Esportes

Pólo aquático: Bauruense Patelli embarca para Mundial e vive a expectativa de apitar no Pan-Americano

Rodrigo Allegro
| Tempo de leitura: 6 min

A pouco menos de 5 meses para a realização do Pan-Americano do Brasil, no Rio de Janeiro, o árbitro bauruense de pólo aquático, Décio Patelli Jr., vive a expectativa de participar pela terceira vez de uma competição de alto nível como o Pan. Antes deste compromisso, Patelli, que também foi jogador de pólo no BTC na década de 70, terá pela frente outro evento esportivo de grande porte. O bauruense, que integra um grupo seleto de 25 árbitros do mundo todo, estará a partir do dia 13 deste mês apitando no Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos, em Melbourne, na Austrália. Com grande experiência no currículo - duas Olimpíadas, três Pan-Americanos e vários Campeonatos Brasileiros e Mundiais, Patelli concedeu entrevista para o Jornal da Cidade, onde falou sobre o Pan no Brasil, o pólo aquático de Bauru, sobre o esporte amador bauruense, além de contar passagens interessantes nesses mais de 25 anos viajando pelo mundo. A seguir leia os principais trechos da entrevista que o árbitro bauruense concedeu ao JC antes de embarcar para a Austrália.

Jornal da Cidade – Antes de participar do Pan, você irá atuar como árbitro no Mundial de Esportes Aquático?

Patelli – Esse campeonato é super conceituado e valorizado. Para se ter uma idéia, depois das Olimpíadas o Mundial é a competição mais importante dentro dos esportes aquáticos. Os melhores atletas da natação, pólo, nado sincronizado e saltos ornamentais estarão participando. Esse Mundial, que é realizado em dois em dois anos, é o principal evento da Federação Internacional de Natação e para minha carreira será importantíssimo.

JC – O Brasil estará presente no pólo ?

Patelli - Somente no feminino.

Jornal da Cidade – Após o Mundial, o seu grande desafio será apitar no Pan do Brasil? Qual a sua expectativa?

Patelli – Apitar num Pan-Americano por si só e, pela quarta vez, já é sensacional. Mas apitar no meu País será uma emoção muito forte e diferente de todas que eu já senti.

JC – Quais as chances do pólo do Brasil conquistar medalhas no masculino e feminino?

Patelli – Infelizmente, as chances de conquistar a medalha de ouro ou prata são quase impossíveis. O principal motivo, na minha opinião, foi a falta de planejamento antecipado dos dirigentes. Todo mundo sabia que o Brasil seria sede, então o pólo brasileiro tinha obrigação de lutar por um lugar na final, tanto no masculino como no feminino. Para você ter uma idéia, há praticamente quatro anos, os Estados Unidos e Canadá estão se preparando exclusivamente para o Pan do Rio, enquanto o Brasil não se programou como deveria. No masculino, conforme for, nós vamos brigar somente pela medalha de bronze e a final certamente será entre Estados Unidos e Canadá.

JC- Essa falta de planejamento do pólo, também pode se aplicar à realização do Pan. O Brasil tem estrutura para abrigar uma competição tão importante como esta?

Patelli – Olha, no pólo aquático, o planejamento em relação aos times foi falho, mas no quesito infra-estrutura está praticamente tudo pronto. A piscina, que será no Complexo do Maracanã, já está em perfeitas condições e, em abril, nós teremos um Campeonato Brasileiro, onde serão feitos pequenos acertos visando o início do Pan. Em relação as obras num todo, realmente estão atrasadas, mas eu acredito que até o início tudo estará pronto.

JC- E a violência urbana não preocupa, já que grandes nomes do esporte estarão no Rio?

Patelli - Realmente esse é o meu maior receio. Mas a esperança de que tudo possa transcorrer normalmente e com toda proteção, é o nosso maior sonho. Grandes esportistas virão para o Rio e a nossa responsabilidade (polícia, organizadores e autoridades) aumenta muito.

JC- O pólo é considerado um esporte violento. Como vocês árbitros, técnicos e dirigentes lidam com esse fato negativo?

Patelli – O pólo chegou num estágio, principalmente na década de 90, onde a violência atingiu o seu ápice. Muitas brigas durante os jogos e isso afastou o público e manchou o esporte. Algumas regras foram modificadas, entre elas, o tempo reduzido de 30 para 20 segundos e o escanteio. A natação também passou a ser mais explorada pelos treinadores e jogadores, deixando o jogo mais rápido e dinâmico. Todas essas medidas, além da preocupação permanente das federações e dos árbitros, fez com que a violência fosse reduzida em quase 50% nos últimos anos.

JC - Na sua visão, o que um árbitro de ponta deve ter como principais características?

Patelli – Experiência e atenção. Esses dois fatores, aliado aos cursos de reciclagem são fundamentais para o sucesso de um bom árbitro.

JC - Conte-nos alguma passagem marcante nesses seus mais de 20 anos como um dos principais árbitros do mundo?

Patelli – São várias histórias e uma riqueza cultural que não tem preço. Mas uma grande emoção foi nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992, quando após terminar o meu jogo como árbitro, eu consegui assistir a decisão do vôlei do Brasil contra a Holanda, quando o Brasil conseguiu a medalha de ouro. Foi emocionante demais. Outro fato marcante, foi em Atenas, quando eu ouvia noticiários que alguma coisa de ruim havia acontecido com o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro, mas eu não entendia grego e sabia que algo de ruim havia acontecido. Enquanto eu não me informei certo sobre o que tinha acontecido, eu não sosseguei. Nessas horas, o brasileiro fica mais brasileiro ainda, principalmente estando longe de casa.

JC – Você deve conversar com esportistas, dirigentes e torcedores do mundo inteiro. Como o esporte brasileiro é visto?

Patelli – Eu costumo conversar bastante e, tirando o futebol, que é o nosso carro chefe, o vôlei masculino e feminino e o Robert Scheidt são muito respeitados e admirados em todo mundo.

JC - Mudando um pouco de assunto, como anda o pólo-aquático de Bauru?

Patelli – Graças aos patrocínios de alguns parceiros nosso, o pólo do Bauru Tênis Clube (BTC) continua participando de campeonatos estaduais e revelando novos jogadores, mas o ideal seria um trabalho ainda mais forte para massificar o esporte na cidade. Mas, infelizmente, hoje em dia tudo está difícil e triste em relação ao esporte de Bauru.

JC - Mas isso envolve apoio financeiro, como você avalia o esporte amador de Bauru?

Patelli – Sinceramente, o esporte amador de Bauru, hoje em dia, é o reflexo atual da cidade: largado e sem nenhum apoio financeiro da prefeitura.

JC - Como reverter este quadro?

Patelli – O grande problema, na minha visão, é que o esporte bauruense hoje em dia é visto com ovelha negra. Mas eu não gosto de falar e sim agir, então eu e um grupo de amigos de Bauru estamos nos reunindo para tentarmos alguma solução para levantar o esporte que está às moscas e isso é uma vergonha.

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