Nacional

Inspiração japonesa

Por Eduardo Simões | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“Tudo funciona por contaminação”, repetem, algumas vezes, personagens de “O Sol se Põe em São Paulo”, novo romance do escritor Bernardo Carvalho. A frase alude a um dos estopins do livro: contaminado pela obra de Junichiro Tanizaki (1886-1965), autor de “Voragem” e “Amor Insensato”, Carvalho quis colocar no seu texto, incidentalmente, temas recorrentes do autor japonês. O romance chega às livrarias na segunda-feira.

Setsuko, uma octogenária nipônica, propõe a um brasileiro, bisneto de japoneses, que ambicionava se tornar escritor, redigir um romance. O tema é seu envolvimento com Michiyo, moça de boa família, mas falida, Jokichi, o filho de um industrial, e Masukichi, um atraente e conturbado ator de teatro kyogen. “Queria ecoar o Tanizaki, mas não fazer um pastiche. Quem o faz é Setsuko, que não é escritora, gostava também de Tanizaki, e narra sua história totalmente contaminada por ele. É um personagem de ficção que faz o pastiche dentro do romance”, ressalta Carvalho.

“No Tanizaki, sempre há um triângulo amoroso, sendo que com duas mulheres e um homem. E eu queria dois homens e uma mulher. Queria que tivesse uma coisa homossexual, como no Tanizaki, sendo que nele é entre mulheres. E no meu romance, entre homens.” A contaminação não parou por aí. Numa viagem de dez dias, em 2004, ao Japão, para “reconhecer” parte do cenário de sua história, Carvalho foi abordado num trem por uma senhora japonesa.

O episódio gerou uma seqüência de (des)encontros insólitos que ele descreveu em dezembro daquele ano em sua coluna na “Folha de S. Paulo”. E que ele acabou incorporando à sua história. “Engraçado foi que o que motivou a mulher a me convidar para um jantar foi eu estar lendo “As Irmãs Makioka’, do Tanizaki. Foi como um cartão de visita. Ela também era fascinada pelo livro”, diz.

Carvalho começou a escrever “O Sol se Põe em São Paulo” logo depois de publicar “Mongólia”, Prêmio Jabuti de melhor romance em 2004. Naquele romance e no anterior, “Nove Noites”, confrontado com uma percepção de que o leitor, em geral, se interessava cada vez mais pelos aspectos extraliterários de uma obra, ele decidiu criar uma “armadilha”. Na qual, diz, acabou em parte caindo. “Em “Nove Noites’, resolvi que ia brincar com isso: uma armadilha, como uma autobiografia, em que as pessoas se interessariam pela dimensão de realidade. Achei que estava criando uma coisa como um labirinto, que também fiz em “Mongólia’. De repente, me dei conta de que a coisa é mais potente. E as pessoas leram como realidade.”

• Serviço

O “Sol se Põe em São Paulo”. Autor: Bernardo Carvalho Editora: Companhia das Letras preço: R$ 34,00 (168 páginas.)

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