Cultura

A queda de Babel

Por Gabriel Jareta | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Babel, no livro do Gênesis, é o nome da torre que os homens tentaram construir para chegar ao céu. Como castigo pela ousadia, Deus fez com que a humanidade passasse a falar várias línguas, para que os homens se confundissem. A Torre de Babel, portanto, é o marco bíblico da eterna impossibilidade da comunicação humana como um castigo divino.

“Babel”, o filme, parte dessa falta de entendimento para discutir a impossível relação entre pessoas que, por acaso, nasceram sob fronteiras e culturas diferentes e agora, por culpa da globalização, são obrigados a conviver. “Babel” também serve para mostrar que nem sempre uma produção caprichada e um acabamento modernoso permitem a um filme ser maior do que ele realmente é.

Dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, “Babel” trata, a rigor, de três histórias: uma no Marrocos, outra na fronteira entre os EUA e o México e a terceira no Japão. O ponto de ligação entre as histórias é um tiro disparado por um garoto marroquino, que atinge uma turista americana (Cate Blanchett), em passeio ao país com o marido (Brad Pitt) para superar uma tragédia pessoal. Enquanto isso, seus filhos nos EUA estão aos cuidados da babá imigrante que, numa atitude impensada, resolve levar as crianças ao casamento de seu filho no México.

Paralelamente, no Japão, uma jovem surda-muda tenta lidar com o recente suicídio da mãe, as tentativas de levar uma vida social normal e a relação difícil com o pai, que por sinal é o antigo dono do rifle que caiu nas mãos do menino no Marrocos.

Quem conhece os filmes anteriores de Iñárritu e do roteirista Guillerme Arriaga - “Amores Brutos” (2000) e “21 Gramas” (2003) - já imagina que as três tramas vão ser narradas de maneira intercalada e cheia de truques, com variações abruptas de tempo e espaço. Essa narrativa entrecortada não é novidade alguma no cinema, assim como a idéia de diferentes pessoas ligadas por um mesmo evento - vide o vencedor do Oscar 2006, “Crash - No Limite”. O que surpreende em “Babel” é a visão conservadora e por vezes preconceituosa da dupla.

Até pelo fato de ter sido dirigido por um mexicano, um forasteiro que poderia soprar novidades em Hollywood, o desfile de clichês em “Babel” chega a ser irritante. No filme, o Japão é o lugar da hiperexcitação audiovisual e daquela língua maluca que encerra profundos dilemas; o mexicano vive em meio à poeira e à breguice, numa terra onde ninguém parece confiável; o Marrocos é uma terra de ignorantes e desdentados, por cujas estradas os turistas gringos serpenteiam com seu ônibus como num safári exótico.

Pode-se até imaginar que as escolhas do diretor deveriam funcionar como uma “denúncia” da visão estereotipada dos americanos sobre o mundo aqui fora, mas o resultado final teve efeito contrário.

Essa estética acaba por ilustrar muito bem a moral por trás de “Babel”: a de que o mundo não é um lugar seguro, já que árabes e chicanos podem fazer uma besteira a qualquer momento. Porque o filme se baseia nisso e as histórias se unem por grandes besteiras, como a atitude inconseqüente de um menino no meio do deserto ou a idéia da babá de que não haveria problemas em cruzar a fronteira mexicana com duas crianças americanas. Essa estranha moral de “Babel”, a maneira trágica com que é mostrado esse incômodo chamado globalização, deixa um gosto amargo. Um amargor que - talvez com um pouco de exagero - faz com que pensemos: “É verdade, sempre precisamos de gente superior intervindo por nós”.

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Oscar

No ano passado, Alejandro González Iñárritu levou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes e, neste ano, “Babel” já ganhou o Globo de Ouro (a segunda mais importante premiação do cinema americano). No dia 25 deste mês, certamente deverá levar alguns Oscar das sete categorias a que foi indicado (melhor filme, direção, montagem, trilha sonora original, roteiro original e duas para atriz coadjuvante); não seria surpresa alguma se levasse o prêmio de melhor filme.

Méritos técnicos o filme têm, como a montagem e as belas seqüências no Japão, além de dois grandes trunfos: as atrizes Adriana Barraza, que interpreta a babá Amélia, e Rinko Kikuchi, a jovem surda Chieko. Ambas saltam aos olhos em “Babel”, especialmente a segunda, responsável pelos melhores momentos do filme, e que se comunica o tempo todo em linguagem de sinais, risinhos contidos e comoventes olhares.

“Babel “tem fotografia assinada por Rodrigo Prieto, já indicado ao Oscar por “O Segredo de Brokeback Mountain”, edição de Stephen Mirrione, vencedor do Oscar por “Traffic”, e trilha sonora de Gustavo Santaolalla, também vencedor do prêmio da Academia por “Brokeback Mountain”.

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