Acontece um crime hediondo, com envolvimento de menores, e pronto! Todo mundo só fala de redução da maioridade penal. Todos ficamos sensibilizados com a situação da família da vítima, e toda opinião pública, inflamada pela imprensa, deputados e senadores oportunistas são convocados a discutir novas leis que combatam crimes como o assassinato do garoto João Hélio, ou diminuam a violência no Rio de Janeiro.
Agora, algo que me chamou a atenção: foi a entrevista publicada no portal Terra nesta sexta-feira (16/02), pelo sr. Ari Friedenbach, aos repórteres Daniel Bramatti e Karen Cunsolo. O sr. Ari é pai de Liana Friedenbach, que em 2003, então com 16 anos, e seu namorado Felipe Caffé, com 19 anos, foram mortos quando acampavam em Embu-Guaçu (SP), por um rapaz de 16 anos, conhecido como Champinha, mais tarde diagnosticado como psicopata. Na época, o crime, que causou o mesmo furor e revolta na sociedade, levou o sr. Ari, amparado pelo então senador Magno Malta (ES, então no PL, hoje PR), a levantar a bandeira da redução da maioridade penal e chegou a ser recebido pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), para defender o assunto.
Bom, o que disse até agora só mostra que a nossa sociedade somente reage aos fatos quando estes ocorrem, como o assassinato da garota Liana e o do garoto João Hélio.
Mas o que me levou a escrever este artigo foi a declaração do sr. Ari Friedenbach, pai da garota assassinada em 2003, por um menor, afirmando na entrevista que hoje é contra a redução da maioridade penal dizendo que “... o país não precisa de novas leis - só de uma que torne crime hediondo roubar dinheiro de saúde e educação, porque isso condena dezenas de milhares à morte, que não conseguem atendimento, que não têm acesso à educação de seus filhos... Esse é o verdadeiro crime hediondo. É um genocídio. O pai que chega no hospital com um filho doente e não consegue atendimento médico para o seu filho: você quer que ele fique calmo ou que fique violento?”.
Na verdade, fiquei pensando, como nós, sociedade, somos vulneráveis ao controle de opinião que a mídia nos impõe. Em 2003, todos ficaram revoltados com o assassinato da garota em Embu-Guaçu, o pai, abalado pela perda de sua filha, sai em busca de justiça, e defende publicamente, junto com toda a opinião pública da época, a redução da maioridade penal, pois o assassino de Liana era menor.
A mídia, com certeza, após o episódio do assassinato de Liana, encontrou outro assunto para direcionar a opinião pública. Sem holofotes, o Senado engavetou a discussão da redução da maioridade penal, e o sr. Ari? Para o pai que perdeu a filha, sobrou tempo e tranqüilidade, e como ele mesmo afirmou, muita reflexão, para formar a sua opinião.
É lógico que todos ficamos sensibilizados, quando um crime brutal, como o assassinato do garoto João Hélio acontece, e a revolta sempre aflora em nossos sentimentos. Agora, o que não devemos aceitar é que a mídia, senadores e deputados, direcionem a opinião pública para o que eles defendem ser a solução para o país.
Está muito claro que a solução para o país é que eles, Poder Executivo e Poder Legislativo, deixem que as verbas da Educação e da Saúde cheguem ao seu destino corretamente e não sejam desviadas para os bolsos dos corruptos. O crime de corrupção é que deve ser hediondo e brutal, e que alimentam a violência e casos tristes como o de Liana em 2003 e o de João Hélio. As discussões da redução da maioridade penal apenas desviam a opinião pública dos maiores criminosos, os corruptos.
Marcio Cardim, analista de sistemas e professor