Você é feliz? Ou foi? Ou ainda será? Quem sabe realmente dizer se é, mesmo, feliz? Há aqueles que não discutem o tema: já batem um carimbo em cima do assunto e pronto. Preferem arquivar a pensar. Vai que descubram que não são felizes?
Outros lamentam a felicidade perdida e não desfrutada no passado pela própria falta de capacidade de dar-lhe forma e destino. É a turma do “eu era feliz e não sabia”. A tribo do “retrô”, do retrovisor. Os mais realistas recomendam cautela, afirmando que ao nos debruçarmos para contar a porcentagem da felicidade em nossa vida, já estamos comprovando que não somos nada felizes. Pois, quem é feliz, não analisa. Então, é melhor mudar de assunto e bater na madeira.
E, finalmente, há o bloco que aposta todas as fichas na utopia da felicidade, como se o tal estado de espírito fosse apenas um almejo fantasioso da alma, louca para reencontrar a plenitude não possível nesse mundo físico.
Enquanto “la nave va”, eu sigo, nada cautelosa, tentando provocar a aparição da felicidade a qualquer custo. Quero ver que cara ela tem, quero olhar nos seus olhos, perguntar-lhe algo. Não a quero, como um vulto, passando correndo, nem me espiando por de trás da janela.
Lendo um filósofo chamado André Comte-Sponville, encontrei respostas mágicas para a questão do ser feliz. Uma definição que me soa como um poderoso insight é aquela que diz assim: “O momento de felicidade mais perfeito que um ser humano pode encontrar pela vida é a manhã que antecede a noite do natal, quando ainda somos crianças”.
Na tese, para explicar a afirmação, o filósofo francês argumenta que o maior nível de felicidade é aquele que pode ser medido momentos antes da satisfação de um desejo. Quando a criança está a apenas algumas horas de ganhar o tão desejado presente, aquele brinquedo que ela passou meses sonhando e escolhendo. Seria este o momento mágico em que poderíamos colher um raro flagrante daquilo que pode ser chamado de felicidade.
Depois, diz Sponville, “quando o brinquedo já foi aberto e brincado a exaustão, a criança fica chorona, sem conseguir entender por que não consegue ser tão feliz quanto imaginava ficar quando fosse finalmente botar as mãos no presente.” E o pai, atônito, pergunta: - Não era isso o que você queria tanto? Então, por que está chorando?
Na próxima cena, a criança já começa perguntar ao pai quando será o próximo Natal. Esse é um dos primeiros momentos em que flagramos em nós a necessidade do abstrato desejo para sermos concretamente felizes: um grande paradoxo. Desde cedo já começamos a intuir que a felicidade é mais fácil de ser sonhada e planejada do que vivida, ou brincada.
Ainda na mesma obra, o filósofo chama à discussão a questão do “amor”, desenvolvida por Platão e seus amigos, nos discursos proclamados durante o famoso “Banquete”. Na visão platonista, amor é desejo e desejo é falta. Segundo o grego Platão, só conseguimos desejar algo que nos falta, do contrário é desfrute, não desejo. E assim, para o platônico, fica explicada a situação amorosa: ama-se quando há desejo e, portanto, quando há falta. O objeto do amor deve estar ao alcance, porém distante da realização e reside aqui o paralelo entre o conceito platonista do amor e a explicação de Sponville para a felicidade. Um cenário em que há uma tensão entre o desejo e o desfrute, uma fina e enlouquecedora tensão, aquela espécie de “gana” que prepara as entranhas do ser humano para o clímax.
Idéia boa essa para mastigar: felicidade é a água do café fervendo; a fila da entrada do cinema; a manhã do baile; a descida da serra do mar; o vestido na vitrine; o dia do telefonema de resposta sobre a vaga de emprego; o batom sendo passado na frente do espelho antes da festa; o último dia de gravidez; a conferência do bilhete; a contagem regressiva; a proximidade das bocas antes do beijo; a criança dormindo; as cortinas se abrindo; as partituras se abrindo no palco; o trovão chamando a água e o avião preparando para libertar o planador no ar.
E assim sigo preparando o meu inventário de felicidade. Não quero ser pega desprevenida diante de oportunidades magníficas do cotidiano. E finalmente compreendi que o desejo tem algo de mágico: além de acelerar os nossos corações, o desejo é um tipo de vislumbre da felicidade e isso faz a gente muito mais feliz do que podíamos imaginar.
A autora, Luciana Gonçalves, é radialista e profissional de telecomunicações e marketing