Bairros

De olho em jovens,iniciativas acertam a violência

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Na madrugada de hoje, certamente centenas de mulheres ao redor da cidade passaram a noite em claro. O motivo para tamanha preocupação são os filhos adolescentes, que saíram de casa para se divertir com os amigos - a princípio, nada de espetacular. Exageros à parte, ultimamente os temores das mães têm sido justificados.

A cada dia que passa surgem na imprensa mais e mais notícias sobre atos violentos cometidos por jovens. Em Bauru, por exemplo, um dos casos mais notórios foi registrado na praça da Paz, na região Central da cidade.

No começo do ano passado, o espaço vinha sendo alvo freqüente de vândalos e usuários de drogas, tanto que a Polícia Militar (PM) resolveu intensificar sua presença no local. Só na noite de 15 de maio, os agentes revistaram cerca de 70 adolescentes suspeitos que estavam presentes à praça.

Fatos como esse ajudam a criar uma espécie de temor nas pessoas com relação à diversão dos jovens. Para especialistas da área de segurança, a preocupação tem fundamento. “Essa ociosidade desprovida de objetivos é extremamente prejudicial para os jovens”, acredita o major Wellington Venezian, subcomandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI).

Na visão dele, a maior oferta de opções de lazer gratuito e “saudável” aos jovens, sobretudo nos bairros periféricos, poderia ajudar a diminuir os índices de violência entre pessoas dessa faixa etária.

“Um fato que não podemos negar é que quanto mais os adolescentes tiverem acesso à formas orientadas de divertimento, como atividades esportivas ou oficinas de cultura, menores serão as chances de que eles se envolvam com atividades criminosas”, argumenta.

Apesar de se mostrar coerente, a tese do major ainda está longe de ser colocada em prática em Bauru. Um passeio pela cidade durante a madrugada mostra uma realidade oposta àquela idealizada por Venezian. Milhares de jovens se aglomeram pelas ruas e praças dos bairros da periferia sem ter o que fazer.

Na verdade, opções eles até têm: podem encher a cara nos inúmeros bares existentes na periferia, dirigir sem carteira de habilitação ou até mesmo passar a madrugada jogando conversa fora - ou seja, nada de muito animador ou produtivo.

Apesar de todo esse marasmo, algumas iniciativas já começam a surgir e vão transformando, ainda que de maneira bem lenta, a realidade dos bairros distantes. Em alguns casos, aliás, as mudanças se mostram bastante profundas. Programas como o Escola da Família, mantido pelo Governo Estadual em 19 escolas da cidade, apresentam resultados extremamente animadores no combate à violência entre os jovens.

De acordo com estimativas dos próprios organizadores, ocorreu uma redução de 40% nos índices de depredação nas escolas onde a iniciativa é mantida. Segundo os responsáveis, o programa não ajudou apenas a aumentar o zelo dos estudantes com relação ao patrimônio.

“O próprio convívio entre os adolescentes melhorou. O fato de usarem a escola como local de lazer fez com que surgisse uma grande amizade entre eles”, afirma Gina Sanchez, supervisora do programa em Bauru.

Atualmente, o escola da família figura praticamente como a única opção de lazer “saudável” disponível aos jovens da periferia. Outro divertimento “orientado”, cuja oferta tem crescido de modo considerável nos bairros de Bauru, são as lan houses. Segundo cálculos de empresários do setor, a cidade conta atualmente com mais de 50 estabelecimentos comerciais que oferecem jogos de computador em rede e acesso à Internet.

Ainda assim, a oferta de lazer voltada especificamente para os jovens ainda é precária no município. Hoje em dia, a Secretaria de Cultura mantém apenas dois programas dedicados exclusivamente aos moradores da periferia.

Mas a prefeitura dá mostras de que pretende ampliar a quantidade de iniciativas disponíveis nos bairros da cidade. Um projeto, ainda em fase de elaboração, já está recebendo inscrições de artistas interessados em desenvolver atividades de formação e difusão cultural nos locais distantes do Centro.

O objetivo da secretaria, para os próximos anos, é intensificar ainda mais sua atuação nessa área do município. Esta, pelo menos, é a vontade manifestada por José Augusto Ribeiro Vinagre, titular da pasta.

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Criminalidade juvenil é baixa em Bauru

Apesar de gerar grande preocupação na sociedade, a violência entre os jovens bauruenses é relativamente baixa. Nos finais de semana dos dois primeiros meses do ano passado, a Polícia Militar (PM) registrou apenas 19 atos infracionais praticados por adolescentes. Em janeiro e fevereiro deste ano, os números se mantiveram bastante parecidos: foram notificadas 17 ocorrências do gênero no período.

Os dados se referem a atos cometidos por indivíduos com idade entre 12 e 18 anos. O major Wellington Venezian, subcomandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI), considera os índices extremamente baixos.

“Se pensarmos que Bauru tem quase 360 mil habitantes, essa quantidade pode ser considerada razoável”, afirma. Apesar disso, ele afirma que a situação está longe de beirar a tranqüilidade. “Atualmente os jovens são grande motivo de preocupação para nós da PM”, diz ele.

Segundo Venezian, o principal temor das autoridades se deve ao fato de muitos adultos utilizarem adolescentes como cúmplices. “Muitas vezes, inclusive, o menor acaba assumindo a autoria para safar o criminoso”, lembra.

Para ele, um maior investimento na área de lazer ajudaria a evitar que a violência se disseminasse entre os jovens. “Divertimentos orientados na área esportiva e cultural colaboram para a formação individual dos adolescentes e ajudam a evitar o surgimento de conflitos sociais”, acredita.

Moradores dos bairros periféricos parecem concordar com o major. Há tempos, a funcionária pública Maria Aparecida de Sá associa os excessos cometidos pelos adolescentes de seu bairro, o Núcleo José Regino, à falta de ausência saudáveis de lazer na vizinhança.

“Aqui não tem um projeto que ofereça diversão para as pessoas. Por esse motivo é que, nos finais de semana, a gente vê tantos moleques bebendo e usando drogas pelas ruas”, afirma. (RF)

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