O livro “Um Grito de Coragem - Memórias da Luta Armada”, do escritor paulista Renato Leonardo Martinelli, é mais do que uma obra que retrata, sob o olhar de quem participou do movimento revolucionário, o que foi a resistência à ditadura militar a partir dos estudantes no País, nas décadas de 60 e 70. Para a história política brasileira e local, o livro, lançado em Bauru na semana passada, retoma a trajetória do bauruense Márcio Leite de Toledo e reforça a importância da convicção de um militante em um período em que muitos sucumbiram e outros não suportaram permanecer na causa.
Em entrevista, o escritor Renato Martinelli confirma que a obra está baseada muito mais nos passos e na bagagem política de Márcio Toledo, com quem conviveu e participou junto no movimento revolucionário, resgatando para a sociedade o que foi e quem foi o personagem ainda desconhecido de muitos na cidade. Leia a seguir as impressões que Martinelli tem a respeito do jovem bauruense, morto por integrantes do próprio regime:
Jornal da Cidade - O que o senhor pretende com esse livro?
Renato Martinelli - A história, o fato em si, é a passagem do Márcio Toledo pelo movimento estudantil e pela luta contra a ditadura e, posteriormente, já como militante da organização que viria depois a ser chamada de Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em uma idéia mais geral, após o golpe de 1964 o que houve foi um refluxo das forças que então apoiavam o governo reformista constitucional de João Goulart. As forças que apoiavam este governo e que sofreram o golpe da ditadura, num primeiro momento, recuaram diante da perseguição, das torturas e das prisões. E a ditadura como que imediatamente atuou praticamente sem oposição.
JC - Os estudantes foram o primeiro grupo a reagir contra o regime?
Martinelli - Sim. O primeiro grupo que começa a atuar contra a ditadura são os estudantes. A característica pessoal desse segmento era de inserção na sociedade brasileira envolvida no arrojo, na ousadia, na coragem e ímpeto, características que deram a eles primeiro a ter condições de se levantar contra o regime e fazer oposição. A ditadura tenta controlar o movimento estudantil, através da União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Estadual dos Estudantes (UEE) e eles se revoltam. A lei da época transformava os centros acadêmicos em associações atléticas somente. Esta lei levava o nome do ministro da educação na época, Suplicy de Lacerda, e tentava tirar a força política do movimento estudantil. E eles reagem em peso contra a situação e o regime.
JC - Onde estava o principal núcleo da reação na época?
Martinelli - O principal núcleo se dava nas principais capitais, sobretudo em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte (MG). O movimento vai ganhando força em símbolos de endereços como a rua Maria Antonia, onde estava e está a Universidade Mackenzie, em São Paulo. Eu estava na Faculdade de Direito do Mackenzie, que era um reduto por sinal bem conservador à época, mas tinha a Faculdade de Filosofia da Maria Antonia e na rua Maranhão tinha a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, e em uma rua lateral tinha Economia e Administração e a Escola de Sociologia e Política há uns três quarteirões. Então era um centro em que houve efervescência contra o regime e as idéias borbulhavam o tempo todo, além de ser um local que tinha sido invadido no dia do golpe. Esse era o contexto, o coração do movimento estudantil de São Paulo, em 1965.
JC - E onde estava Márcio Toledo no período?
Martinelli - O Márcio também entra na Faculdade de Direito no Mackenzie em 1965 e também na Escola de Sociologia. Eu estava por lá e o movimento começa a se organizar nessa mesma fase, entre estudantes. Do movimento estudantil participavam algumas organizações eu militavam nos principais grupos dos diretórios acadêmicos. Tinha grupo da juventude católica que vai passando por posições políticas até se declarar, entre 1968 e 1969, um grupo de convicção marxista leninista. Vem de dentro da igreja e vai tomando um caminho progressista. Outra força consistente que atuava era o Partido Comunista Brasileiro (PCB). O Márcio estava nesse contexto. Mas o partido adota uma postura de lutar sem o uso da força, de forma pacífica, e o grupo da qual pertencia o Márcio achava que nada mudaria se não fosse pela luta armada, pelo enfrentamento. Foram se formando células, os estudantes se organizando, gerando os planos, as ações de expropriação de bens para financiar os ideais e o fortalecimento das forças já dentro da ALN. O movimento estudantil era compartimentado em núcleos nas diferentes faculdades. A gente discutia teses que eram levadas a uma discussão anual universitária e, se aprovadas, eram colocadas em prática.
JC - Quais eram os mecanismos de proteção do movimento?
Martinelli - Por exemplo, no mesmo momento em que você passava a militar, você recebia um apelido e havia uma série de regras para tentar impedir que o aparato militar, que se infiltrava no movimento, descobrisse o que se discutia e as células. As pessoas que atuavam nessas células não podiam dizer para ninguém que ela existia e que participavam delas. Se a informação vazasse e se um militante fosse descoberto, ele era protegido e se afastava por determinado momento, até recompor a célula. Em dado instante, vários do grupo deixaram o País e eu e o Márcio Toledo fomos passar por treinamento de guerrilha e militar em Cuba, onde deveríamos ficar por seis meses, mas ficamos dois anos.
JC - Como o senhor retrata Márcio no livro?
Martinelli - O livro é uma visão minha sobre o movimento, ancorado na trajetória do Márcio, com quem convivi. O Márcio teve participação intensa, seja na convicção política e sociológica sobre o período em que o País mergulhou naquele instante, seja pela convicção prática na resistência que ele assumia. Era uma época em que se contestava tudo e tudo estava em discussão. Para nós tudo era velho e nós queríamos tudo novo. A figura exponencial para nós era Che Guevara. Era a figura do ideal, do homem voltado para as questões sociais, o homem solidário, humanista e de um homem também que vivia, que dançava, que cantava. E Márcio era um elemento importante dessa contestação e representa muito bem esse ambiente histórico. Ele chegou a tal ponto de se engajar que mesmo conversando com ele, em determinado momento, sobre o aumento da pressão sobre o movimento e os riscos iminentes da luta, ele foi enfático em dizer que iria ficar, permanecer e colocar em ação o que considerava necessário, que era lutar. Nós militávamos no Partido Comunista e integramos a dissidência, cuja tese do comitê central foi, em determinado momento, de aliança com a burguesia, a de lutar pela via eleitoral, política, organizada. E nós fomos para a clandestinidade, fazendo crítica a essa participação do PC em 1964 e adotando a luta armada como posição para enfrentar o regime.