Cultura

Garoa de samba

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Já faz um tempo que os olhos e os pés de foliões de todo o mundo não ficam apenas na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval. Nos últimos anos, a cidade da garoa afrouxa o nó da gravata para receber chuvas de serpentinas e também cair no samba. Mas, para muita gente, São Paulo ainda precisa sambar para alcançar o prestígio da festa carioca.

O problema não está na ginga, nem no brilho, muito menos na bateria. Para Jorge Luís Marques, carnavalesco responsável pelo figurino do Grêmio Recreativo, Cultural e Social (GRCES) Império de Casa Verde, a escola bicampeã do Carnaval paulistano, o que falta para movimentar o Anhembi é dinheiro. “Eu acredito que nós temos condições de atingir a mesma qualidade do Rio, desde que tenhamos mais verba. No Rio, as escolas recebem três vezes mais do que a gente”, compara.

Foi com essa preocupação que o economista e presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Alexandre Ferreira, elaborou um plano econômico para, aos poucos, tornar o Carnaval paulistano mais profissional. Uma das metas seria aumentar a venda de cotas publicitárias.

De acordo com informações da liga, apenas neste ano o investimento da Prefeitura de São Paulo no Carnaval da cidade foi de R$ 17,5 milhões, sendo que toda a festa deve movimentar algo em torno de R$ 30 milhões, envolvendo patrocinadores, direitos de transmissão, prefeitura e leis de incentivo.

Além desses financiamentos, as escolas ainda arrecadam dinheiro em ações específicas, como shows realizados ao logo do ano, ensaios e venda de esculturas e fantasias. Apenas na Império de Casa Verde, o preço dos figurinos varia de R$ 150,00 a R$ 350,00 em média.

É muito dinheiro, mas, segundo o carnavalesco, toda essa verba é pouca perto da arrecadada pelos grupos cariocas. “Enquanto nossa escola vai gastar cerca de R$ 1 milhão para montar o desfile, as do Rio trabalham com R$ 4 milhões cada”, cita Marques.

Retorno

Além de agitar os foliões, o Carnaval também movimenta a economia. Segundo dados da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, 25,6% do público é de visitantes de outros Estados e 19% de estrangeiros. De acordo ainda com a liga, apenas no ano passado, esses turistas gastaram cerca de R$ 248,00 por dia na cidade, 3,20% a mais que em 2005.

O Carnaval ainda gera de 20 a 25 mil empregos diretos, principalmente no mês de fevereiro. As funções são variadas e vão desde costureiras e pintores de arte, até escultores e engenheiros. A escola Império de Casa Verde, por exemplo, possui cerca de 700 trabalhadores e funciona como qualquer empresa. “São funcionários da própria comunidade, que trabalham de segunda a sábado por amor e, claro, pelo salário”, afirma o carnavalesco Jorge Luís Marques.

A frase é confirmada por Beatriz dos Santos, moradora do bairro Casa Verde e aderecista da escola há cinco anos. “Eu estava sem trabalhar e aqui encontrei oportunidade. Mas, mais que uma fonte de renda, o trabalho aqui é uma terapia”, diz Santos, que não perde um desfile. “O coração está a mil para entrar na avenida. Eu adoro samba!”, afirma empolgada.

A costureira Rita de Cássia de Jesus também retira do trabalho na escola a renda para sustentar a família. “Tem dia que eu trabalho até 12 horas, mas eu recebo tudo certinho. Além disso, o que eu faço é gratificante”, afirma.

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