Politicando

Vocês não ajudam!


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Como todos sabem, o bate-papo em política é um minicomício presenciado por cerca de l5 pessoas, geralmente feito no interior das residências. Não era preciso ser gênio para se imaginar que o melhor horário para realizá-los era entre 19h, quando o pessoal já regressara do serviço, e 20h, quando começava a novela. E assim foi feito.

Municiado com 3 litros de groselha e cem canapés de patê várias vezes rebatizado, seguimos, eu e o Thiagão, o famoso Turco Preto, cabo eleitoral que o Martha me patrocinava, para a Vila Bela. A sala estava apinhada, mas como os olhares do pessoal convergiam mais para a travessa de canapés, não fiquei muito convicto de suas preferências políticas.

Enfim, o negócio até que estava se desenvolvendo bem, com o pessoal, embora com mais saliva na boca que de costume, acompanhando em silêncio minha arenga, e eis que o filho mais velho chega da rua completamente alcoolizado.

Dava para perceber que ele estava zoando, na medida em que cantava a Jardineira em outubro, longe, portanto, do carnaval. Foi um reboliço! Mas a solução encontrada, pelos ruídos que ouvi, foi colocá-lo num chuveiro de água fria, apesar de seus impropérios, e levá-lo para cama. Esta terapêutica caseira não deve ter dado resultado pois o rapaz estava agora atacando de Trem das Onze.

Os “psius” ditos a ele eram mais numerosos que os pronunciados no baião “A todo mundo eu dou psiu, procurando por meu bem”. Porém, a fera não se aquietava. Finalmente ele silenciou, parecendo ter se acalmado - Tomara que tenha pego naquele pesado sono dos alcoólatras e que não ronque!, pensei - e entramos na fase de perguntas livres do auditório. A dona da casa, meio entre lágrimas, abriu a série perguntando o que podia ser feito para se combater o alcoolismo. Foi aí que, talvez irritado pelas interferências do bêbedo, eu perdi totalmente a cabeça e respondi alto e em bom som:

- É simples, dona! Temos de acabar com a pinga! Foi nesse instante que, por gozação, acredito, pois segundo mostra a experiência, os bêbedos perdem a compostura, mas não totalmente a cabeça, o rapaz, a quem eu considerava anestesiado, interveio, lá do fundo:

- É o que mais tenho tentado, doutor! Mas vocês não ajudam, pô!

Rui Bertoti

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