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Brasil vai ajudar o Uruguai, que promete respeitar Mercosul

Por Eliane Cantanhêde | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Colônia de Sacramento - Doze dias antes da chegada do presidente George W. Bush ao Uruguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou ontem no país com um generoso pacote de cinco acordos e memorandos e conseguiu provocar um recuo na intenção do governo uruguaio de fazer um tratado de livre comércio com os EUA. Na visão brasileira, manifestada abertamente por Lula, esse acordo feriria as normas do Mercosul.

O ministro da Economia do Uruguai, Danilo Astori, declarou à imprensa, depois da assinatura dos acordos ontem, que as negociações com os EUA prosseguem, mas não a ponto de levarem a um tratado. “Nós temos que perseguir essa possibilidade (de um acordo bilateral com Washington), mas naturalmente temos que fazer com a aplicação das normas do Mercosul”, disse Astori.

Antes, porém, em entrevista só para jornalistas uruguaios, o ministro havia criticado a pressão contra o tratado com os EUA e defendido uma “flexibilização das regras” do Mercosul, ironizando a posição brasileira e a Zona Franca de Manaus: “Se nos dizem que o que nós estamos pedindo é incompatível com o Mercosul, nós dizemos que Manaus também é”.

Lula, em seu discurso depois da assinatura dos documentos, fez referência direta à visita que Bush fará ao Brasil e ao Uruguai a partir de 8 de março: “Certamente o presidente Tabaré vai discutir os interesses do Uruguai em relação aos EUA, e eu, particularmente, quero discutir o problema dos biocombustíveis com o presidente Bush. A relação no Mercosul não impede que isso aconteça”.

Conforme a reportagem apurou, a expectativa brasileira é que o Uruguai faça acordos pontuais com os EUA, para condições preferenciais e reduções tarifárias em produtos fundamentais para o país, como a carne. Nesse formato, o acordo não feriria as normas do Mercosul.

O recuo do governo do presidente Tabaré Vazquez foi uma vitória do Brasil, que temia um acordo do Uruguai com os EUA nos moldes dos já feitos pela Colômbia e pelo Peru e que poderia implodir o Mercosul, ou, no mínimo, inviabilizar a permanência do país no bloco. A vitória, porém, teve um preço. Os acordos e acertos de ontem, em áreas como energia e comércio, foram francamente favoráveis ao Uruguai.

Para Tabaré Vazquez, é fundamental combater as assimetrias entre os países do Mercosul, “não por dádiva, não por caridade, mas por justiça”. Ao criticar as “assimetrias”, Lula disse que a política externa “é uma via de duas mãos” para que “as duas partes se dêem por satisfeitas e felizes”.

Em 2006, o Brasil exportou US$ 1 bilhão para o Uruguai, mas só comprou US$ 618 milhões. O objetivo de parte dos acordos e das conversas de ontem foi justamente para equilibrar as relações comerciais. Lula disse que o Brasil quer relações de parceria, e não de “hegemonia”. Lembrou que, para a consolidação da União Européia, os países mais ricos despejaram “bilhões de marcos e dólares” nos mais pobres.

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Cooperação em biocombustíveis

Colônia de Sacramento - As principais áreas em que as conversações do Brasil com o Uruguai avançaram foram biocombustíveis, energia e comércio, além de promessas para que as empresas uruguaias passem a integrar a cadeia produtiva brasileira na área de automóveis e ônibus.

No total, foram cinco acordos ou memorandos, incluindo um programa de cooperação na área de biocombustíveis que foi considerado pelos dois lados como um primeiro passo para a realização de um sonho uruguaio a médio prazo: a instalação de uma fábrica de etanol no país, com tecnologia e financiamento brasileiros.

Apesar de a possibilidade da fábrica não ter sido explicitada nos textos distribuídos pelos dois países, ela foi uma possibilidade aventada durante os encontros e recebeu uma referência indireta no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula defendeu o biodiesel brasileiro, disse que conversará sobre isso com o presidente dos EUA, George W. Bush, em São Paulo, em março, e declarou que o Uruguai não poderia ficar distante do projeto.

Também ficou acertado que o BNDES financiará parte da construção de uma fábrica de cimento no Uruguai. O investimento, no total de US$ 130 milhões, será tocado por uma subsidiária da construtora Camargo Correia. Foram acertadas as participações brasileiras também na restauração da ponte Barão de Mauá sobre o rio Jaguarão e na construção de uma nova.

Um outro acordo foi para a promoção comercial e investimento para a aceleração do processo industrial uruguaio.

Folhapress

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