Depois de uma legislatura considerada a pior da história da Câmara dos Deputados, três candidatos disputaram a Presidência da Casa sob a expectativa da sociedade de que o eleito ponha uma pá de cal definitiva na sucessão de escândalos que marcou o último período. Pelo andar da carruagem, a impressão que se tem é da continuidade do mesmo rodar vagaroso e cheio de rangidos para cruzar conhecidos buracos e poças lamacentas.
Como dizia Aparício Torelly, o nosso Barão de Itararé, “de onde menos se espera, aí é que não sai nada mesmo”. Os três candidatos à Câmara evitaram assumir posições firmes sobre temas polêmicos. Nenhum deles se comprometeu a sepultar de vez a espúria proposta de reajuste de vencimentos dos parlamentares em 91%, elevando-os a R$ 24,5 mil mensais. Ganhou o candidato do PT Arlindo Chinaglia, com a ajuda do PSDB (incrível) no segundo turno. Este também jamais se comprometeu a acabar com um dos maiores instrumentos de maracutaias e mensalões, que é o voto secreto nas votações em plenário. O presidente Lula jura de pés juntos que não interferiu nas eleições das Mesas do Congresso. Mas, até hoje deixou seu Ministério em aberto, justamente para negociar postos de primeiro, segundo e terceiro escalões com a finalidade de garantir uma boa bancada de sustentação, a partir dos presidentes das duas casas. São eles que vão garantir urgência no exame das matérias que interessam ao Governo e, se preciso, engavetar as inconvenientes, como pedidos de instalação de Comissões de Inquérito. Haverá um enxurrilho de Medidas Provisórias. Só com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foram enviadas sete ao Congresso. Ninguém tem idéia o quanto essa governabilidade do Lula vai custar aos cofres públicos.
Admiro o otimismo de quem espera o fim das ambigüidades junto com o período eleitoral. Severino Cavalcanti, aquele representante do baixo clero que caiu envolvido por denúncias de corrupção, foi o único a não voltar. Nos flashes da vitória de Chinaglia, na tevê, apareceram zanzando pelo plenário figuras conhecidas como a de Fernando Collor, Paulo Maluf, Antonio Palocci “y otros más”. Volto ao Barão de Itararé que, se vivo fosse, hoje estaria com 112 anos: “Dize-me com quem andas eu te direi se vou contigo”.
A reforma política foi uma das principais bandeiras de campanha para a reeleição do presidente Lula, para não falar que foi a única. Pelo andar da mesma carruagem continuaremos com a “infidelidade partidária”. O fim de semana foi marcado por um intenso troca-troca de legendas, de acordo com a conveniência de cada um. Collor foi recebido no PTB por Roberto Jefferson. Nada a estranhar. Nem a justificativa de Tarso Genro, futuro ministro da Justiça: “o Governo não precisa fazer uma reforma política para ter governabilidade”. Isso até os peixinhos do fosso que cerca o Congresso Nacional sabem. Mas, “governabilidade” deveria significar ter base parlamentar para o exercício do ato de governar a favor do povo. Reforma política é outra coisa. É necessária para se reescrever as normas pelas quais as instituições públicas, entre elas os partidos políticos, devem ser regidas dentro de padrões éticos e legais. A não ser que se queira novamente escândalos como o do mensalão, dos sanguessugas, vampiros e outros bichos, cujos atores e autores estão soltos por aí.
Em política tudo é relativo. O que vale para a campanha pode perder o sentido depois da eleição. Depende do lado que a coisa vai. Volto ao Barão de Itararé já que humor e política sempre andaram juntos. “Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende do lado da porta do banheiro em que você está”. Só rindo...
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC