Internacional

Morre o escritor Jean Baudrillard

Por Leneide Duarte-Plon | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard morreu anteontem, em sua casa, em Paris, aos 77 anos, depois de uma longa doença (expressão comumente usada pela imprensa francesa para se referir ao câncer). Conhecido mundialmente por sua abordagem ácida da mídia e da sociedade de consumo - cuja insignificância ele denunciava, ao mesmo tempo em que profetizava seu declínio -, Baudrillard foi um intelectual intempestivo e autor de cerca de 50 livros, além de fotógrafo renomado.

Ora tachado de reacionário moralista, ora de niilista, ele se considerava um resistente e criticava a suposta covardia intelectual de seus contemporâneos. Nascido em Reims, em 20 de julho de 1929, numa família de origem camponesa, Baudrillard era germanista e tradutor de Marx e Brecht. Em 1968, lançou seu primeiro livro de sociologia, “Le Système des Objets” (O sistema dos objetos), sucedido por “La Société de Consommation” (A sociedade de consumo), em 1970. Três anos depois, ao assinar “Le Miroir de la Production” (O espelho da produção), rompeu com o marxismo.

A partir daí, tornou difícil o trabalho daqueles que buscavam associá-lo a quaisquer ideologias. Tido como um dos principais teóricos do pós-modernismo, ele voltou seu alvo para a crítica do pensamento científico tradicional e desenvolveu seus estudos a partir do conceito de virtualidade do mundo aparente. Baudrillard se via como um franco-atirador; a esquerda o encarava com ressalvas desde que revalorizara o pensamento do filósofo conservador Joseph de Maistre no livro “La Transparence du Mal” (A transparência do mal), lançado em 1990.

Quando os terroristas atacaram o World Trade Center, em 2001, Baudrillard fez conferências e escreveu artigos sobre o tema. Em 2003, durante uma de suas passagens pelo Brasil, disse que “a guerra (do Iraque) é o não-acontecimento, algo que foi feito para eliminar o primeiro (os atentados)”.

O filósofo que começou sua carreira como professor de sociologia da Universidade de Nanterre se anunciava provocador desde os primeiros ensaios: “O que escreverei terá cada vez menos chance de ser compreendido. Mas isso é meu problema. Estou numa lógica de desafio”. Segundo ele, o terrorismo também seguia a sua própria lógica.

Em fevereiro de 2003, ao discutir a iminente “guerra ao terror” comandada pelos EUA, em um encontro com o também filósofo Jacques Derrida em Paris, ele observou: “A guerra acontecer ou não é um detalhe, já que ela é um acontecimento fantoche que só existe como efeito de substituição. Os americanos substituíram Bin Laden por um objetivo fantoche. Bin Laden não morreu, desapareceu”, afirmou.

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