O prefeito conseguiu mudar o nome do jogo. Ao invés de jogar buraco, vamos jogar Bauru. O povo está falando português, e o prefeito, tuguês - pela metade. Mas quero mesmo falar de lixo. Estava enterrando goiabas em meu quintal quando me veio o pensamento de que eu enterrava menos goiabas do que enterram gente no Iraque. Pensei também que a China vai precisar de dois Planetas Terra para estocar os produtos de 1.99.
Ao invés de cimentar o quintal, contribuindo com as enchentes, as pessoas podiam fazer uma horta. Outro dia escondi-me da chuva ali na esquina da 13 de Maio com a Rodrigues Alves. Em poucos minutos a Avenida transformou-se num rio. Impressionante. Por quê? Impermeabilizaram os quintais. Sobra cimento, falta sensibilidade.
Além de enterrar goiabas ruins, estou fazendo o mesmo com cascas de frutas e legumes, que servem de adubo para canteiros de hortaliças. Não posso mensurar em quanto podemos reduzir o volume do lixo posto na rua para a coleta, mas posso dizer uma coisa: é impressionante como reduz. Falo por experiência própria. Faça um teste. As cascas de três abacaxis e de vinte laranjas, por exemplo, dá um volume considerável. Se separarmos o produto orgânico das embalagens várias, ficaremos surpresos. Toda cozinha devia ter dois recipientes.
Um para o orgânico (cascas de banana, de laranja, de abacaxi, enfim, de frutas e legumes, restos de comida, etc), e outro para as tais embalagens diversas (plásticos de supermercado, pacotes vazios de mercadorias diversas, o aparelho de barba descartável, enfim, coisas miúdas). Porque temos o lixo graúdo, as garrafas de plástico (detergente, refrigerante, vinagre, óleo...), o vidro, as latas e latinhas em geral, que devem ter outros recipientes para acondicioná-los. Nem ia escrever nada disso, mas outro dia ouvi uma pessoa bem conhecida condenando um desses sofredores miseráveis que trabalha o dia todo na rua revirando lixo para conseguir cinco reais no final do dia. A pessoa não deve abrir os sacos de lixo para procurar latinha ou plástico, ou seja o que for.
Tá certo que tá errado. Agora o x da questão. Quem errou primeiro foi o bacana que misturou as cascas de frutas e legumes e restos de alimentos com latinhas de cerveja e plástico no mesmo balaio de gatos, fazendo o que o Sérgio Pôrto (Stanislaw Ponte Preta) poderia chamar de ‘o samba do criolo doido’. O criolo doido do Sérgio fez um samba misturando épocas, enfim, fez o que fazemos com o lixo: misturamos tudo, ensandecidamente. Estou aprendendo que misturar lixo é como rasgar Cervantes, quebrar Mozart, rabiscar Molière ou pichar Guernica. É desrespeitar o Criador. Mas há problemas bem maiores.
Julio Diogo