Bairros

Oferta de diversão é precária nos bairros pobres

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Sábado à noite. Enquanto em alguns bairros de Bauru centenas de garotas se arrumam para ir à balada, Daiane Dalila, 17 anos, prepara-se para passar mais um final de semana assistindo TV. Não que ela não tenha vontade de sair com as amigas. Acontece que a adolescente vive no Tangarás, um dos locais mais carentes de todo o município.

Assim como no restante da periferia de Bauru, o bairro da zona leste praticamente não oferece opções de diversão aos seus moradores - a não ser que se queira classificar como lazer os botequins e as barraquinhas que comercializam bebidas. Esse tipo de passatempo, porém, parece não agradar Daiane. “No Tangarás só tem mato, boteco...”, reclama ela.

“E igrejas, não se esqueça”, brinca uma vizinha, que preferiu não se identificar. Daiane aparenta ser uma garota desanimada com a vida que leva. Se a rotina na vizinhança anda tão monótona, o correto seria que ela tentasse procurar opções em outros bairros, retrucarão alguns.

A jovem bem que tem vontade, o problema são as distâncias. “Para chegar até a avenida Getúlio Vargas preciso pegar dois ônibus, na ida, e outros dois, na volta. Acaba ficando caro demais”, explica.

Daiane consegue contar nos dedos as vezes que saiu de casa para se divertir. No ano passado, por exemplo, ela foi à Praça da Paz e a algumas pizzarias. “Vou a esses lugares de vez em nunca”, graceja.

Apesar de ter apenas 13 anos de idade, Francieli Machado da Silva também já sofre com as distâncias. O lugar onde ela mora, o Jardim das Orquídeas, na zona leste de Bauru, é outro que quase não oferece opções de lazer para os jovens.

Se bem que seria até exagero querer se divertir em um local onde as ruas não possuem sequer pavimentação adequada. O bairro onde Francieli vive é entrecortado por vias de terra, cercadas de mato por todos os lados. Em uma noite de chuva, a garota correria sérios riscos de danificar seu vestido de festa no lamaçal que toma conta da vizinhança.

O Jardim das Orquídeas não conta com espaços de convivência, como praças ou centros comunitários. Falar em teatros ou cinemas, então, seria o mesmo que ofender os moradores do lugar. “Aqui não tem nada para os jovens. Olha que tristeza essa rua”, resume a dona de casa Iraci Ribeiro da Silva, mãe da adolescente.

Os espaços de lazer mais próximos disponíveis ficam na Vila Tecnológica: um centro comunitário caindo aos pedaços, uma biblioteca ramal esquecida por tudo e por todos, além de uma praça que está desaparecendo lentamente em meio ao capim braquiária. De vez em quando, Francieli pede permissão à mãe para poder ir até o local com as amigas.

“A gente fica lá conversando ou tomando sorvete”, diz a adolescente, que é extremamente tímida. “Não gosto muito que ela fique naquele lugar, principalmente durante a noite”, afirma a mãe. Tanto, que ela nunca deixa a filha ir à praça depois que escurece.

“Tenho que ficar em cima, a gente nunca sabe o que pode acontecer num local daqueles”, diz a dona da casa. Silva aparenta ser uma mãe zelosa. Ela tem cinco filhos, três deles adolescentes (incluindo Francieli). “O mais velho (de 17 anos) é o que mais sai de casa. Antigamente eu até tentava segurar, só que agora ele está grande e ficou mais difícil”, diz.

Apesar disso, a dona de casa garante não ter muitos problemas com os dois filhos mais velhos. “Na maioria das vezes, eles acabam preferindo ficar em casa”, afirma. Mas essa tranqüilidade pode estar ameaçada. É que o filho Bruno, 12 anos, parece já estar sofrendo os primeiros efeitos dos hormônios da adolescência.

“Ele é pior do que o mais velho. Vive querendo sair de casa, até mesmo à noite”, reclama a mãe. Dias atrás, o garoto resolveu ir até a rua Rafael Pereira Martini (a mais movimentada da zona leste da Bauru) com os amigos. “Imagine só o perigo que ele correu! Eram mais de 21h, e ele lá batendo perna. Tive que ir buscá-lo”, afirma a mãe. No local onde Bruno estava funciona umas das poucas sorveterias das redondezas.

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Primeira vez

Embora o número de lan houses instaladas na periferia de Bauru tenha crescido nos últimos anos, muitos moradores desses locais ainda desconhecem por completo o mundo da informática. Na última segunda-feira, Damaris Cristina Camargo, 32 anos, resolveu acompanhar a filha Kerilen, 14 anos, até um estabelecimento do gênero, localizado no Núcleo Mary Dota, zona norte de Bauru.

“Ela tinha que fazer cadastro para uma vaga de estágio, então resolvi vir junto, para ver como isso funciona”, disse. Ao lado do filho Israel, 2 anos, ela estava visivelmente constrangida.

Enquanto Kerilen acessava sites de diferentes lugares do mundo, Damaris permanecia sentada, com a cabeça baixa. De vez em quando ela arriscava levantar os olhos para conferir o que a filha estava fazendo. Não que isso adiantasse muito.

“Não consigo entender o que se passa ali dentro”, diz, referindo-se ao computador. Apesar de não conhecer nada de Internet, ela acredita que o contato com a web será positivo para o desenvolvimento intelectual da filha.

“Sei lá, o computador parece oferecer mais oportunidades para as pessoas”, pensa. Por outro lado, Damaris admite que dificilmente será capaz de utilizar um computador algum dia.

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