Bairros

Sem estrutura para cuidar de praças, Semma abre adoções

Por Luciana La Fortezza | Colaborou Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

A incapacidade da administração municipal de manter espaços públicos em condições de uso não foi encoberta pelo clima festivo da solenidade realizada ontem no Automóvel Clube de Bauru ao som de Mozart, quando 12 praças e áreas verdes foram entregues para adoção. A iniciativa, aprovada pelo Legislativo, carrega uma confissão de dificuldade.

“A prefeitura tem mais de 5 mil funcionários e não tem condições de fazer. Ela já demonstrou que não tem cuidado com as praças nem com as áreas verdes”, comenta o vereador Primo Mangilardo (PV). Quando a lei foi aprovada no ano passado, ele apresentou emenda para que pontes e viadutos também pudessem receber o mesmo tratamento.

Em sua fala, ontem no Automóvel Clube, o prefeito Tuga Angerami (sem partido) não negou as dificuldades da prefeitura. Ao parabenizar a iniciativa dos que estavam adotando as áreas verdes, Tuga disse que os mesmos estavam assumindo “algo que teoricamente seria obrigação do poder público, que não tem condição de manter quase 270 praças semi-urbanizadas”.

Para Mangialardo, que aprova as adoções, a partir de agora, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) terá de dispensar mais atenção às áreas que não despertaram interesse para adoção. “Liberando essas praças de maior visibilidade, posso cuidar um pouco melhor daquelas que não são tão interessantes”, admite o titular da Semma, Rodrigo Agostinho.

Ele será cobrado por parlamentares como Primo, para quem as áreas verdes demonstram o cuidado que a cidade tem com ela mesma. Talvez “privatizadas”, elas retomem a capacidade de atrair a população para seu entorno. Mas o sociólogo Murilo César Soares não acredita nesse movimento.

Na opinião dele, a utilização dos espaços públicos diminuiu em virtude de um conjunto de fatores. “As pessoas deixaram de sair de casa, se individualizaram. A importância que o poder público dava (às áreas verdes) também diminuiu. Mas sem dúvida, é (uma espécie de privatização essas doações)”, diz o sociólogo. Agostinho opõe-se ao termo.

“A empresa apenas se responsabiliza pelo cuidado. O poder público ainda vai arcar com algumas despesas, de iluminação, de água, com a irrigação da praça. É uma responsabilidade compartilhada. A gente não está se eximindo”, afirma o secretário de Meio Ambiente.

Agostinho argumenta que a prefeitura não foi atrás dos empresários para que eles adotassem os espaços. “Eles vieram nos procurar o interesse de cuidar das praças”, diz.

Das 270 praças, quase cem não estão nem urbanizadas. Muitas não têm denominação e outras nem acessíveis estão. “Tem parte (de praças) em loteamento que não foram abertos”, conclui o secretário.

Realização

“Para nós, a adoção da praça é uma forma de gratidão pela cidade que recebeu meu pai com muito carinho”, diz Elisabeth dos Santos Cariani, filha de José Cariani, que dá nome à praça no Jardim Europa por ela adotada.

Para os empresários Daniel Addad e Eduardo Volpe, que adotaram a praça José dos Santos, a ação, há tempos vislumbrada, faz parte do desejo da empresa de se envolver em causas sociais e pelo meio ambiente. “É uma filosofia da nossa empresa visar não somente os negócios, mas também o bem público”, diz Addad.

Para o também empresário Roberto Ignatios de Almeida, que adotou a praça Figueira Branca, o valor que será gasto para cuidar do local compensa a sua recuperação. “A gente tem que cuidar, tem que manter, assim se melhora a segurança, o visual e se cria um espaço melhor pra gente conviver. Se todos fizerem um pouquinho, as coisas ficam mais fáceis. Vale a pena”, diz.

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Nova lei

Os termos de cooperação para adoção de praças assinados ontem são os primeiros a partir da lei municipal nº 5.385 aprovada em 2 de agosto do ano passado. Por meio dela, ficou muito mais fácil para a iniciativa privada assumir a responsabilidade pela manutenção de uma área verde.

Antes, os interessados enfrentavam um processo de licitação para adotar uma área, o que afugentava empresários e moradores. Quando os contratos das antigas adoções vencerem, eles terão de ser refeitos a partir da nova lei, explica o secretrário do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho.

Segundo ele, atualmente não há como saber quantas praças já estavam sendo cuidadas ou eram adotadas porque cada caso foi tratado de maneira diferente no passado. “Alguns lugares as pessoas cuidam porque querem, outras foram locais nos quais havia o interesse do uso do espaço para publicidade”, exemplifica.

A nova lei contempla, além de praças, rotatórias, canteiros centrais, áreas esportivas, pontes e viadutos. Quem adota uma área verde da cidade fica responsável pela sua manutenção em um esquema de parceria com a prefeitura que é determinado caso a caso. O adotante pode usar o local para fazer publicidade, desde que seja estabelecido com a Semma qual espaço será utilizado.

O contrato tem a validade de um ano e pode ser renovado, sempre pelo mesmo período. Para adotar uma área verde é preciso fazer um ofício demonstrando interesse junto à Semma. Mais informações pelo telefone 3235-1080.

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