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Entrevista da semana: ‘Zôo moderno é pesquisa, não lazer’

Marcelo Ferrazoli e Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Se fosse um político populista ou um marqueteiro de plantão, o zootecnista Luiz Pires poderia muito bem mudar o seu nome para Luiz Zoológico de Bauru Pires. Nem uma outra pessoa tem o nome e a vida tão associados à instituição como ele, que está no zôo há nada menos que 24 anos, desde quando estava na faculdade.

Sob o seu comando, o Zoológico de Bauru, inaugurado em agosto de 1980 com muitos animais vindos de um zôo fechado em Bastos, deixou de ser um local com bichos enjaulados para se tornar o lar de 850 criaturas de 227 espécies que no último ano recebeu nada menos que 180 mil visitantes de Bauru e região. Mas Pires quer mais. Segundo ele, o zoológico tem tido o seu crescimento limitado pelo orçamento municipal e é preciso buscar soluções para o desenvolvimento sem onerar a cidade.

Na entrevista a seguir, Pires fala sobre o seu total envolvimento com o zoológico e com os bichos, que estão presentes na sua vida até mesmo nas horas de lazer. Apaixonado pela profissão, ele explica por que é preciso cuidar dos animais e comenta os sinais que o mundo está sentindo por ter – durante séculos – ignorado e desrespeitado a natureza. Leia os melhores trechos.

Jornal da Cidade - O que representa o Zoológico de Bauru para o senhor? Ele é a sua vida?

Luiz Pires - Saí para estudar zootecnia em Botucatu em 1978. Fiquei quatro anos e voltei em dezembro de 1982. No dia 2 de janeiro de 1983 comecei a trabalhar no zoológico. Isso aqui representou tudo... minha família foi constituída depois de eu já estar trabalhando no zoológico. Não sei o que vai acontecer o dia em que eu tiver que sair daqui.

JC - O senhor já pensou nisso?

Pires - Isso é inevitável. Se dependesse de mim, eu ficaria aqui até não ter mais forças ou condições, mas a gente sabe que esse é um cargo que eu posso deixar a qualquer momento, como diretor, porque sou funcionário de carreira da prefeitura. Mas esse é um pensamento que a cada quatro anos, quando há a mudança de prefeito, passa pela cabeça da gente. Por mais que a gente tente se preparar, eu sei que vai ser um choque, mas um dia vai acontecer. É praticamente inevitável. Eu estou há 24 anos no zoológico e é uma coisa rara alguém conseguir se manter um tempo todo desse. Prefiro pensar nas coisas que temos pela frente. Ainda me acho novo, tenho muito para produzir.

JC - Como é trabalhar com animais?

Pires - O zootecnista é formado para trabalhar com produção animal, mas quando se trabalha com animais selvagens o desafio é muito grande porque existem coisas diferentes todos os dias. Quando se forma numa área agrária e vai trabalhar com bois, por exemplo, se for nelore, guzerá, tudo é boi, o manejo é o mesmo. Com animais selvagens, as coisas são diferentes. Cada um requer um trato diferente. São animais que ainda estão sendo estudados, que se precisa conhecer mais sobre as técnicas de manejo no cativeiro. A gente estuda muito e tem que estar plugado em tudo o que acontece, participando de congressos e conversando com pessoas do mundo todo que lidam com esses animais para, com os erros e acertos dos outros, a gente ter cada vez mais sucesso nessa tarefa que é difícil. É um contra-senso na verdade, a gente tem que prender o bicho para garantir que ele fique vivo.

JC - Algumas pessoas criticam os zoológicos por isso...

Pires - Essas pessoas que dizem não gostar dos zoológicos porque eles mantêm os bichos presos não entendem que, se não houvessem esses bichos presos, muitos deles não existiriam mais na natureza. Esses animais pagam por um desmazelo que o homem teve com o planeta até hoje. Se eles estão presos, a gente não tem que ter dó. Tem é que dar a maior força para que os locais onde eles estão presos sejam voltados para eles. Esse é o grande desafio: fazer o zoológico moderno, que deixou de ser uma atração pública. O zoológico moderno oferece lazer como conseqüência dos trabalhos que ele desenvolve de reprodução, pesquisa e educação ambiental. O que a gente tem visto nos últimos anos é que só tem sobrevivido no País aqueles zoológicos que têm esse perfil.

