Em 1993, alguns meses após eu ter assumido a presidência, o DAE de Bauru recebeu uma pequena verba a fundo perdido do orçamento da União para ser aplicada na obra do interceptor da margem esquerda do Rio Bauru. Feitas as contas, foi dinheiro suficiente para executar 40 metros de interceptores. Ao longo de minha gestão, o DAE implantou 575 metros de interceptores no Rio Bauru e 17.000 na cidade toda. Executada a obra, o serviço de contabilidade do DAE preparou a devida prestação de contas ao governo federal, a qual assinei, juntamente com outros diretores. O documento foi remetido ao ministério do Bem Estar Social em Brasília, que não mais se manifestou. Em 2.000, ou seja, sete anos após, já estando eu de volta à iniciativa privada, fui intimado pelo Ministério a esclarecer uma diferença equivalente a cerca de R$ 13,00 (isso mesmo, treze reais) encontrada na prestação de contas, ou devolver aos cofres da União o valor corrigido, sei lá como, de R$ 42.000,00. A partir daí, passei por um périplo de contestações e produção de documentos, que só terminou em 2005 quando o Tribunal de Contas da União julgou as contas regulares e arquivou o processo, não, sem antes, solicitar documentação fotográfica do interceptor, o qual, como todos sabem, fica enterrado. Mandei fotos da margem esquerda do rio Bauru sem lançamentos de esgoto no trecho, que felizmente foram aceitas. O processo todo foi desgastante, mas fiquei satisfeito com o zelo do governo federal com o dinheiro público, embora, certamente, o custo do tempo dos analistas e desembargadores tenha sido maior que o valor em questão.
Dias atrás, na Câmara Federal, 295 senhores deputados (148 foram contra) aprovaram uma medida provisória que destina R$ 20 milhões para a reforma agrária, pasmem, na Bolívia. A justificativa do governo Lula para a edição da MP é de que há “grande potencial de tensões que se criariam na fronteira” em função de um “deslocamento intempestivo” de famílias brasileiras em caso de não liberação do dinheiro. Vou traduzir: o presidente Boliviano, Evo Morales prometeu expulsar da Bolívia cerca de sete mil brasileiros que cultivam terras junto à fronteira e a volta súbita dessas pessoas não é desejada pelo governo brasileiro. Então, Lula vai pagar 20 milhões à Bolívia para manter esse povo lá. Alguns comentários: primeiro, existem cerca de 200 mil bolivianos trabalhando ilegalmente no Brasil, quanto a Bolívia vai nos pagar para não expatriá-los? Segundo: brasileiro que opta por trabalhar em outro país deve saber o risco que corre. Terceiro: embora seja um país pobre, o PIB da Bolívia, ano passado, cresceu quase o dobro do ridículo “PIBinho” brasileiro. Quarto: Evo Morales tem desapropriado refinarias da Petrobras sem indenização e aumentado o preço do gás natural ignorando todos os contratos. Quinto: 20 milhões é igual à verba anual do programa Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Semi-árido, que beneficia o Nordeste brasileiro; ou quatro vezes o que gasta por ano o programa Paz no Campo, que financia o treinamento de mediadores de conflitos no campo ou a criação de ouvidorias agrárias, no Brasil. A lista é enorme e fica ainda a pergunta: até onde Lula pode dispor de nosso dinheiro para comprar simpatia política no continente? Acho que até o limite da vergonha (o qual parece infinito) dos deputados que aprovam um ato desses.
Por fim, o mais importante, se a absurda MP for aprovada também no senado (ainda resta uma esperança!) e o dinheiro for efetivamente repassado ao programa de reforma agrária Boliviano, em benefício dos brasileiros que lá residem, quem vai fiscalizar a efetiva aplicação dessa verba? Será que o mesmo rigor das autoridades com a verbinha do esgoto de Bauru vai se aplicar ao Sr. Evo Morales? Espero, ou melhor, exijo que sim, mas quando falo uma coisa dessas sinto meu nariz ficar vermelho e redondo e vejo toda uma platéia de deputados e burocratas liderados por um barbudinho que detesta “azelite” apontarem e dizerem: “Olha lá o palhaço... que gozado”. Se você que leu este artigo até aqui não estiver rindo também, então vista seu nariz vermelho e junte-se a mim aqui no picadeiro do circo Brasil.
O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil - eric@mstecnologia.com.br