Baixos salários, falta de respeito dentro da sala de aula, condições precárias de trabalho e desvalorização da profissão. Por esses e outros motivos, o País corre sério risco de ficar sem professor dentro de um prazo médio de dez anos. É o que indica uma pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).
Mais da metade dos professores tem mais de 40 anos e estão perto de se aposentar. O quadro se agrava ainda mais quando constata-se que 83% dos professores da ativa são mulheres e elas se aposentam cinco anos mais cedo do que os homens.
A aposentadoria dos professores passa a representar um risco à educação quando, na outra ponta, a reposição começa a falhar. Por todas as razões citadas no começo da matéria, o magistério não está entre as profissões mais desejadas pelos jovens.
“As pessoas querem uma profissão que lhes dê a perspectiva de uma vida digna”, sentencia Fábio Santos de Moraes, secretário-geral do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).
Nas universidades, cursos de licenciatura (que formam professores) estão cada vez menos concorridos. Em alguns casos, as escolas têm tido dificuldades para preencher as vagas disponíveis.
Para a professora Vera Casério, a baixa procura por esses cursos é um reflexo direto da crise que vive a educação há vários anos. Coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade Fênix, Vera revela que a instituição já tem enfrentado sérias dificuldades para encontrar professores em algumas áreas.
Para as disciplinas de sociologia e filosofia, segundo ela, praticamente não há profissional disponível no mercado. Para outras, como física e química, ainda é possível encontrar, mas são poucos.
Na rede municipal de ensino, o problema maior é achar professor de matemática, segundo informou a Secretaria de Educação.
Sem estímulo
Na opinião do professor aposentado e ex-diretor de escola Rodolpho Pereira Lima, 76 anos, a tendência é a situação ficar ainda pior. Segundo ele, a imagem do professor está cada vez mais desgastada em função da desvalorização que a profissão vem sofrendo ao longo de muitos anos. E isso, na opinião dele, desestimula os jovens a seguir na carreira.
Sem uma renovação, a categoria está ameaçada de extinção. “Daqui a alguns anos, vai faltar professor não só no aspecto físico, mas também no que se refere à qualidade desses profissionais”, prevê Lima, que também é conselheiro do Centro do Professorado Paulista.
De acordo com Moraes, secretário-geral da Apeoesp, a baixa procura por cursos de licenciatura, principalmente aqueles que oferecem poucas opções aos alunos a não ser trabalhar em uma sala de aula, é uma realidade em todo o País.
Segundo ele, as pessoas estão procurando outros cursos porque elas querem fazer algo que dê retorno financeiro e profissional. O magistério por si só não é mais motivo para atrair novos profissionais e a visão romanceada do educador já não seduz como antigamente.
“É uma pena que isso esteja acontecendo, porque é uma profissão bonita. As outras (profissões) só existem porque existe o professor”, destaca Moraes.
Mais investimento
De acordo com ele, o Estado de São Paulo gasta apenas 4% de seu Produto Interno Bruto (PIB) com o setor, quando poderia gastar 10%. Se os investimentos atingissem esse patamar, ele afirma que seria possível, a médio prazo, garantir o futuro da escola pública, pagar melhores salários aos professores, melhorar a qualidade do ensino e, consequentemente, chamar a atenção de jovens e adolescentes para a carreira do magistério.
Hoje, um professor que dá aulas de 1.ª à 4.ª série do Ensino Fundamental no Estado recebe R$ 668,09 por 24 horas de trabalho no mês.
Segundo Moraes, o desempenho pífio do Estado no Saeb (exame federal que avalia os alunos do ensino público e privado) é um reflexo do descaso com que a educação vem sendo tratada. “São Paulo foi o Estado onde a média mais caiu, o que significa que estamos andando na contra-mão”, afirma Moraes.
A queda registrada entre 1995 e 2005 fez com que São Paulo caísse no ranking de notas absolutas. Em 1995, o Estado era o segundo melhor do País. Agora, é o sexto. A primeira colocação segue com o Distrito Federal. O resultado foi divulgado este mês.
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Desgaste
Ter dois empregos, algo muito comum entre os professores, ajuda a melhorar o orçamento familiar, mas paga-se um preço por isso. No caso da professora Gisleine Luchiari Baraldi Beghini, 51 anos, a dupla jornada custou o rompimento de dois tendões do braço direito, esporão, artrose clavicular crônica e bursite. Segundo ela, são problemas provocados pelo exercício da profissão. “São os ossos do ofício”, diz.
Afastada das salas de aula desde outubro do ano passado, Gisleine só deve voltar ao trabalho no segundo semestre. De manhã, ela dá aulas na escola municipal de educação fundamental (Emef) Etelvino Rodrigues Madureira, no Jardim Flórida, e à tarde, na escola estadual Ana Rosa Zucker D’Annunziata, no Jardim Redentor.
Segundo Gisleine, o que ela ganha em apenas uma escola não é suficiente para cobrir as despesas da família. Por isso, teve de apelar para um segundo emprego, há cerca de cinco anos. Se por um lado a jornada dupla melhorou o rendimento, por outro trouxe o desgaste físico que obrigou Gisleine a se afastar do serviço.
Proveniente de uma família de professores, são 17 ao todo, Gisleine está há 21 anos na profissão e se orgulha do que faz. “Minha profissão é maravilhosa. Eu não teria do que reclamar se não fossem as pessoas que são responsáveis por ela, e que deixam muito a desejar”, afirma a professora, numa referência aos governos federal, estadual e municipal.
Ela comenta que já viu colegas trabalharem com o nariz quebrado só para não perder a gratificação por assiduidade no fim do ano e, assim, aumentar um pouco o rendimento.
Além dos baixos salários, as salas superlotadas são apontadas por Gisleine como outro empecilho ao bom desempenho da profissão. “Toda a categoria está desestimulada. Mesmo sem querer, a gente acaba passando isso para os alunos e eles não querem nem pensar em ser professores”, comenta.