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Entrevista da semana: Cabo Alcides: corpo e mente sãos

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 11 min

O coração contrai e dilata, as fibras musculares impulsionam os ossos em movimento e a mente é ativa, movida a estudo e esporte. Um homem incentivado pelo amor ao atletismo e pela determinação em transformar pessoas em cidadãos através do esporte. Alcides dos Santos Gonçalves, ou cabo Alcides, é figura conhecida em Bauru. O policial militar foi preparador físico do Esporte Clube Noroeste e revelou muitos atletas de ponta no atletismo brasileiro, especialmente na década de 70.

Sua trajetória começou como um treino de atletismo: caminhando, correndo, saltando, lançando e arremessando, alcançando mais do que a preparação física de seus alunos, alcançando a preparação espiritual. Alcides, 211 ossos e 485 músculos, vai sempre mais rápido, mais alto e mais forte em busca de novos adeptos do atletismo, pupilos a quem ensina, de seu jeito, a viver com mais alegria.

Jornal da Cidade - Eu gostaria de saber como começou a sua vida esportiva. Pelo que sei, você é uma espécie de autodidata. Sua relação com o esporte começou na polícia ou é anterior a isso?

Cabo Alcides - Desde criança eu pratico esportes, comecei com as corridas e depois fui para o ciclismo. As provas naquela época eram muito rudimentares. Depois eu fiz cursos, me formei na escolinha do Noroeste e de lá passei para a Polícia Militar (PM), onde tive a chance de me aprimorar no esporte e fazer grupos de treinamento sérios para as corridas de rua e competições de atletismo na cidade e no Estado. Esses grupos eram de soldados e amigos que se reuniam no Noroeste para treinar, especialmente, corrida de rua e futebol de salão nas horas vagas. Eu me especializei bastante no que concerne à educação física dentro da polícia. Na PM nos tínhamos professores com mestrado e doutorado realizados no Exterior. Foi na polícia que eu ‘abri minha visão’ para o esporte. Em 1965, começou um trabalho na Semel (Secretaria Municipal de Esportes e Lazer), e praticamente eu e alguns companheiros montamos equipes para competir nos jogos regionais. Na época, quem nos convidou para o trabalho foi o Osmar Maha e, a partir daí, foram dez anos de trabalhos voluntários em prol do esporte. Esse tempo foi frutífero, a Semel formou muitos. Em 1970, Bauru foi campeão geral nos Jogos Abertos.

JC - O senhor começou na polícia...

Cabo Alcides - Em 1960. Eu estou com 68 anos agora. É, para você ver, as atividades esportivas dão uma segurada na idade e na aparência. A interação social também ajuda a manter o corpo e o espírito jovens. Eu tenho contato com diversas faixas etárias, treino as categorias pré-mirim, mirim, infantil, juvenil, adultos no atletismo, além de me envolver com a 3ª idade nas horas de folga. Temos um grupo no Bauru Tênis Clube. Mas falando da época na polícia... Quando eu comecei não havia os grupos de treinamento. Na região de Bauru já existiam algumas competições e nós começamos a participar. Na verdade, aqui e em São Paulo. Em 1964, eu me formei ‘cabo’ na Academia de Polícia Militar do Barro Branco (Apmbb). A minha foi a última turma a se formar por lá e, na seqüência, eu cursei educação física na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Fui estudar educação física para poder dar aulas em outras instituições, porque eu era qualificado como instrutor na polícia, mas não podia lecionar em outros lugares. Trabalhei 22 anos e meio na PM. Em 1968, fui convidado para ser técnico da Secretaria de Esportes. Foi um trabalho voluntário de dez anos, como já disse. Eu trabalhava na polícia e nas horas vagas desenvolvia uma equipe de atletismo em Bauru.

JC - Foi a primeira vez que, em Bauru, um trabalho para desenvolver o atletismo e formar atletas foi feito da forma como o senhor fez?

Cabo Alcides - Não, anteriormente havia um trabalho feito pelo Sílvio Mioto, que inclusive foi meu professor na faculdade. Ele desenvolvia ‘escolinhas’ e antes dele o Caputo treinava as crianças. Mas veja, formar atletas não é só cuidar do físico, é formar as pessoas mental e espiritualmente. Nós direcionamos o homem para um trabalho integral, formamos cidadãos. Até hoje é assim, é nisso que eu acredito. Quando um treino termina, eu e meus alunos conversamos, falamos um pouco sobre a integração e a doação de algo em prol das pessoas que precisam. Eu tenho consciência de que com o esporte nós mudamos a vida de muitas pessoas para melhor. Pessoas que poderiam ter problemas graves com a sociedade, hoje estão integradas a ela. Muitas pessoas que passaram pelas ‘escolinhas’, durante todos esses anos, se tornaram atletas de ponta, mas seria injusto citar o nome de um ou dois, porque foram muitos no passado e ainda hoje. Nós temos algumas crianças que, se incentivadas, podem chegar ao atletismo de elite fazendo a diferença ao disputar uma competição. São três meninas e outros dois meninos, todos carentes.

