Mais que abstinência de carne e de bens materiais, a Quaresma é um período de reflexão e equilíbrio espiritual para os cristãos. Hoje, 17 séculos depois da adoção do costume de guardar os 40 dias entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo de Ramos, os mais conservadores preservam tradições neste período, como a abstenção do consumo de carnes vermelhas às quartas e sextas-feiras. Mas a Igreja Católica propõe a troca deste sacrifício por outros como praticar atos de caridade e até deixar de falar da vida alheia.
Porém, o mais importante na Quaresma, segundo o padre Luís Antônio Carquejo Sé, pároco da Catedral do Divino Espírito Santo, é a possibilidade de purificar o espírito e aproximar-se de Deus: “Eu recomendo que os fiéis não se preparem apenas materialmente, mas espiritualmente. Um jejum da língua é preciso”. E dessa forma pensa Lucila Cordeiro, 64 anos, aposentada. “A gente precisa seguir mais os preceitos de Deus. Não agredir ou falar mal dos outros, cuidar mais de si mesmo, isso sim faz bem”, diz.
A aposentada também procura não consumir carnes às quartas e sextas durante a Quaresma, alimentando-se basicamente de legumes, e salienta que os cuidados com o corpo e a mente nos 40 dias ajudam na manutenção do equilíbrio durante todo o ano. Para a Cristandade, a Quaresma é o momento em que a solidariedade transparece, aponta Sé. Assim, o equilíbrio está em partilhar através de três pilares: a caridade, a oração e o jejum, respectivamente, a atitude em favor do irmão, a preparação para a Páscoa e o sacrifício.
Como em todo primeiro dia da Quaresma, ontem foi celebrada a missa na qual é realizada a cerimônia da imposição das cinzas na testa dos cristãos. Ao aceitar as cinzas feitas com as palmas queimadas do domingo de Ramos do ano anterior, o fiel se compromete a se converter, refletindo sobre sua vida. Em Bauru, a missa de Cinzas foi rezada na Catedral do Divino Espírito Santo, à noite.
Simbologia
A Quaresma tem sua duração baseada na simbologia do número 40 na Bíblia: são 40 dias do dilúvio, 40 anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, 40 dias de Moisés e de Elias na montanha, 40 dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública e dos 40 anos que durou o exílio dos judeus no Egito. “Foram todos períodos de preparação”, explica o padre.
Como é um tempo de partilha, a Quaresma é a época ideal para o lançamento da Campanha da Fraternidade (CF), promovida pela Igreja Católica nesta época desde 1962. Ontem, em Belém, no Pará, aconteceu o lançamento da campanha de 2007: “Amazônia e Fraternidade”, que visa a preservação ambiental e social da floresta. Em Bauru, a CF será lançada no próximo domingo, em missa presidida pelo bispo dom Luiz Antônio Guedes, às 10h, na Catedral do Divino Espírito Santo. A celebração irá contar com a participação de ambientalistas, representantes das 41 paróquias da Diocese e a comunidade em geral.