JC - Quais são os animais que dão mais trabalho?

Pires - O animal que mais dá trabalho no zoológico é o homo sapiens. Em todos os sentidos. A gente tem que trabalhar e fazer as pessoas entenderem porque estão trabalhando de tal jeito e também fazer os visitantes entenderem que eles não estão no zoológico para humilhar ou se fazer de superiores diante dos animais que estão presos. Isso é o que dá mais trabalho: conciliar o trabalho de pesquisa, preservação e educação ambiental com a visitação pública. O animal preso acaba se acostumando com o fato da sua comida vir do tratador, da sua água vir do tratador, os cuidados... Em pouco tempo de cativeiro ele se acostuma com a rotina do zoológico. Duro é quando ele começa a enfrentar ameaças externas, como aquelas pessoas que insistem em jogar coisas, perturbar...

JC - Qual o público hoje?

Pires - Temos, em média, de 15 a 16 mil pessoas por mês. No ano passado tivemos mais de 180 mil visitantes. O Zoológico de Bauru é uma opção de lazer da cidade e da região. No ano passado recebemos 47 mil crianças de escolas, sendo 70% de outras cidades. O zoológico acaba sendo um atrativo regional. As pessoas vêm pra cá visitar o zoológico e acabam indo depois para outros pontos da cidade: shopping, aeroporto, restaurante.

JC - O senhor lembra de algum caso curioso ou marcante que tenha acontecido no zôo?

Pires - É um fato triste. Casos diferentes nós temos todos os dias, mas o que mais marcou a história do zoológico nos últimos anos foi o caso dos tigres. Houve uma fuga - que até hoje não sabemos como ocorreu - e tivemos que acabar sacrificando os animais. Agora histórias engraçadas eu não lembro, acontecem tantas coisas que para mim deixam de ser marcantes. São tantos anos... minha vida é isso aqui, das 7h às 17h.

JC - Os tratadores têm que lidar com algumas espécies perigosas. Como eles se acostumam?

Pires - Eles se acostumam, mas a gente precisa sempre lembrá-los das normas de segurança porque, às vezes, como passam a fazer o mesmo serviço por um bom tempo, eles passam a confiar muito. Precisamos lembrar sempre que esses são animais selvagens que ficam mansos, mas não são animais domésticos, eles não perdem os seus instintos. Tivemos o caso de um tratador que um dia encontramos limpando a jaula do urso. Ele dentro, limpando de um lado, e o urso do outro. Como ela fazia isso há anos, achava que o urso não ia pegá-lo nunca. De repente era uma pessoa no mesmo espaço que um animal que nunca tinha tido contato próximo com o ser humano. Foi loucura, excesso de confiança.

JC - Quantos funcionários trabalham no Zoológico de Bauru hoje?

Pires - No total, entre portaria, vigilância e limpeza, temos 45 funcionários. Desses aí, muitos já são funcionários há mais de 15 anos. Há alguns anos a Secretaria da Administração fez uma pesquisa para entender os funcionários da prefeitura, saber o que eles achavam do ambiente de trabalho e tal. O resultado do zoológico foi interessante. As pessoas reclamavam de serem funcionárias da prefeitura, mas diziam adorar o zoológico. São funcionários que vestiram a camisa. Quando forma um grupo desse jeito é muito mais fácil tocar o negócio, eles estão sempre presentes e isso é legal.

JC - O senhor consegue se desligar do zoológico em casa?

Pires - Nos fins de semana eu dou uma passada aqui para ver se está tudo bem e me retiro para o meu rancho, que fica em Pederneiras, na beira do Tietê. Lá vou ver bicho livre, vou pescar. Durante a semana fico em casa, sou muito caseiro. O problema é que, depois da TV a cabo, tem muito documentário sobre bicho na televisão, então é National Geographic, Animal Planet... Saio daqui, chego em casa, ligo a televisão e a minha mulher às vezes diz: “É bicho o dia inteiro e quando você chega vai ver bicho na TV!”.

JC - O senhor se acha parecido com algum animal?

