Geralmente, quando alguém chega para um bauruense e menciona a palavra buraco, a reação é quase sempre a mesma: primeiro a pessoa faz uma cara feia; logo em seguida, ela morde os lábios, como se estivesse fazendo força para não emitir alguma expressão de baixo calão e, por fim, solta uma gargalhada de desânimo. Parece nem acreditar que o problema terá solução algum dia.
As aposentadas Ana Rossi, 65 anos, e Nair Baldini, 73 anos, portaram-se dessa maneira, quando questionadas a respeito da qualidade das ruas do Núcleo Octávio Rasi. “É essa buraqueira aí que você está vendo, meu filho”, disseram as duas, quase ao mesmo tempo.
O segurança José Carlos Moisés vive no bairro há 23 anos e ajudou a pagar pela pavimentação do local (as obras foram realizadas na metade dos anos 80). Desde então, as vias nunca receberam manutenção adequada, e hoje o morador vem assistindo de perto a deterioração do dinheiro que investiu. “Faz tempo que os buracos existem, mas nos últimos anos o problema piorou”, garante.
No começo de janeiro, devido às chuvas fortes, a própria prefeitura classificou a situação do Octávio Rasi como emergencial, tamanho era (e ainda é) o número de buracos espalhados pelas ruas. Nos últimos dias, as principais vias do bairro (ou seja, as que são utilizadas pelo transporte coletivo) passaram a ser recapeadas.
“Como não dispomos de muitos recursos, temos de priorizar os locais utilizados pelo transporte público”, explica Eduardo Garcia Sanchez, engenheiro da Secretaria Municipal de Obras. “Eles só sabem arrumar onde passa ônibus”, reclama o segurança, que mora na rua João Scarço. Próximo dali há tantas valas que os carros têm até dificuldade de transitar, mas nenhum conserto será feito no local, pelo menos por enquanto.
Após tantos anos de abandono, mesmo os moradores das ruas que estão sendo recapeadas não demonstram muita fé com relação aos trabalhos vêm sendo realizados pela prefeitura. Numa segunda-feira de manhã, Rossi e Baldini conversavam diante de um trecho da rua Ângelo Miele que está sendo recapeado.
“Quanto tempo você acha que isso aqui vai durar, hein, Ana?”, pergunta Baldini. A vizinha assume uma expressão grave no rosto, pensa por um instante e responde. “Dois anos, talvez... Duvido que agüente tanto tempo.” Quem sabe. Em outras regiões da cidade, o desânimo da população é ainda maior.
“Se você sair caminhando pela vizinhança, vai demorar vários dias para contar todos os buracos que encontrar”, brinca o operador de máquinas Celso Luiz Orlando, 41 anos, morador do Jardim Redentor (zona leste de Bauru), numa manhã ensolarada.
Ele fala isso agachado diante de um cratera de 40 centímetros de profundidade, localizada na quadra 1 da rua São Ivo, que está crescendo sem parar. Se esse processo não for detido a tempo, é provável que, dentro de alguns meses, a rua desapareça por completo. O pavimento antigo da via nunca recebeu qualquer tipo de manutenção preventiva, garante o morador. “Quando chove, a enxurrada desce com força e arranca partes do asfalto”, diz ele.
Hoje a cratera está tão grande que se transformou numa espécie de armadilha para os motoristas que circulam pela região. “Meses atrás, o pessoal da vizinhança teve de socorrer um carro que caiu na vala”, conta. O acidente ocorreu num sábado à noite. “Havia uma casamento na igreja (do Redentor) e os convidados foram estacionando aqui ao lado. Como estava muito escuro, um deles não percebeu o perigo e acabou caindo no buraco”, diz.
Orlando garante que já ter reclamado diversas vezes à prefeitura. “Até agora ninguém deu resposta”, afirma. Para minimizar o problema, ele e os vizinhos jogam entulho e pedras na cratera, na tentativa de evitar que novos acidentes ocorram.
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Oficinas
Ao contrário do restante dos bauruenses, os donos de oficinas mecânicas estão fazendo a festa com a situação precária do asfalto da cidade. E não poderia ser diferente: mais buracos nas ruas são sinônimo de mais pneus furados e mais carros quebrados.
“Na verdade, a gente recebe mais clientes, só que por outro lado também corremos risco de sofrer acidentes”, pondera Ewerson Setsuo Murioka, que trabalha em um estabelecimento situado no Distrito Industrial 1. Por outro lado, não há como negar que os lucros dos comerciantes que trabalham com manutenção de veículos têm aumentado nos últimos tempos.
Diariamente Luiz Carlos Júnior, funcionário de uma loja de autopeças situada no Parque Paulista, atende alguém em busca de amortecedores novos (a peça é uma das que mais sofrem danos em decorrência do contato com os buracos). “Aparecem pelo menos duas pessoas ao dia. Tem dias em que nem consigo dar conta dos pedidos”, garante.
No final das contas, quem tem de arcar com os prejuízos são os motoristas. Nilson Magalhães e Carlos Eduardo haviam acabado de consertar duas rodas do carro quando tiveram a infeliz idéia de trafegar pela avenida Lúcio Luciano, no Núcleo Geisel. Eles acabaram cortando o pneu traseiro do veículo em uma das inúmeras valas existentes na via. “Desviei de um buraco e caí no outro. Agora vamos ter de mandar consertar”, lamenta Magalhães.