Na veia da família Caleda, o sangue que corre é azul. São três gerações de foliões que sambam durante o ano todo para manter viva, à base de muito suor, a tradição do Carnaval e dos projetos sociais do Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba (GRCES) Azulão do Morro. As cores da escola também são abundantes na casa-sede-quadra-barracão e na própria roupa com que a vice-presidente da instituição, Aparecida Brito Caleda, recebeu a reportagem do JC.
No local, fantasias, adereços e esculturas estão espalhados por todos os cômodos e dividem espaço com fotos de outros carnavais e com os outros habitantes da casa. “Eu moro aqui com meu marido, filho e dois netos”, conta Aparecida. Se eles se incomodam? “Não, todos entram na bagunça”, responde a foliã. Só na escola de samba, são mais de 30 membros da família.
As ruas do Jaraguá também se rendem ao azul e branco para receber o desfile da escola nesta segunda-feira. Para a ocasião, são esperadas mais de 200 pessoas da comunidade, fora grupos de outros bairros e cidades que já confirmaram presença. “Estamos ficando chiques!”, diz Aparecida em risos.
A habitual falta de recursos para a festa é driblada com criatividade e paixão pelos carnavalescos. Grande parte do material utilizado para o desfile deste ano são resquícios de outros carnavais reformados em menos de um mês por cerca de dez pessoas, que não dispensam um serão. “A maioria tem outro trabalho e vem aqui depois do expediente, por amor”, afirma Aparecida.
Com uma verba aproximada de R$ 8 mil - R$ 5 mil provenientes da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e o restante de apresentações realizadas ao longo do ano passado, o Azulão vai homenagear o time de futebol Jaraguá, cuja torcida batizou em 1993 o nome do que ainda era um bloco.
Para isso, dois carros alegóricos, duas alas, bateria, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira vão preencher as ruas do bairro nesta segunda-feira de Carnaval. “As escolas pedem R$ 20 mil da Prefeitura para fazer um Carnaval de rua. Mas, com esta crise, não dá mais para contar com isso, então o jeito é se virar com o que tem”, diz a vice.
As fantasias também foram feitas sem abrir mão da economia. “Fizemos tudo com TNT para baratear”, explica Caleda. Além de embelezar a festa, os figurinos vestem projetos sociais da escola. “Nós emprestamos as fantasias em troca de um quilo de alimento”, anuncia a foliã.
Mas o barato promete não fazer feio. São figurinos cuidadosamente confeccionados pelo sobrinho de Aparecida, Ricardo Caleda, apadrinhado de Paulo Burian, carnavalesco responsável por muitos carnavais de escolas de samba e clubes da cidade. “O Paulo ensinou tudo que sabia ao Ricardo”, derrete-se a tia.
Foi nas mãos dos dois carnavalescos que, depois de dois anos de formação, o Azulão do Morro, ainda como bloco, ganhou quatro prêmios. O título de escola só veio em 1998 e o primeiro desfile no ano seguinte. “Entramos quase sem recursos. Aos poucos, fomos comprando as bases para começar a competir, mas daí cortaram o Carnaval no Sambódromo”, lamenta a carnavalesca.
Projetos
Nem só de samba vive o Grêmio Recreativo e Cultural Escola de Samba (GRCES) Azulão do Morro. Com a preocupação de ocupar o tempo ocioso das crianças e adolescentes, Cleide Maria Neres, presidente da escola e nora da vice-presidente, Aparecida Brito Caleda, coordena desde 2005 o projeto Sementes do Azulão, contemplado com o Programa Municipal de Estímulo à Cultura.
São cerca de 77 crianças, de 7 a 14 anos, que participam de aulas de mestre-sala e porta-bandeira, capoeira, street dance e ritmista. O Azulão ainda oferece do próprio bolso aulas de teatro a 18 crianças. Todos os envolvidos nos cursos vão desfilar segunda-feira.
O neto de Aparecida, Lucas Antônio Teixeira Caleda, de 7 anos, é um dos contemplados pelo projeto. Com aulas semanais de ritmo, o garoto vai participar da festa tocando repilique. “Não é tão fácil (tocar), mas eu gosto”, diz.
Além dos sociais, a escola tem outros projetos e sonhos, como o de que conseguir uma sede e comprar o terreno ao lado da casa de Aparecida, onde os dois carros alegóricos ficam guardados enfrentando chuva e sol. “Os carros ficam estragando no lugar”, lamenta a carnavalesca.
• Serviço
Desfile da escola de samba Azulão do Morro nesta segunda-feira, a partir das 21h, com saída da quadra 9 da rua Gabriel Rabello de Andrade e chegada na quadra 5, no parque Jaraguá. Amanhã, a partir das 20h30, haverá o ensaio geral. Os evento são abertos ao público.