O ser humano é realmente surpreendente, tanto para realizar o bem e o belo quanto para o mal e o horrendo. Parece uma obviedade sem tamanho fazer tal afirmação, entretanto, o bom senso diz que o óbvio, por muitas vezes, precisa ser falado. Infelizmente, a obviedade da semana anterior esbarra na capacidade crudelíssima do ser humano. Há uma comoção geral na sociedade brasileira. Encontramo-nos num estado de perplexidade misturada à indignação, revolta e preocupação, diante do funesto episódio acontecido, uma vez mais, na “Cidade Maravilhosa”, que ceifou, com uma brutalidade indescritível, a vida de uma criança aos seis anos. O choro daquela família, mostrado em todos os meios midiáticos possíveis, encerra o choro de tantas outras que passaram por situações semelhantes.
E nós outros, que ainda temos o privilégio de não ter passado por uma hecatombe deste porte, o que fazemos? Indignamo-nos e nos revoltamos, mas ficamos estanques, num estado de catalepsia, aturdidos com a galopante violência física e psicológica com a qual convivemos diariamente. Todavia, somente ficarmos atônitos não resolve! Tão pouco, discutirmos e especularmos em salas fechadas, em pequenas rodas de conversa, que a situação está insustentável e que é preciso fazer alguma coisa! Escondermos-nos em condomínios fechados, em prédios cercados por seguranças, adquirirmos carros blindados com vidros fumês, sejam talvez paliativos permitidos a uma pequena faixa populacional, que ludibriam a insegurança instalada dentro de nós mas, decididamente, não nos conduz ao caminho da solução.
Não há o que apague da memória lembranças tão cruéis, nem mesmo o tempo, que cura tantas chagas. Tais dores podem somente ser aliviadas, nunca dirimidas por completo. Entretanto, a grande questão é: o que pode e deve a sociedade civil fazer? Somos cidadãos, e este conceito embute a díade direitos/deveres, porque habitamos nas cidades e estas pertencem a todos. As cidades de hoje são herdeiras dos burgos da Idade Média, que surgiram com a evolução social e econômica, agregando e protegendo a população. Porém, somos sabedores de que ao longo dos anos, e ainda, ou principalmente, hoje, tornamo-nos mais e mais excludentes, ignoramos aqueles que vivem à margem da sociedade - daí serem marginais - e dos benefícios que deveriam ser estendidos a todos, sem exceção. A postura de todo um substrato social perpetuada ano a ano, permite-nos ver os excluídos sem enxergá-los, relegando-os ao estado de “coisas” e não de pessoas. As mazelas que a vida nos prega são impressionantes: produzimos tal situação e dela somos vítimas agora. Estamos num tal estado emergencial, que as posturas devem ser revistas com rapidez e agilidade, para evitarmos novas vítimas em ambos os lados, pois também os excluídos e oprimidos sofrem. Precisamos humanizar o humano, equacionar as diferenças sociais, distribuir melhor as riquezas do país que possui uma pirâmide econômica-social assustadoramente desigual e desequilibrada.
Os caminhos para a ação são vários, temos mecanismos legais para assim proceder, modelos de ações sociais em benefício de populações carentes que apresentam ótimos resultados e que vão muito além do paternalismo ou populismo baratos, intelectuais capazes de indicar soluções eficazes e o investimento na educação básica, que garanta não somente a acessibilidade, mas a qualidade do ensino acadêmico e humanitário. O que não podemos fazer é permanecermos como espectadores, como se não tivéssemos qualquer ligação com estes fatos ou eles não pudessem nos atingir. É preciso refletir, analisar, agir e cobrar mudanças pertinentes à legislação e à Segurança Pública. Não podemos ser coniventes a este estado de coisas, nem permitir que tudo continue como está ou que caia no esquecimento. Sabemos que a morosidade paira sobre o Legislativo e Judiciário e é função nossa exercermos o poder que detemos nas mãos e tão poucas vezes utilizamos. É uma questão de sobrevivência!
A autora, Isabel Cristina Miziara, é professora no Colégio e Faculdade Fênix