À primeira vista, as letras podem soar absurdas para um leitor um pouco desatento. “Sim, são histórias bizarras, mas perfeitamente plausíveis de acontecer no mundo de hoje”, confessa o autor e vocalista da Norman Bates E Corações Alados, Luís Paulo Domingues. No título, a síntese da obra: “Absurdos Plausíveis”, que será lançada nesta noite no Luna Bar e Restaurante ao som do músico Zé Paulo e com canja da Norman.
Na obra, 70 contos passeiam por lugares conhecidos do autor, como Bauru e o Sul do País, e outros apenas mapeados em livros, como a Ucrânia. Os passos de cada história são traçados por diferentes personagens que carregam as paixões do escritor por autores russos e filosofia. “Eu escrevo sobre as coisas que me instigam”, diz Domingues.
As diferentes histórias construídas ao longo dos últimos cinco anos encontram o ponto comum no absurdo real. “Quando comecei a escrever, percebi que havia um elo entre os contos e decidi reuni-los em uma única obra”, explica o autor, que não abre mão do humor ácido à sociedade. “Outro ponto comum entre os contos é a crítica a esta pós-modernidade atrapalhada que a gente vive”, afirma.
Para alimentar a mente, o autor devora toda leitura que cai em suas mãos, sem preconceitos. A música também é referência, mesmo que inconsciente, no processo de criação. “Os sons e as leituras interferem em tudo que escrevo”, garante Domingues. Na lista dos preferidos, os escritores Dostoiévski, Kafka, Milan Kundera e Julio Cortázar.
E quando situações reais inspiram frases fictícias, lá está o escritor com seu caderninho nas mãos fazendo anotações. “Eu sempre ando com meu bloquinho e anoto em pequenas frases as coisas que estou vendo na rua. Quando chego em casa, passo para o computador”, revela.
Playmobil
Os primeiros rascunhos começaram logo na infância como uma forma de dar seqüência à vida inventada aos bonecos Playmobil. “Eu criava histórias malucas, mas sempre esquecia no dia seguinte. Então minha mãe me deu um caderno para eu escrevê-las”, lembra Luís Paulo Domingues.
“Mas fui obrigado a parar de brincar e arrumei os livros e, depois, o jornalismo”, narra cronologicamente o autor, graduado em rádio e TV pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), em São Paulo, e em jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru.
Assim foram surgindo os romances em papel, a maioria deles hoje perdidos. E, se não fosse pelo literal suor do autor, a obra “O Intransponível da Comunicação”, já escrita na era da pseudo-informática em 1996, quase teve o mesmo fim que as anteriores. “Este livro foi escrito num computador 286 que não tinha impressora. Eu precisei ficar andando com a CPU até conseguir um scanner. Depois ainda tive que redigitar tudo”, diz em risos.
Nos últimos dez anos, além do livro de contos “Absurdos Plausíveis”, Domingues acumula oito romances e duas premiações em 2005 pela história “A Maior Verdade do Mundo”, que integra a obra lançada nesta noite. O conto foi vencedor do Mapa Cultural do Estado de São Paulo nas etapas Municipal e Regional e publicado em uma coletânea da editora paulistana Scortecci, como prêmio de outro concurso que o autor participou.
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Alternativo
Depois de percorrer sem sucesso editoras cariocas e paulistas para publicar seus livros, Luís Paulo Domingues encontrou em Bauru o reconhecimento por seu trabalho no Ateliê Ser do Bem. “Eu até recebi propostas de editoras, mas teria que pagar a publicação e o que buscava era alguém que acreditasse em meu trabalho”, conta o escritor.
Mais do que acreditar, as responsáveis pelo ateliê, Natasha Lamônica e Laura Farha, são fãs do trabalho de Domingues seja à frente de sua banda ou como escritor. “Ele costuma mandar as coisas que escreve por e-mail aos amigos mais próximos e nós adoramos tudo!”, conta Lamônica.
Mas a idéia de transformar as histórias do amigo em livro, ou melhor, em pano, só veio mesmo depois da visita à Bienal de Artes de São Paulo, em novembro do ano passado. “Lá, vimos um pessoal fazendo um livro em papelão e voltamos com esta idéia na cabeça”, lembra a artesã.
Para caber no orçamento, foi necessário retirar cerca de 50 contos e mais de 100 páginas da obra original, que devem entrar numa próxima edição. “Pretendemos lançar todas as produções do Luís. Foi muito legal a experiência de unir moda e literatura de forma totalmente artesanal”, analisa Lamônica.
Ao todo, “Absurdos Plausíveis” vai ganhar 50 exemplares com sete tipos de capas de pano, feitas à mão pelas artesãs. Todo o trabalho foi norteado pela preocupação ecológica: as folhas são recicladas e os panos são reaproveitados.
Além de dominar a costura, as duas ainda se aventuraram no trabalho editorial de revisão e diagramação do texto. “Nunca havíamos feito isso, mas o resultado ficou maravilhoso e poético! Financeiramente é algo ainda inviável, mas é necessário investir na cultura de quem produz algo legal na cidade para que não fiquem refém da indústria da literatura”, diz Lamônica.
• Serviço
Lançamento do livro “Absurdos Plausíveis”, de Luís Paulo Domingues, hoje, a partir das 21h30, no Luna Bar e Restaurante (avenida Getúlio Vargas, 6-15). Mais informações: (14) 3214-4933. A obra ficará à venda por R$ 12,00 no Ateliê Ser do Bem, localizado na rua Saint Martin, 16-34, ou pelo telefone: (14) 8113-6994.