Cultura

Os Três Porquinhos brasileiros

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

Ao contrário dos “primos” ricos, os Três Porquinhos que nasceram no Brasil não tiveram dinheiro sequer para construir a cabana de palha facilmente destruída pelo sopro do Lobo Mau. Mas isso não impediu que eles, a exemplo dos outros porcos, fugissem do chiqueiro onde viviam. A aventura desses irmãos será contada hoje e amanhã no Teatro Municipal com o espetáculo “Os Três Porquinhos Pobres”, da companhia carioca Sifuxipá.

A peça é fruto da adaptação do texto homônimo de um escritor muito conhecido entre os adultos e pouco explorado pelas crianças: Érico Veríssimo. Dono de uma linguagem cinematográfica, 90% da obra original foi mantida na peça. “Ao ler o texto, você visualiza facilmente a cena; por isso não demorei mais que três horas para fazer a adaptação”, explica um dos fundadores da companhia, o bauruense Rafael Fetter que, além da adaptação, é responsável pela direção, cenário e interpretação de três personagens.

Preocupado em atrair a atenção da criançada “high tech”, Fetter buscou uma linguagem dinâmica, inspirada no cinema mudo e nos desenhos clássicos de Tom & Jerry e Pica-Pau. Sob a batuta do diretor, em cena, os atores também são músicos, cantando ou executando instrumentos. “As músicas são ao vivo. Assim, o corpo obedece a música e a música obedece o corpo”, diz. A direção musical é assinada por outro fundador da companhia, Ruy Borba.

Com o roteiro em mãos, os nove atores ensaiaram por três meses para encarnar os porquinhos Sabugo, Salsicha e Lingüicinha e os outros personagens que os irmãos encontram pelo caminho na pele de Lobo Mau, Chapeuzinho Vermelho e Verde, Vovó, Vovô, Pitangueira, Burro, Cachorro, Sol e Lua.

No dia 4 de novembro de 2006, o espetáculo estreou no Teatro Henriqueta Brieba, na Tijuca Tênis Clube, no Rio de Janeiro. Mesmo sendo um local fora da rota cultural da cidade, a peça ficou em cartaz até o dia 26 do mesmo mês sempre com casa lotada. “Acredito que o sucesso é resultado do texto de Érico Veríssimo e da entrega dos atores ao projeto”, explica Fetter.

A vinda agora a Bauru, a segunda cidade a assistir ao espetáculo, é a realização de um sonho do diretor quando ainda adaptava o texto. “Eu tinha que trazer a peça para cá, ainda mais porque meu avô Silvio Telles Nunes é um bauruense fanático! Aliás, minha paixão por esta cidade vem dele”, diz o diretor, que já não dorme direito há três dias por conta da ansiedade em subir ao palco natal.

Com três sessões marcadas no Teatro Municipal, a primeira de hoje foi fechada para crianças da rede pública de ensino sorteadas pela Secretaria Municipal de Educação e outras atendidas por entidades assistenciais da cidade. O único problema está no transporte de aproximadamente 130 crianças da Igreja São Pedro, do Centro Espírita Serviço do Mestre e de uma escola municipal da Vila Dutra. “Faço um apelo para quem puder ajudar a levá-las ao teatro, ligar para o meu celular: (14) 8121-8509”, pede o diretor.

Fantasia

Sabugo, Salsicha e Lingüicinha são três porquinhos irmãos que moram em um chiqueiro muito pobre. Cansados da rotina, resolvem fugir, mas não sem antes consultar o Burro, considerado o grande sábio da região. Negando o conselho do amigo de que eles deveriam aceitar seu destino, os porquinhos dão cabo ao plano de fuga.

Na cidade, os irmãos entram num cinema onde conhecem a história dos Três Porquinhos e da Chapeuzinho Vermelho versus o Lobo Mau. Encantados com o filme e seguindo os conselhos da Lua, decidem “ir em busca de aventuras”. Haja aventuras! Na “Floresta Encantada”, eles encontram uma Pitangueira e o Lobo Mau, que disfarçado de policial, tenta tirar vantagem dos porquinhos.

Mas eles acabam conhecendo a Menina do Chapéu Verde, muito parecida com a Chapeuzinho Vermelho do filme. À convite dos avós da menina, os porquinhos aceitam morar no novo chiqueiro da casa da Vovó e passam a viver muito felizes até a chegada do Natal. “Mas isso já vai ser uma outra história...”, avisa o diretor no material de divulgação.

A mensagem principal da peça é que “não podemos mudar o que somos, mas podemos e devemos buscar e aprimorar nossos objetivos”, afirma Rafael Fetter. O diretor ainda pontua a mistura de três contextos clássicos (“Chapeuzinho Vermelho”, “Os Três Porquinhos” e “Os Três Porquinhos Pobres”) proporcionada pelo espetáculo. “A junção das aventuras é feita quando os irmãos entram no cinema e vislumbram um encontro maravilhoso entre os personagens das outras histórias”, diz.

Sonho

Por pouco ele não foi veterinário. Mas ainda bem que o dó de aplicar uma injeção nos animais o levou de volta aos palcos que tinha ocupado quando criança. “Em um almoço com toda a família eu anunciei: ‘pai, cancelei a faculdade de veterinária porque meu sonho é teatro’”, lembra o bauruense Rafael Fetter.

A família tradicional foi obrigada a ceder e, assim, Rafael partiu para o Rio de Janeiro, onde se formou em teatro pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), em 2004. Lá, trabalhou com os diretores David Herman, Adriano Garib, Renato Icaray e Moacyr Chaves na montagem de várias peças até se deparar com um texto de Érico Veríssimo. “Na hora quis levar o texto ao teatro, mas tive que esperar dois anos”, conta.

Com a idéia em mente, o bauruense se uniu aos atores Bruna Aquino e Ruy Borba para criar a Cia. Sifuxipá de Teatro, no ano passado. A peça “Os Três Porquinhos Tristes” saiu da gaveta meses depois. “Começar por um infantil foi um teste, porque criança é muito sincera e demonstra se está gostando ou não”, explica Fetter.

Sem patrocínios, os três escalaram atores e montaram o espetáculo com R$ 25 mil vindos de apoiadores e R$ 20 mil de ajuda de familiares e amigos. “Conseguir patrocinadores para o teatro é muito difícil, principalmente para quem não é global”, lamenta o bauruense.

• Serviço

Cia. Sifuxipá de Teatro apresenta “Os Três Porquinhos Pobres” hoje, às 15h (sessão fechada) e às 17h, e amanhã, às 16h, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos por R$ 6,00 e R$ 3,00 (estudantes com comprovante e maiores de 60 anos). Mais informações: (14) 3235-1072.

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