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Comer, falar e beijar


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A boca é de fundamental importância para o conjunto orgânico - psíquico do homem e símbolo do poder criador. Com sua força capaz de sorrir, animar, organizar, crescer, a boca também é capaz de destruir, matar, confundir, diminuir, ferir. A boca é um órgão de conexão, pois a conexão está presente nas três funções exercidas por ela: comer, falar e beijar. O corpo e a alma representam polaridades opostas e o seu estado natural é o de separação. É necessária uma energia especial para mantê-los juntos e esta energia vital é obtida através dos alimentos. Ele conecta estes pólos opostos em um todo integrado e esse laço de união é a vida. O alimento, portanto, não deveria ser fruto de glutonaria, mas de degustação, de prazer com a intimidade de algo realmente necessário. Por isto a refeição, uma experiência aparentemente trivial, quando feita com esta consciência e em companhia de alguém gera uma áurea única de conexão, de união entre pessoas. Quem se alimenta assim, vive o seu corpo.

Da mesma forma, a energia das palavras é suficientemente poderosa para produzir uma profunda conexão entre aquele que fala e aquele que escuta. A palavra é uma pequena amostra do que temos internamente; ela mostra o coração do homem e é no falar que o homem se revela. Ela é uma fagulha que deve ser usada para promover conexões e não incêndios e, desta forma, iluminar a avenida que nos levará para um mundo mais elevado. Assim nossa obrigação é a de tornar cada palavra válida, preciosa e quem fala assim, vive o seu corpo.

A função de um beijo é a íntima conexão entre pessoas; é uma expressão natural de afeto. Na verdade é uma atividade muito estranha; não a vemos assim somente devido à familiaridade, mas é extremamente incomum que a mente humana tenha escolhido este ato em particular como uma expressão de amor. Porém, ele está inculcado em nossos padrões comportamentais porque, em essência, é perfeitamente apropriado e quem beija para extravasar seu legítimo amor, vive o seu corpo. Nos dias de hoje, apesar da visão hedonista e de toda indústria e comércio associados ao corpo, deve-se procurar um maior conhecimento de sua realidade. Um entendimento holístico seria mais satisfatório, pois estaria incorporando tudo o que é oferecido pela ciência, tradições e religiões. Um lixo ruidoso e caótico se acumula em nosso corpo fruto de uma crise que é, também, ecológica. Esse entulho chega todos os dias nos alimentos desequilibrados ingeridos inconscientemente; nos líquidos bebidos sem discernimento; no ar poluído inevitavelmente respirado e até pela luz solar recebida em qualidade e quantidades inadequadas.

A solicitação e a manipulação de nossos corpos e sentimentos por mecanismos de consumo e pela competição distanciam-nos de nossa identidade profunda, nos afastam de nós mesmos e dos outros. A violência no trânsito e a insegurança generalizada expõem e atingem nossos corpos cronicamente e, por vezes, de forma brutal, aguda e definitiva. São fatores que nos deterioram e nos separam.

Quem pratica meditação, ioga, dança ou caminha com amigos, busca estabelecer vínculos abrangentes do ser com o corpo, vive seu corpo. Quem treina numa academia, fazendo exercícios regulares e intensos, mantém a “máquina” em dia, cuida do corpo. Embora não sejam totalmente excludentes, existe uma diferença fundamental entre viver o corpo e cuidar do corpo. Todas estas coisas são características específicas e requintadas do modelo humano.

O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica - faculdade de Engenharia Unesp-Bauru

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