marta, uma das diretoras da escola de educação infantil Ápice, localizada em São Paulo, Capital. Este é um dos estabelecimentos de ensino existentes no País que utilizam o método na primeira fase de adaptação escolar dos filhos. No local, crianças a partir de 2 anos de idade, em média, dão os “primeiros passos” na vida escolar.

Na entrevista a seguir, a psicóloga detalha mais sobre o assunto e aborda o papel da família no aprendizado infantil, comportamento dos pais em relação ao ingresso escolar, além de dicas para que eles estimulem os filhos a entrar no “clima” de volta às aulas. Compartilhe os melhores trechos.

JC - Qual é a idade ideal para incluir crianças na escola?

Marta Bitetti - A maior procura por vagas, em geral, é na faixa etária de 2 anos e 2 anos e meio. Mas hoje em dia não existe idade ideal porque ambos os pais trabalham. Atualmente, a necessidade das mães entrarem no mercado de trabalho é muito maior do que há dez anos, então a criança vai cada vez mais cedo para a escola por conta da necessidade da família. Muitos pais procuram a escola como meio de sociabilização da criança; acreditam que o filho fica sozinho em casa, convive muito com adultos ou tem pouca oportunidade de brincar com outras crianças.

JC - Por que a presença dos pais ajuda no processo de adaptação dos filhos?

Marta Bitetti - Com a presença dos pais na escola, a criança se sente mais segura porque é a primeira vez que ela estará se desligando da família e do local no qual está habituada desde que nasceu. Ela conhecerá outro ambiente e por isto é importante que os pais estejam presentes. Em determinadas faixas etárias, principalmente na educação infantil, a criança tem a fantasia de estar sendo abandonada pelos pais.

JC – Por quê?

Marta Bitetti – Como a criança não tem a compreensão do tempo, acredita que a mãe está abandonando-a na escola e nunca mais voltará. Por isto, ela sente medo. Se a mãe está presente, a criança entenderá que ela pode desenvolver atividades em um outro espaço, no caso a escola, e sua mãe estará lá, ela não irá embora. É por este motivo que no começo da adaptação a mãe fica com o filho no ambiente escolar. Com o tempo e aos poucos, a presença da mãe na escola vai diminuindo; mas este tempo varia de acordo com cada criança.

JC – E como deve funcionar este processo? Os pais ficam dentro da sala de aula ou em outro espaço da escola?

Marta Bitetti – Em princípio, a mãe fica no espaço escolar. Ela não irá junto com a criança para a sala de aula. Mas existem exceções: se a criança não se adapta de jeito nenhum em outro espaço da escola ou com a professora, aí sim é permitido que a mãe a acompanhe até a sala, mas ela não ficará dentro, ficará próximo à porta da sala. Se a criança não desgruda da perna da mãe de jeito nenhum, estando perto da sala verá outras crianças em atividade e isto chamará sua atenção. De vez em quando, a professora irá convidá-la para participar de determinada atividade. Ela pode aceitar ou não, mas chegará o momento em que a criança se sentirá mais segura para avançar mais alguns passos.

JC – Todo este processo é natural?

Marta Bitetti – Sim. Por exemplo, se a mãe está no espaço escolar, quando a criança quer ir ao banheiro ou está com sede, pede para ela. E a orientação é que, nestas situações, a mãe peça para seu filho procurar pela professora. Ela deve ser neutra nestes casos porque a criança deseja ter o lado gostoso da escola e se divertir com brincadeiras interessantes e, ao mesmo tempo, contar com a presença da mãe. É tudo o que a criança quer: escola e mãe juntas. Mas o filho deve perceber que a mãe ou o pai está na escola apenas para dar apoio emocional.

JC – Qual é a eficácia deste método no processo de aprendizagem?

Marta Bitetti - A criança que faz uma boa adaptação na escola, quando estiver totalmente adaptada, se interessará muito mais pelo conteúdo do aprendizado desenvolvido em sala de aula. Ela prestará atenção em tudo o que lhe é oferecido e nos estímulos, sem se preocupar com a ausência da mãe. E então seu aprendizado se desenvolverá mais naturalmente e com curiosidade.

JC – No período da adaptação escolar, qual é a figura presencial mais importante para a criança, a mãe ou o pai?

Marta Bitetti – É aconselhável que seja uma pessoa na qual a criança confia emocionalmente, que ela goste muito e se sinta segura; pode ser a mãe, o pai, o avô, a avó, a babá ou a tia. Às vezes os pais trabalham e não podem fazer a adaptação e, nestes casos, pode ser outro familiar próximo ou alguém que ela se sinta segura. Quando se percebe, porém, que a criança é muito ligada à mãe, por exemplo, e não consegue evoluir nesta adaptação, uma sugestão é que ela conte com a ajuda de uma terceira pessoa na qual o filho também confia e possui forte ligação afetiva; em alguns casos a adaptação pode ser facilitada se não for feita com a mãe, mas tudo depende de cada criança.

