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Especialistas criticam abordagem da bulimia em ‘Páginas da Vida’

Por Andrezza Capanema | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

O drama de Giselle (Pérola Faria) começou a comover os telespectadores na primeira fase de “Páginas da Vida” (Globo). Ainda criança, a personagem sensibilizava o público ao demonstrar os primeiros sinais da bulimia. Na segunda fase da trama, a garota chocou ao ter sucessivas crises quando Anna (Deborah Evelyn) proibiu o relacionamento com Luciano (Rafael Almeida) e quando o namorado foi seqüestrado.

Nas últimas semanas, porém, o problema deixou de ser discutido com a mesma freqüência, o que deixou especialistas em estado de alerta. São raras as visitas de Giselle ao consultório médico, por exemplo, e as conversas entre Anna (Deborah Evelyn) e Miroel (Ângelo Antônio) e Tereza (Renata Sorrah) e Luciano sobre a grave doença também sumiram.

“Alertar sobre o problema do distúrbio alimentar na televisão é sempre válido, ainda existe muita desinformação sobre o assunto, mas o tratamento não é nada simples, não é certo banalizá-lo. É importante conscientizar que o tratamento existe e que deve ser levado a sério. Não bastam algumas visitinhas rápidas ao consultório médico”, afirma Luciana Balbo Portella, pesquisadora do laboratório de psicanálise e psicopatologia da Unicamp.

Segundo a psicóloga e pesquisadora, a abordagem da bulimia na trama mereceria mais seqüências e, se fosse fiel à realidade, ainda mais tocantes. “O tratamento exige a ajuda de muitos profissionais e, em alguns casos, até internação. Não se pode fantasiar que é fácil e indolor”, completa.

Psicóloga do Hospital das Clínicas de São Paulo, Luciane de Rossi demonstra preocupação semelhante à da colega de profissão. “A novela pode dar a falsa impressão de que o tratamento da doença é fácil, quando é muito difícil para a pessoa doente e para a família.” Luciane de Rossi argumenta que, além da falta de tratamento adequado, a novela tem outro equivoco: “A personagem tem a aparência de uma adolescente comum, que nunca sofreu com o distúrbio alimentar, o que seria impossível na vida real. Uma garota que tem a doença desde a infância, como ela, teria uma aparência mais frágil ou marcas físicas provocadas pela doença.”

Na reta final da trama das oito, Manoel Carlos rebate as críticas das psicólogas, defendendo o tratamento dado ao tema em sua trama. “O nome da novela é ‘Páginas da Vida’, por isso existem tantas histórias ao mesmo tempo, vividas simultaneamente. O drama da Giselle foi bastante enfocado, mas existem outros temas na trama que precisam de mais espaço”, declara o autor, já acostumado com polêmicas.

O escritor fala também que a personagem continua sob cuidados médicos, mesmo que suas visitas ao consultório médico pareçam descompromissadas ou a família mais relaxada em relação ao delicado assunto. “Ela continua em tratamento e necessitando de atenção. Isso tem sido feito, não com a mesma assiduidade, mas tem sido feito.” Maneco surpreende ao antecipar que, ao colocar um ponto final na trama, o drama da adolescente não terá chegado ao fim.

“Quando a novela terminar, Giselle estará em tratamento, a caminho da cura, mas não curada. Não vamos fazer milagre. Trata-se de um tratamento difícil e constante.”

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