No Brasil, praticamente não há quem não conheça Mauricio de Sousa, 71 anos, pai da Turma da Mônica. O quadrinista está exultante com a estréia, hoje, do 10.º longa-metragem com sua marca, “Turma da Mônica em uma Aventura no Tempo”, sua realização audiovisual mais ambiciosa até o momento. Sob produção do prolífico Diler Trindade e com o suporte tecnológico da LaboCine, a aventura de ficção científica transporta de vez os famosos personagens à sensibilidade dos dias de hoje.
Mauricio declara-se satisfeito com as parcerias comerciais e técnicas que estabeleceu e se diz recompensado por trabalhar com artistas muito jovens, inclusive adolescentes. “Eles aprenderam a ler com a Turma da Mônica e fazem o trabalho com prazer. Eles trazem gírias às falas, agilizam o ritmo, vivem cheios de idéias”, declara. E completa: “E, com a tecnologia digital, então, uma superferramenta que caiu no meu colo, é impressionante o que posso fazer. Meus personagens passaram a existir quase fisicamente. Eles são um programa de computador arquivado!”.
O quadrinista destaca a importância do trabalho disciplinado e em equipe - o filme é co-dirigido por André Passos, Clewerson Saremba e Rodrigo Gava. Ressalta ainda a expressiva trilha sonora de Márcio Araújo e Danilo Adriano e a criativa participação dos dubladores, que ajudaram a definir a linguagem e o rendimento de cada personagem: “Há reações do Cascão, por exemplo, que foram criadas por sua voz, Paulo Cavalcante, e que levaram o roteiro a ser reescrito”.
Por enquanto, Mauricio se prepara para sair na avenida - não apenas como o bom folião que afirma ser mas como tema do desfile da escola de samba paulistana Unidos do Peruche, que acontece à 0h30 deste domingo no Anhembi (zona norte de SP). O homenageado está curioso para ver o resultado final das alegorias: “Não houve nenhuma interferência minha. Vi os carros ainda incompletos, e eles são exemplos da pura arte popular”, afirma.
Humor antenado
“A Turma da Mônica em uma Aventura no Tempo”, o 10.º longa de Mauricio de Sousa, oitavo feito para o cinema, é sem dúvida o melhor de todos. E em todos os sentidos. Pela primeira vez, é possível identificar o humor antenado das tirinhas atuais tanto no ritmo ágil da trama quanto na eficiente escrita de diálogos, incluindo gírias e expressões populares.
Os personagens ganham cor e credibilidade. E o filme fica mais simpático e bem-humorado. A tradicional deficiência das obras anteriores - inerente à boa parte da produção cinematográfica nacional - era a fragilidade do roteiro. A estrutura fragmentada, em curtas, limitava maiores vôos.
Mas o roteiro resolve bem o fôlego curto das tramas ao enviar cada personagem a um tempo específico (seja a pré-história, um passado recente ou o século 30) atrás de cada um dos elementos (fogo, água, terra e ar), que se dispersam depois que uma experiência de Franjinha é interrompida por Mônica na tradicional perseguição a Cebolinha e Cascão. O longa trabalha com uma bem articulada simultaneidade de tramas, compreensível até por crianças menores. Essa variedade possibilita a inclusão de muitos personagens da família, como Piteco, Astronauta e Papa-Capim, além da versão “baby” dos protagonistas, sem falar na criação de novos tipos - a melhor é a Cabeleira Negra, bela pirata do futuro, descendente de Barba Negra.
No bem-arranjado pacote, entra ainda a trilha sonora, acima da média. E há boas mensagens, como a de preservação da natureza, na trama com o bandeirante “do mal”, e a inserção ativa dos dois personagens deficientes físicos, a cega Dorinha e Luca, em cadeira de rodas.