JC - Crianças que são criadas por avós têm mais dificuldade em se adaptar?

Marta Bitetti - Não. Existem casos de crianças que moram com os avós e, na hora de se adaptarem ao ambiente escolar, é a mesma coisa.

JC - É mais fácil a criança se ambientar quando tem irmãos na mesma escola?

Marta Bitetti – Muito. Isto é um “gancho” para que a criança se adapte melhor na escola. Quando, por exemplo, a criança está chorando muito, é possível levá-la para ver seu irmãozinho que está em outra sala. Em muitos casos, o irmão mais velho é seu ídolo e isto dá segurança para a criança, facilitando a adaptação.

JC – Quais são os principais recursos para amenizar o impacto da criança em uma nova escola?

Marta Bitetti – Isto varia de acordo com a faixa etária. Por exemplo, se o aluno é muito pequeno e usa chupeta, no período e adaptação pode levar sua chupeta e, ao longo do tempo, aprender a guardá-la na mochila. A criança pode levar para a escola algum objeto ou brinquedo que ela goste muito e a faz sentir segura. O aluno maior também pode levar algum objeto que goste muito ou algo de sua casa que ele queira mostrar para a professora ou seus colegas.

JC – Quer dizer que a escola deve ser uma continuação da casa?

Marta Bitetti - Sim, mas em termos. A educação deve ser dada pela família. A escola ajuda a complementar esta educação. Porém, a escola pode ser uma continuação da família com relação à afetividade. Os pais devem valorizar a escola como o lugar onde ela tem atividades gostosas para fazer, mas também tem responsabilidade. Eles devem se mostrar interessados pelas coisas do filho, e a escola é uma delas. Devem participar das lições de casa, dos eventos e reuniões escolares. Isto ajuda a elevar a auto-estima da criança.

JC – Então, é aconselhável que os pais ajudem os filhos nas tarefas escolares?

Marta Bitetti - A família deve ajudar no sentido de fornecer todo o material que o filho necessita e propiciar à criança um ambiente favorável para que ela faça sua lição de casa, ou seja, um local que não tenha barulho e que possua uma mesa e cadeiras adequadas. E também devem incentivar o filho a realizar a atividade com autonomia. Todos os deveres de casa são possíveis de serem feitos para que a criança faça sozinha. Os pais podem estar ao lado do filho, na hora da tarefa, mais jamais fazer a atividade para ele.

JC – Voltando à questão da adaptação, como os pais lidam com o processo do filho na escola?

Marta Bitetti - Existem muitos pais e mães que têm dificuldade na separação, tanto quanto a criança ou mais. Alguns sentem culpa porque colocam o filho muito pequeno na escola devido ao trabalho e, na maioria das vezes, a família passa toda esta insegurança para a criança. O filho percebe que os pais estão inseguros por meio das entrelinhas, nas atitudes de sua família percebe que seus pais estão infelizes por ter que deixá-lo na escola.

JC – E, neste sentido, como a escola pode ajudar os pais?

Marta Bitetti - A escola pode chamar a família e conversar abertamente, questionando por que os pais estão deixando a criança na escola e o motivo da insegurança: se é por causa da criança ou pelo fato de não conhecer direito a escola. Por isto a adaptação escolar também é para os pais. Com este processo, aos poucos, ele vão se sentindo mais seguros. No processo de adaptação, os pais também podem conversar com outras crianças que estão no mesmo barco que eles; isso é bom para a troca de idéias e experiências.

JC –Os alunos pequenos se sentem mais ansiosos ao entrar em uma nova escola do que os de demais? Por quê?

Marta Bitetti – Eles ficam muito ansiosos. No início do período de adaptação, há crianças que desejam explorar a escola inteira porque o espaço é atrativo, possui brinquedos, parques e vários objetos coloridos. Por isto, uma vez que estão descobrindo, pode acontecer de na primeira semana a criança nem perguntar pelos pais, mas na segunda semana começar a chorar e dizer que não quer mais ir à escola. É normal que quando a criança entre na rotina normal ela sinta dificuldade para se adequar.

JC – As crianças não gostam de rotina?

Marta Bitetti – Pelo contrário, elas gostam de rotina e de limites. Aos poucos vão compreendendo a dinâmica da sala de aula e acabam gostando.

JC – Esta ansiedade também é notada em crianças do ensino fundamental e médio?

Marta Bitetti – O sentimento faz parte, principalmente, quando o aluno muda de escola. Quando isto não acontece, é mais fácil, porque são os mesmos amigos e o mesmo ambiente escolar. Mas quando ele entra em uma nova escola, todos têm ansiedade em relação ao que irão encontrar. Não sabem se os amigos são legais e demora um pouco até que eles encontrem sua turma. Por isto, alguns resistem, se sentem acanhados, não querem ir a princípio, mas este processo dura pouco.

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