Tribuna do Leitor

O encontro desmarcado com De Angelis


| Tempo de leitura: 3 min

A morte de Flávio de Angelis foi-me comunicada por meu pai. A voz inconfundível transmitia, ao telefone, um grande pesar; e eu sabia bem o porquê. Lá em meados dos anos 60, quando mergulhamos na adolescência, Flávio de Angelis teve uma grande influência sobre a minha geração. Éramos uns 40 moleques e formamos o primeiro campeonato mirim de Bauru, incentivado pelo Clube Luso Brasileiro, sob o comando do grande Rodrigues.

Flávio foi fundamental no encaminhamento de boa parte daquela geração, reconhecia meu pai. Ricardo Coube, Plínio Amarante, Osvaldo Azenha, Dirceu Camargo, Carlos Guimarães, Eduardo Pegoraro, entre outros atletas mirins, todos aprendemos nas quadras de basquete as alegrias e tristezas que acabaríamos colecionando ao longo de nossas vidas. O companheirismo, a lealdade, a combatividade para buscar a vitória; mas principalmente, nos piores momentos, a solidariedade na perda; olhar no olho da derrota juntos.

Percebendo melhor aquele tempo, não tenho dúvida em afirmar que faltam De Angelis para a maior parte das novas gerações. Meu pai, mestre que me aproximou dos bons livros, um dia deixou na cabeceira da cama “O Encontro Marcado”, de Fernando Sabino. Mais tarde compreendi a razão. Quando li o livro, logo me dei conta de que o enredo tinha profunda identidade com aquela geração. Pois foi exatamente deste livro que me lembrei ao receber a notícia. Um AVC desmarcou o meu encontro com Flávio de Angelis. Haveríamos de nos reencontrar, depois de 30 anos. A visita agendada por Lucia Liz, minha queridíssima irmã, que lhe entregara um livro sobre o Nordeste, portando a minha dedicatória de co-autor. Um imprevisto do cotidiano desmarcou esse encontro.

No livro de Sabino, a turma decide se reunir 20 anos depois da formatura, para trocar informações e experiências. Nem todos aparecem. A idéia era juntar todo mundo no dia 17 de dezembro de 1980. O personagem central tinha um medo: tentar, em vão, resgatar um passado feliz, mas irrecuperável. O temor do reencontro com o passado profundo.

Faltei, a esse encontro com De Angelis. Um chek-up no H-Cor, acertado na última hora, desviou-me da redação do Bom Dia, embora tenha chegado quase lá. No meu retorno falaríamos. A idéia era preparar a juntada, quem sabe, do time todo. Uma última vez. Lembraríamos, certamente, do pivô que era um touro no rebote, Márcio Geléia. Um eufemismo, por conta do coração mole, iguais aos de uma mãe coruja.

Vejo agora que cometi a pior das faltas. Faltei ao encontro marcado com o passado. O encontro marcado de Sabino é um típico romance de geração. Mais do que um romance de geração trata-se de um romance de formação, porque deixa a lição vital de que o eventual fracasso das expectativas existenciais não deve inibir a procura incessante de um sentido para a vida. É a clássica idéia moral de que a passagem pelo sofrimento amadurece o indivíduo e abre-lhe outros caminhos para buscar os valores autênticos no mundo.

O meu encontro marcado frustrou-se. Sei, no entanto, que a turma de jovens que ele ajudou a formar, em meio à ânsia sôfrega com que aqueles atletas mirins sonhadores se atiravam atrás da bola como se esta fosse o mundo, não se esquecerão da sua importância, na vida de cada um. De Angelis não imitou a literatura. A literatura, no entanto, parece ter imitado a sua vida.

Alberto Amadei Neto, bauruense radicado em Fortaleza

Comentários

Comentários