Quem supervaloriza títulos de mestres, doutores, pós-doutores e outros pomposos, desconhece os bastidores desse macabro palco. Sócrates adotava a posição de um sábio que apenas “sabe que nada sabe”. Como disse Platão: quem quer que esteja próximo a Sócrates e, em contato com ele, põe-se a raciocinar, qualquer que seja o assunto tratado, é arrastado pelas espirais do diálogo e inevitavelmente é forçado a seguir adiante, até, surpreendentemente, ver-se a prestar contas de si mesmo e do modo como vive, pensa e viveu.
No mercado acadêmico atual existe uma nova e rentável profissão: “produtores e vendedores de cursos de pós...” tipo quase isto: “temos financiamentos, parcelamos... Diplomas e certificados na mão ou seu dinheiro de volta...”. Assim, néscios empapelados com seus títulos “sem fundos”, afrontam pessoas e entidades que, aliás, os contratam para ensinar o que pouco ou o nada sabem (por valores equivalentes a isto), onde a mentira desbanca a verdade. Os inconseqüentes ditadores do ensino mercantilizado adoram essa troca, bastando observar que quando apresentam projetos de cursos ou instituições de ensino ao Ministério da Educação, os nomes dos professores são uns e após a respectiva aprovação os substituem por outros.
Nesse rentável universo do faz-de-conta, parece ninguém estar preocupado com a ciência e com o conhecimento. Interessam sim as estatísticas e o ganho! Esses discípulos de ninguém, nivelados por baixo, patronos ou vítimas da mentira, desencadeiam a ignorância em progressão geométrica e aqueles autênticos professores, detentores de autoridade moral para dizer verdades e apontar tais chagas do meio acadêmico, são alvos de perseguições, difamações, isolamentos (assédio moral), demissões, ou antecipações de aposentadorias.
A ciência se impõe pelo conhecimento e pela prova. A mentira necessita de subterfúgios para se manter. Quando não há dissimulações desses papeluchos (títulos menores), diferenciar mercadores e falsos sábios de cientistas é tarefa fácil. O cientista é isento de ódio, inveja, vaidade, interesses escusos, cultuando apenas o aperfeiçoamento desse maior legado da civilização. O verdadeiro cientista, como obtempera o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, é apenas aquele capaz de criar “uma ciência prudente para uma vida decente”.
No outro caso, a situação se inverte. Afinal, é necessário parecer orgulhoso, inacessível, arrogante e temperamental para ocultar a falta de preparo e a inércia intelectual. Doravante, passe a observar melhor nas salas de aulas ou relatos de alunos, bancas examinadoras, direção e coordenação de cursos, mesmo nas partes finais de escritos quando eles, inseguros, mencionam, frenética e desnecessariamente, uma série enfadonha de títulos e honrarias... Aos cientistas o altar da ciência. Aos mercadores o Código do Consumidor. Leis penais aos plagiatários e aos estelionatários. Urge uma agência reguladora séria, com um só peso e uma só medida a separar o joio do trigo. Na tarefa de diferenciar,tenha o cuidado que Sócrates não teve, pois a nossa sociedade continua dando cicuta para pessoas erradas...
Elias Mattar Assad é presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas- eliasmattarassad@sulbbs.com.br