Cultura

Pato Fu contra todo mal

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Pato Fu. A banda que perturba o cenário musical ao produzir um som experimental pop, elogiado tanto pela crítica quanto pelo público, volta hoje a Bauru para atender ao apelo dos fãs heterogêneos e movimentar a programação do Serviço Social do Comércio (Sesc), adormecida por um longo período sem grandes shows.

Vozes macias em temas ásperos, junções eletroacústicas refinadas, arranjos originais. Tudo isso será visto, ouvido e sentido no show da turnê do oitavo disco, “Toda Cura Para Todo Mal”, lançado em 2005 e que chega a Bauru depois de percorrer alguns países da Europa em novembro.

No cenário montado, mais uma vez a preocupação da banda é ser literalmente bem-vista, com jogos de luzes criando climas, inclusive, para a entrada de um... astronauta. “Eu mesma manipulo o boneco cantando ‘Simplicidade’. É algo diferente, nunca vi isso numa apresentação de rock”, pontua a senhora da voz, Fernanda Takai.

Fugindo da projeção eletrônica adotada nos últimos shows, “muito comum hoje em dia”, a banda optou pela contramão e reflete na turnê o projeto gráfico do disco. O resultado foi coroado com o prêmio de melhor show do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), em 2006.

O fascínio pelo visual também foi responsável por outro ineditismo: a produção de videoclipes das 13 músicas do “Toda Cura...”. “Pela primeira vez no Brasil, uma banda produziu clipes de todo um disco”, diz Fernanda. O DVD, promessa para junho passado, deve finalmente vencer a burocracia para sair daqui 15 dias. “O DVD terá duas horas, sendo uma hora para os clipes e o restante de making of da gravação e cenas da turnê na estrada”, cita.

Enquanto o presente não chega, os fãs vão poder conferir ao vivo e em cores algumas canções do álbum. Sob o aviso da vocalista, o show desta noite será uma mistura de músicas mais recentes (“Anormal”, “Sorte e Azar”, “Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!”, “Agridoce”) com hits clássicos, cantados de ponta a ponta, como “Eu”, “Sobre o Tempo”, “Perdendo Dentes” e “Canção pra Viver Mais”.

“Vai ser um bocado de músicas e espero que seja tão bom como o último, em 2005. Lembro que estava voltando a cantar depois da maternidade e foi uma das maiores surpresas ver a reação do público da cidade”, lembra Fernanda, que continua. “E foi uma platéia bem misturada. Quem ouve Pato Fu, não tem restrição de idade. Até minha filha gosta, ou é obrigada a gostar”, diz rindo.

Depois de referir-se duas vezes à maternidade, a pergunta sobre a relação ser mãe/trabalho é inevitável. Negando o peso do acúmulo de funções, a vocalista coloca as mudanças como gradativas. “Antes eu não cantava muito e agora me assumo mais como porta-voz da banda. Com o papel de mãe foi a mesma coisa. Estou dormindo menos e com dor nas costas (risos), mas compensa”, afirma.

Raridade

Com 14 anos de vida e oito discos lançados, o Pato Fu é um dos raros grupos que mantém espaço na mídia, mesmo sem uma produção focada no comercial. “Nós não produzimos um disco baseado em pesquisa de opinião. Recebemos influência do meio que vivemos e traduzimos o mundo que vemos do nosso jeito”, diz Fernanda Takai, explicando a boa aceitação da crítica e do público.

E, em “Toda Cura Para Todo Mal”, a banda declara realmente sua independência ao produzir integralmente o álbum pelo selo Rotomusic. Gravado e mixado no estúdio que o guitarrista, John Ulhoa, e a vocalista, marido e mulher, mantêm em casa, a criação ficou livre do cronograma apertado cobrado por produtores - até mesmo porque John assumiu sozinho mais esta função. “Pode-se dizer que agora atingimos nossa autonomia artística”, coloca Fernanda.

Em sua análise, ter mais tempo foi importante para uma maior participação dos outros músicos: Ricardo Koctus (baixo e vocais), Xande Tamietti (bateria e percussões) e Lulu Camargo (teclados e acordeom). “Como o tempo não é mais escasso, todos se sentiram mais à vontade para opinar”, afirma.

Além das próprias músicas, o Rotomusic produz trabalho de outros artistas, como o mutante Arnaldo Baptista, a mineira Érika Machado e os gaúchos do Wonkavision. “Não temos muito tempo para nos dedicar a outros artistas, mas, quando isso acontece, é sempre sincero. São músicos que realmente acreditamos”, diz Fernanda.

Quanto ao Pato Fu, atualmente a banda está em estúdio produzindo o novo disco, ainda sem nome e formato. “Não estamos imersos totalmente neste projeto por conta da turnê, que vai até maio. Depois vamos nos dedicar mais ao disco”. O lançamento está previsto para o segundo semestre deste ano.

• Serviço

Show da banda Pato Fu hoje, às 21h, no ginásio de eventos do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Ingressos por R$ 30,00, R$ 15,00 (usuário inscrito, estudantes com comprovante, professores da rede pública de ensino e maiores de 60 anos) e R$ 8,00 (trabalhador no comércio e serviços e dependentes). Mais informações: (14) 3235-1750.

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