JC - Qual é o investimento destinado ao esporte, ao atletismo, em Bauru? É satisfatório ou o incentivo ainda é pouco? O que falta?

Cabo Alcides - Praticamente não temos investimento, temos, sim, boa vontade. Se você for ver o campo em que treinamos, você não acredita! Eu mesmo, às vezes, pego na enxada para ‘dar um jeito’ na pista onde os treinamentos acontecem. Eu faço questão de caprichar na pista do Campo do Oriente, porque é preciso ter um solo razoável para a corrida. Nossas atividades começam às 6h30 da manhã com o projeto “Pais”. São mães dos alunos que treinam com a gente e que vão para caminhar e fazer ginástica. Às 8h começam os treinos para as crianças e atletas já formados. Treinamos, mas é difícil dizer que somos bem alicerçados, bem formados e profissionais. Somos amadores, treinamos de uma maneira bem rústica, trabalhamos dentro de nossas condições. Damos tudo de nós, mas não temos aquilo que deveríamos ter: uma pista. Fala-se muito em reformar o ‘Edmundo Coube’ , mas faz muito tempo que estamos torcendo, apenas torcendo, para que isso aconteça. Uma historinha para você saber... Na época do governo itinerante do Paulo Maluf, em que ele percorria as cidades, nós, da Semel, fomos convidados pela prefeitura para ir a São Paulo e trazer a tocha (olímpica). Nós fomos. O Maluf chegaria em Bauru num sábado e nós partimos para a Capital na sexta-feira e corremos a noite toda para que a tocha estivesse aqui. O objetivo era a construção de um estádio para os treinamentos em Bauru, mas até hoje o espaço não existe e isso foi na década de 80. Mas eu sou um homem que não perde a esperança, eu acredito que, um dia, Bauru será privilegiada em ter uma pista de treinamentos decente. Por enquanto eu estou no meu ‘mato’ feliz, ajudando as minhas crianças, pais, professores...

JC - Quantas pessoas fazem parte desse programa atualmente? Quantas crianças e atletas de ponta?

Cabo Alcides - Devem ser entre 35 ou 40 pessoas que treinam para ser atletas. As mulheres freqüentadoras são 80 em média, isso das 100 cadastradas. Também temos escolas vinculadas às iniciativas de treinamento. São colégios das imediações como a Escola Estadual Vereador Ferreira de Menezes, Escola Estadual Santa Edwirges, Escola Estadual Airton Bush, Escola Moraes Pacheco, Escolas do Jardim Redentor e Plínio Ferraz, todas essas em vias de renovação de contrato com a Secretaria de Esportes. Desses colégios, mais de 300 crianças participam de avaliações para o esporte e das competições, mas a maior parte não assume o atletismo como atividade séria, por isso, estamos implementando atividades recreativas para incentivar esses pequenos a continuar com a prática esportiva. O esporte ajuda essas crianças a sair da rua e a aprender coisas novas como a coordenação, o equilíbrio, as condutas moral e espiritual. Há uma proposta de um ‘pool’ de empresas que querem ajudar essas crianças a conquistar um futuro. Esses empresários da cidade e região se propuseram a recuperar o Campo do Oriente. O espaço seria assumido pela iniciativa privada e haveria um respaldo para desenvolver as atividades. Se a prefeitura autorizar, creio que, enfim, poderemos ter um centro de treinamento e dar seqüência ao trabalho.

JC - Tem algum atleta que marcou a sua vida, que tenha deixado lembranças, que o senhor tenha ajudado a mudar?

Cabo Alcides - A Maria Tereza Soares. Ela começou pequena a treinar e era muito dedicada. Era bem pobrezinha, negra, assimilava bem e treinava de pé no chão, chegou a ser campeã dos Jogos Abertos e Bicampeã Sul. A Maria se formou depois em serviço social e, hoje, mora em Santa Catarina. A família Kurato também se destacava na década de 70. Esses atletas fizeram de Bauru a grande campeã dos Jogos Abertos de 1970.

JC - O senhor já foi preparador físico do ‘Norusca’. Em que época e como foi a experiência?

