Bairros

Artesãos reclamam da falta de apoio

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Desde o começo do ano, quando a Secretaria das Administrações Regionais (Sear) começou a ser extinta, os artesãos da Feira de Integração Comunitária (Ficar) estão sem saber sob a batuta de quem deverão permanecer. Apesar dessa indefinição, todos têm uma certeza: a troca de pasta, independente de qual seja a escolhida, trará poucas mudanças práticas ao evento.

A razão para eles pensarem dessa forma é simples. Os participantes garantem que, desde que a Ficar foi criada, há cerca de cinco anos (ainda com o nome de Feira das Associações de Moradores), nunca receberam qualquer tipo de ajuda substancial por parte da Prefeitura de Bauru.

“Estamos levando a feira adiante na raça”, garante a artesã Vilma Morgado Rodeguero, 45 anos. Ela mora no Núcleo Mary Dota e faz pintura em pedras e tecidos.

O abandono por parte do poder público é confirmado pela vice-presidente da Ficar, Sônia Maria Braz, 52 anos. “Olha, meu filho, para falar a verdade, com ou sem Sear a feira anda. Ajuda nunca ninguém nos deu”, garante. Descendentes de portugueses, ela e a mãe, Eunice Braz, 77 anos, fazem trabalhos em crochê filet (técnica lusitana, que usa linhas de espessura mais fina) e patchwork (técnica de unir retalhos de tecidos de diferentes tamanhos e formatos).

Braz já foi presidente Ficar, mas deixou o cargo devido a desentendimentos com funcionários da prefeitura. “Saí porque não agüentava mais ouvir não daquele pessoal. Levei projetos mil até eles, mas sempre me deram negativas como resposta”, afirma.

Quando Braz assumiu o cargo de presidente, em 2005, a feira contava com apenas 15 barracas. “Com muita luta conseguimos elevar esse número para 84 (hoje a Ficar conta com 78 artesãos devidamente cadastrados), mas fizemos isso sozinhos, pois a administração municipal nunca nos apoiou”, diz.

De acordo com a atual presidente da feira, Marlene Aparecida Ferreira, 38 anos, a prefeitura não tem colaborado sequer com a divulgação do projeto. “Tudo é feito por nossa conta e risco”, confirma ela, que está há sete meses no cargo. Mesmo quando são convidados para participar de eventos em outras cidades, os artesãos não recebem qualquer auxílio do poder público. “A gente tem de viajar com dinheiro do nosso próprio bolso”, diz.

Uma situação de quase total abandono, não fosse o apoio prestado por algumas instituições aos artesãos. “Nos últimos anos, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) tem nos oferecido alguns cursos de capacitação em vendas e gestão de negócios. Isso nos ajuda bastante no dia-a-dia”, lembra Ferreira. Mesmo com tantas incertezas, os artesãos garantem que a feira não terá destino semelhante ao da Sear.

“A Ficar veio para ficar”, afirma Ferreira, que confecciona arranjos de flores com meias de seda e faz trabalhos em crochê. Apesar de esperançosos, alguns participantes andam um tanto preocupados com relação ao futuro do projeto. Informalmente, a maioria deles admite que não gostaria que o evento passasse para a responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura. Eles temem que isso possa engessar a gestão da feira.

“O pessoal lá da Cultura costuma falar num palavreado difícil, que a maioria das pessoas não compreende. Não sei se você entende o quero dizer, mas é que dá medo de que eles nos impeçam de fazer as coisas do nosso modo. Pelo menos lá na Sear não tinha esse problema. Apesar de nunca terem nos ajudado, eles também não atrapalhavam, muito pelo contrário, sempre diziam para irmos em frente”, explica Braz.

Como até o momento não há definição a respeito dos rumos a serem tomados pela Ficar, ninguém na prefeitura foi encontrado para se pronunciar sobre o assunto. Em nota, porém, a administração municipal garante que pretende manter o projeto dentro dos moldes nos quais ele foi concebido.

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