Escrevo a bordo de um vôo saindo de Manaus onde estive a trabalho por alguns dias. Penso na distante Bauru e alguns paralelos entre as duas cidades, vão se formando em minha mente. Relembro a Manaus que conheci há 12 anos, uma cidade caótica, com ruas estreitas, mal conservadas, trânsito congestionado, água turva nas torneiras, pois vinha direto do Rio Negro, praticamente sem tratamento e outras mazelas urbanas. Manaus beneficiou-se a partir da década de 1960 com a Zona Franca, porém, no início houve grande atração da população do interior e a infra-estrutura urbana entrou em colapso.
Em um país como o Brasil, onde 38% do PIB (tudo que se produz) acabam nas mãos do governo (a maior fatia no governo federal), cidades que são abençoadas com dinheiro público tem chance maior de se desenvolverem. Assim foi com Manaus, beneficiada com dinheiro público oriundo da renúncia fiscal e, de certa forma, também com Bauru através das muitas regionais de órgãos públicos as quais jorravam na cidade uma massa salarial significativa, além de outros benefícios. A partir da década de 1990, com as privatizações, Bauru começou a perder o privilégio dos bons salários de órgãos e empresas públicas, e hoje restam os salários dos aposentados, cujo volume tende a diminuir com o tempo. De forma semelhante, Manaus a partir dos anos 90, teve reduzido o volume de benefícios fiscais. A Zona Franca de varejo, onde se compravam produtos eletrônicos a preço de exterior, desapareceu. Hoje esses produtos chegam a ser mais caros que em Bauru. Ainda existem isenções para as indústrias, o que mantém a atividade econômica pujante. Mas, focando os últimos 12 anos, o que vejo é uma Manaus que se desenvolveu.
Hoje é uma cidade com belas avenidas, muitos viadutos, trânsito organizado e água tratada incolor nas torneiras. Está longe de ter resolvido todos os problemas, ainda tem apenas 17% de captação de esgoto, os igarapés estão muito poluídos e as favelas em suas margens persistem. Mas, os progressos na última década são visíveis. Bauru, por outro lado, estagnou nos últimos 12 anos: é gritante a deterioração dos equipamentos urbanos, a fuga de grandes empresas, o aumento da criminalidade, etc. Fica a dúvida: se no passado ambas as cidades se beneficiaram de dinheiro público que foi reduzido nos últimos 12 anos, porque Bauru estagnou e Manaus desenvolveu-se? Discutindo esse tema com colegas engenheiros residentes em Manaus, concluímos que a atitude política faz muita diferença. Manaus contou nesse período com políticos cheios de defeitos como quase todos, porém combativos na defesa da cidade e dispostos a realizar muito, para deixar sua marca, que seja. Bauru nos últimos 12 anos sequer elegeu um deputado federal e elegeu prefeitos sem atitude, sem combatividade que só fizeram alardear a falta de dinheiro para justificar sua inépcia. Todos sabemos que trazer dinheiro público para a cidade é trabalho difícil, para realizá-lo precisamos de políticos competentes. Bauru não os tem, ou se tem, não os elege.
Desse jeito, a Bauru que voava alto nas décadas de 70 e 80, precisa se preparar para um pouso forçado em seu novo aeroporto feito com o dinheiro do Estado e da União, ninguém sabe para que. P.S. De volta a Bauru, vejo na manchete do JC de hoje (09/02/07) que o prefeito Tuga Angerami e o deputado Pedro Tobias vão ajustar suas agendas para reivindicações sinérgicas junto ao governo do estado. Ótimo, parabéns aos dois. Mas pergunto: e junto ao governo federal com seu tesouro estofado, quem vai atuar?
O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião - eric@mstecnologia.com.br