Cabo Alcides - No Noroeste eu trabalhei de 1972 a 1980, depois fui para o Matsubara e em 1984 eu voltei e o Norusca subiu. Em 1985, fui para a Portuguesa e, mais uma vez, voltei para o Noroeste. Aqui havia muita facilidade de trabalhar, ajudávamos os atletas a se preparar e, na minha época, muitos foram revelados no Noroeste e encaminhados para times grandes. Não trabalhávamos só a parte física, trabalhávamos o espiritual. Lembro que daqui foram Zé Mário, Picolé e Baroninho para o Palmeiras, por exemplo. Teve um caso, de um jogador que o apelido era ‘Ruindinaldo’, mas eu sabia que ele era bom tecnicamente e pedi 15 dias para prepará-lo. Ele meteu três gols contra o Santos e virou goleador no Norusca.

JC - Como o senhor vê o Noroeste agora, nessa fase boa?

Cabo Alcides - Eu sou bauruense, vejo com muita felicidade essa boa fase. O Noroeste é um bom time para se trabalhar, onde três ou quatro jogadores vêm de fora e a base é feita aqui, com a molecada daqui.

JC - Há muita referência religiosa e espiritual no que o senhor fala. O senhor é religioso?

Cabo Alcides - Eu sou bispo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sou responsável pela ‘ala’ da Bela Vista. São 326 pessoas, 180 famílias cadastradas, de certa forma, sob minha responsabilidade. Eu procurei por algum tempo e sabia que as coisas do Senhor não poderiam ser cobradas. Achei a igreja, que tem o apelido de Mórmon. Por quê? Porque um profeta nas Américas tinha esse nome. Sigo os preceitos dos Mórmons desde que fui batizado e assumi a igreja, há 28 anos. É uma forma de ajudar as pessoas a seguir e organizar sua vida espiritual, e isso me faz muito bem.

JC - E a sua família?

Cabo Alcides - Era trabalhadora e passamos inúmeras necessidades. Eu e meus oito irmãos éramos crianças de pé no chão. Minha mãe faleceu com 94 anos e meu pai, novo, com 45 anos. Minha mãe cuidou de todos nós e, quando eu casei, com 19 para 20 anos, passei a cuidar de meus irmãos mais novos. Naquela época eu alimentava com o dinheiro ganho na PM 13 pessoas. Minha mulher, então com 15 anos, chegou a amamentar meu irmão mais novo. Era uma vida sofrida, mas eu aprendi muito, trabalhava em turno de 24 horas e descansava as 24 horas seguintes. Nessa folga eu plantava para comer. Nossa casa tinha fogão de lenha e o banho era frio. Apesar das dificuldades, eu já treinava com o batalhão. Acho que o atletismo me ajudou a seguir em frente.

JC - E a seleção brasileira de atletismo...

Cabo Alcides - Em 1978 eu pude interagir com os alemães. Como uma das minhas atletas, a Maria Tereza, estava na seleção, eu tive a oportunidade de participar daquelas competições do Pan. Ficamos concentrados no Cefam (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) no Rio de Janeiro e tivemos um simpósio com atletas alemães. Foi muito bom. A Maria Tereza foi para o Pan e também ganhou o Troféu Brasil naquele ano. Ali se construíram amizades e experiências foram trocadas. A partir de 1978, especialmente, eu comecei a me aprimorar no ‘ajuste de articulações’, ajudando no alinhamento corporal. Nunca, graças a Deus, tive um atleta treinado por mim com lesões por conta do esporte. Procurei saber mais sobre fisiologia, fiz um curso técnico de futebol em Jacarezinho e outro de fisiologia do esforço, ambos pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Depois, entre 1996 e 1997, fiz mais uma pós, também pela UEL, sobre avaliação da performance motora. É muito interessante ver como o corpo reage à determinação que você impõe a ele com a prática do exercício. A vontade de se superar faz vencer. Atletismo significa ‘a arte de combater’.

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PERFIL

Nome: Alcides dos Santos Gonçalves

Idade: 68 anos

Hobby: Interagir com as pessoas e fazer pesquisas científicas

Livros: Escrituras, Bíblia, Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios e revistas e obras ligadas à educação física

Filmes: Todos aqueles que tragam mensagens reais de força e bom ânimo

Nota 10: Meus pais, Altino Gonçalves e Agostina de Oliveira Gonçalves; minha mulher, Ieda Vieira Gonçalves, exemplo de dedicação e cuidados; meus filhos

Nota 0: Para tudo aquilo que favorece a destruição das causas justas

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