No último dia do ano passado, Tuga Angerami resolveu tomar uma atitude bombástica. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o Prefeito de Bauru anunciou, entre outras medidas, a extinção da Secretaria das Administrações Regionais (Sear). Tão logo a notícia foi divulgada, algumas das funções que pertenciam à pasta foram redistribuídas entre outros órgãos do município.
Serviços, como capinação, recolhimento de animais mortos, terraplanagem e pavimentação com bloquetes, passaram a ser realizados pelas secretarias de Obras e Meio Ambiente. Mas como o processo de desmonte da Sear ainda não foi concluído, diversos projetos mantidos pela pasta estão com destino indefinido.
Um dos casos mais notórios é o da Feira de Integração Comunitária das Administrações Regionais (Ficar). Ninguém - nem prefeitura nem artesãos - sabe qual pasta ficará responsável pelo evento, que atualmente conta com 78 profissionais cadastrados.
Em nota divulgada na última segunda-feira, a assessoria de comunicação da prefeitura afirmou que as secretarias de Cultura e de Desenvolvimento Econômico estão sendo cogitadas para receber o projeto mas, por enquanto, nada ainda está definido.
Entre os artesãos, o clima é de preocupação. Depois de permanecer em férias durante quase um mês, eles voltaram ontem ao trabalho, na praça Rui Barbosa, temerosos de que a feira venha sofrer alterações drásticas. De maneira informal, boa parte deles admite que não gostaria de ver o projeto nas mãos da Secretaria Municipal de Cultura.
Na visão desses artesãos, a transferência deixaria a gestão da feira engessada. Eles acreditam que, sob o comando da Cultura, o evento venha a mudar de foco. Concebida em 2001, a partir de um encontro das associações de moradores de bairro de Bauru, a Ficar tem incentivado a geração de renda a partir do artesanato.
Os profissionais acham que a Ficar possa perder esse caráter social e se tornar um evento artístico, semelhante à Ubá. Até o momento, contudo, a prefeitura não deu quaisquer indícios de que fará tais mudanças.
Realizada no segundo domingo de cada mês, no parque Vitória Régia, a feira mantida pela secretaria de Cultura se tornou uma das principais referências do artesanato na região. Atualmente a Ubá possui 104 participantes, que seguem normas rígidas da Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco), órgão ligado ao governo do Estado, para poder atuar no local.
A Ficar, por outro lado, tem regras mais leves. Para montar uma barraca em um dos dois espaços de exposição (as praças Portugal e Rui Barbosa), o artesão precisa apenas ser indicado por uma associação de moradores de bairros.
Apesar de valorizar principalmente o lado social do artesanato, a Ficar possui verdadeiros artistas em seu meio. Sônia Maria Braz, ex-presidente da feira, é capaz de confeccionar uma colcha a partir de 1.707 pequenos retalhos de pano, todos costurados à mão. Já Vilma Morgado Rodeguero consegue reproduzir qualquer imagem em uma pedra. Um produção diversificada, capaz de fazer frente ao melhor artesanato fabricado no restante do País.
Para alguns profissionais do ramo, a cidade já se tornou referência em trabalhos manuais, tanto pela qualidade dos produtos realizados quanto pelo número imenso de pessoas envolvidas em atividades do gênero.
Neste semestre a Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes) está capacitando mais de 500 pessoas carentes na área de artesanato, através dos cursos de geração de renda. Isso sem contar os inúmeros cursos pagos, destinados à população em geral.
Só o Serviço Social da Indústria (Sesi) possui dez turmas de 25 alunos em andamento. E a procura por novas vagas tem sido enorme. Hoje, quando a tecnologia domina todos os aspectos da vida das pessoas, os trabalhos manuais passam a ser cada vez mais valorizados, seja como “ganha-pão”, seja como simples forma de passatempo.