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DVD traz bastidores dos Racionais MCs

Por Adriana Ferreira Silva | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Nos próximos dias, chega as lojas o primeiro DVD dos Racionais MCs. A maioria das bandas consideraria isso só mais um lançamento. Para eles, no entanto, o registro é um outro resultado de uma “tática de guerrilha”, que começou há 20 anos e já os levou a vender 1 milhão de discos sem sair da periferia ou fazer shows em grandes festivais, com poucas entrevistas e aparições na TV.

“A gente se vê como um movimento de guerrilha e é isso o que queremos preservar”, explica o rapper Ice Blue, 36, um dos quatro Racionais, ao lado dos MCs Mano Brown e Edy Rock e do DJ KL Jay. “Não precisamos da TV para acontecer.” Há cinco anos, a banda prepara “Mil Trutas, Mil Tretas”, que sai independente pelo selo dos Racionais, o Cosa Nostra.

O tema principal é um show no Sesc Itaquera, em 2004, quando tocaram na mesma tarde do “ídolo” Jorge Ben Jor. Mas, apesar de a apresentação ser um belo exemplo de como os Racionais são poderosos ao vivo, estão nos extras as cenas mais surpreendentes.

Além de mostrar bastidores de viagens, de conversas e rolês do grupo, o DVD traz um minidocumentário, idealizado por Mano Brown, sobre a história dos bailes “black” da periferia. Por meio de entrevistas com pioneiros dessa cena -como Luizão, dono do Clube da Cidade e idealizador do famoso baile da Chic Show-, os Racionais traçam um perfil de sua adolescência, ouvindo funk, samba e soul antes de conhecer o rap. “São os bailes que frequentamos”, fala Ice Blue.

“Eu e o Brown começamos a cantar e ganhamos um concurso num baile da Chic Show. Isso foi uma das coisas que nos levou a ser o Racionais.” Independentes As idas e vindas para fazer o DVD ao vivo - que chegou a ser gravado num evento anterior, mas foi descartado- poderiam ter sido resolvidas rapidamente, se eles tivessem aceitado o convite para um “acústico MTV” ou negociado com uma gravadora -eles foram procurados por EMI e Universal.

“Os caras tinham interesse, então ouvimos”, afirma Blue sobre as “majors”. “Mas descobrimos que a gente ia pagar uma porcentagem para eles fazerem o mesmo que nós fazemos. Eles não ofereceram nada que surpreendesse.” Sobre a proposta da MTV (pela qual já foram premiados e compareceram à festa), a recusa, fala Ice Blue, ocorreu porque seria um “canal preconceituoso”. “Eles botaram o nosso programa [o Yo!, de rap] à 1h da manhã”, diz.

“Daí, fazem convite: “vamos fazer acústico, vamos fazer série’. Ter o Racionais é muito óbvio, é marcar um pênalti, porque a gente é o que é não pela televisão.” Ice Blue afirma que o Racionais só vai para a TV quando outras bandas de rap tiverem espaço. “Somos convidados porque surpreendemos musicalmente.

Um grupo que veio da periferia, tem conteúdo, um letrista poeta [Mano Brown], ganhou prêmio. Não porque somos uma banda de hip hop.” Ele cita o filme “Antônia”, que foi exibido como série, na Globo, e que estréia amanhã nos cinemas como exemplo do potencial dos rappers. “O “Antônia’ mostrou que as pessoas da periferia que fazem o rap, como a Negra Li e o Thaíde, têm talento, têm público.” O lado ruim da série, diz Blue, é que toda moça da periferia “virou Antônia”.

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Obra dá força de Mano Brown

Se não fizerem mais nada de novo nos próximos anos, os Racionais já terão entrado para a história por dar uma voz e um rosto à periferia. Graças a eles, jovens de todas as “quebradas” do país têm orgulho de dizer de onde vêm e de mostrar sua moda, gíria e jeito de falar -até na TV Globo.

O registro desse fenômeno é o maior mérito do DVD, que dá uma idéia de quem são os Racionais e de seu poder de mobilização. Isso fica claro quando uma multidão de meninos e meninas acompanha Mano Brown, recitando o poema que abre a música “Vida Loka [Parte 1]”.

Assistir a Brown em ação é uma experiência que todos deveriam ter. Mesmo que só no DVD. No palco, ele assume personagens. É o poeta que chora, o ladrão que tenta mudar de vida, o “cachorro” que fica com várias meninas.

Nos bastidores, no entanto, cercado pelos filhos, rindo com os amigos ou falando sobre diferenças sociais, cai a imagem de durão e entra a do pensador. Um dos maiores que temos hoje.

Folhapress

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