Pires - Nunca pensei sobre isso. É claro que sempre têm apelidos e brincadeiras relativas à forma física, ou porque era magro, ou sem barba, agora pelos cabelos grisalhos. Mas digo que hoje estou na fase do condor. Com dor no ombro já faz três meses... Mas eu nunca fiz essa relação com os bichos, até evito dar nomes aos animais para estar sempre consciente de que gente é gente e animal é animal.

JC - Seus filhos vão seguir sua carreira lidando com os animais?

Pires - Meu filho, apesar de eu tentar fazer com que ele não seguisse a minha área, vivendo dentro do zoológico comigo, não teve jeito. Ele está terminando o curso de biologia e pretende trabalhar com animais e minha filha ainda está terminando o colegial. Mas ela não vai seguir a área. Ela está entre medicina e jornalismo. Chega de bicho!

JC - Na última semana a questão do aquecimento global dominou as manchetes no mundo todo. Muita gente diz que os ambientalistas são exagerados e alarmistas, mas o senhor já disse nesta entrevista que os animais pagam pela irresponsabilidade do homem com o planeta. Como o senhor vê a questão?

Pires - A gente está pagando a falta de atenção que tivemos no começo dos anos 80. Quando o movimento ambientalista estava no seu máximo na Europa, com muitos representantes nos parlamentos, aqui a gente achava que quem gostava de árvore, de bicho, era gay ou drogado. Durante muito tempo essa idéia permaneceu. Naquela época, que tínhamos o clima certinho em todos os lugares, ninguém acreditava que mudanças podiam acontecer. Todo mundo achava que era coisa para o futuro distante, para o século XXI, que parecia muito longe. O que impressionou é que essas mudanças vieram muito mais rápidas do que se imaginava e de modo devastador. Se você ligar a televisão hoje vai ver a notícia de algum país que sofreu a maior enchente dos últimos 30 anos, a maior seca dos últimos 30 anos, o maior inverno. Outro dia vi que no Japão o inverno em certo local não teve neve como eles estavam acostumados. O que aconteceu: não foi dada a devida atenção. Outro problema aconteceu. Muita gente que entrou na onda ambientalista entrou sem saber o que falar. Então, ouvimos declarações das mais burras... Políticos que entraram para aproveitar o filão. Tudo isso desacreditou, no primeiro momento, esse movimento verde.

JC - E agora?

Pires - Agora estamos num momento em que não dá mais para segurar. Os prejuízos estão vindo para todo mundo e, quando passaram a atingir diretamente o ser humano, a gente começou a prestar atenção. Hoje está saindo muito mais caro para os governos bancar os prejuízos dessa natureza louca do que tentar mudar sua matriz energética. O Bush já marcou uma viagem no mês que vem para o Brasil para discutir o nosso modelo de álcool, para padronizar o álcool americano com o brasileiro para poder rodar o mundo. O Japão já está importando álcool... Quer dizer: já se sabe que vai ser preciso mudar, só que agora vão ter que correr atrás. Antes poderia ter mudado sem tanto prejuízo. Agora vão ter que correr atrás e vai ser difícil. Coisas piores vão vir por aí, isso pensando no ser humano. E para o animal, que adaptou todo o seu ciclo de vida com base no clima? O ser humano muda, mas o animal não altera a sua memória genética, a evolução o levou a seguir um ciclo de vida. Se a gente continuar tendo nos próximos anos frio na época do calor, seca na época da chuva e vice-versa, nós vamos levar uma série de animais à extinção.

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Perfil

Nome completo: Luiz Antonio da Silva Pires

Local de nascimento: Bauru

Idade: 47 anos

Filhos: Dois

Cor preferida: Amarelo

Hobby: Pescar

Livro de cabeceira: “Trinta Segundos sobre Tóquio, que traz o relato de um dos tripulantes que atacaram o Japão em resposta a Pearl Harbor e impressiona pela riqueza de detalhes.”

Time de coração: “Noroeste e Corinthians, mas quando o Noroeste está na Primeira Divisão, sou Norusca.”

Para quem daria nota 10: “Para todos os que assinaram o Protocolo de Kyoto (documento que obriga os países a diminuírem a emissão de gases tóxicos na atmosfera).”

Para quem daria nota 0: “Para o presidente americano George Bush, que insiste que o mundo ainda não está aquecendo. Isso mostra que ele não representa o povo americano, mas sim a indústria petrolífera, da qual é um digno representante.”

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