JC Criança

Pequeno bamba

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

“O samba é a solução, é minha vida, minha fonte de luz e riqueza, o samba é beleza e nobreza, é também minha religião. Enquanto eu cantar o samba eu serei feliz, o samba é bondade, é verdade, é a minha raiz.” O trecho da música “Verdade do Samba” (Rob Digital), escrito pelo cantor e compositor carioca Gabriel Gitahy da Cunha, mais conhecido como Gabrielzinho do Irajá, traduz exatamente o que o samba representa em sua vida.

O garoto, que participou da novela “América” no papel de um deficiente visual, tem 11 anos, sendo a maior parte deles dedicada à paixão pelo samba. Aos 2 anos ele se apaixonou pelo ritmo quando ouviu, pela TV, uma canção de Nana Caymmi. Aos 5 anos, conheceu a sambista Dorina e seu interesse cresceu ainda mais.

Além de freqüentar shows e rodas de samba, Gabrielzinho passou a compor, versar e interpretar músicas do ritmo. Hoje, ele comemora o lançamento do seu primeiro CD, “Ninar meu Samba” e, em entrevista por telefone ao Jornal da Cidade, fala mais sobre seu trabalho e sua rotina diária. Confira os principais trechos da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade – Quando surgiu seu interesse pela música?

Gabrielzinho do Irajá – Eu tinha 2 anos e meio e ouvi a Nana Caymmi cantando em uma novela. Me apaixonei pela voz dela e queria, de qualquer jeito, conhecê-la. Minha mãe descobriu que a Nana iria fazer um show no Canecão e, junto com minha avó, me levou até lá. Aí eu falei com a Nana, virei seu fã e fui comprando todos os seus CDs. Foi assim que conheci a música do seu pai, o Dorival.

JC – Aí você se apaixonou pelo samba?

Gabrielzinho do Irajá – A grande paixão veio através da cantora Dorina. Minha avó é amiga dela e uma vez me levou para conhecê-la. No dia seguinte, a Dorina entregou um CD, o segundo de sua carreira, para minha mãe e pediu para que eu o escutasse com muito carinho. Aí eu ouvi o disco e descobri que ela tinha um programa de rádio. A partir daí, eu ouvia as músicas e ligava sempre para ela, pedindo para ela ela tocasse samba. Aí fui conhecendo Partido Alto (tipo de samba), Luiz Carlos da Vila, Velha Guarda da Portela, enfim, conheci o samba através da Dorina.

JC - De onde surgiu a inspiração para compor “Verdade do Samba” (música que assina no CD)?

Gabrielzinho do Irajá - Ganhei inspiração para fazer essa música quando eu estava voltando da casa do Dorival Caimmy. No caminho, disse para minha mãe que queria fazer uma música. Aí o Júnior Thybau veio em casa e nós a escrevemos. A inspiração vem sempre na hora.

JC – O que você quis passar para as pessoas quando fez essa canção?

Gabrielzinho do Irajá – Ela fala o que o samba é para mim. O samba é a minha raiz.

JC – Você compôs outras músicas?

Gabrielzinho do Irajá – Sim, mas elas não estão no CD. Fiz um samba para “Os Filhos da Águia”, escola mirim da Portela, no Rio de Janeiro, e outro para o bloco “Embaixadores da Folia”. Fiz também um samba para minha irmãzinha, de 1 aninho.

JC – Seu disco tem a participação de Nana Caymmi, Zeca Pagodinho, Dorina, entre outros grandes nomes do samba. Como você se sente tocando com seus ídolos?

Gabrielzinho do Irajá – Me sinto muito honrado por ter gravado esse CD com eles. É o meu primeiro trabalho, o primeiro de muitos, pois tenho fé em Deus.

JC – E agora, você está fazendo shows para divulgar o CD?

Gabrielzinho do Irajá – Amanhã (segunda-feira) vou fazer um show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro.

JC – Vem para São Paulo?

Gabrielzinho do Irajá – Não tenho previsão certa, mas espero que sim!

JC – Como foi participar da novela “América”? Na época, você foi muito assediado nas ruas. E hoje, ainda atrai muitos fãs?

Gabrielzinho do Irajá – Foi muito legal. Com os fãs ainda é assim. Um dia uma moça estava dentro de casa com as crianças na piscina e, quando eles me viram passar na janela, saíram de lá todos molhados, me abraçaram e pediram autógrafos. Eu tenho muito prazer e carinho em falar com todo mundo.

JC - Como é seu dia-a-dia?

Gabrielzinho do Irajá - Acordo cedo para ir à escola, às 6h30, com muita preguiça. Sou chato de manhã (risos). Comentei com minha avó que amanhã, depois do show, não iria para a escola, mas ela disse que eu preciso ir.

JC – A sua carreira musical chega a interferir nos seus estudos?

Gabrielzinho do Irajá – Não, meu trabalho não atrapalha em nada.

JC - Quem escolheu no nome do seu CD, “Ninar meu samba”?

Gabrielzinho do Irajá – Fui eu mesmo. No disco tem uma música chamada “Ninar meu Sonho”, mas, para as pessoas não acharem que eu só canto musiquinhas de criança, resolvi colocar “Ninar meu Samba”.

JC – Do que você mais gosta na vida de artista?

Gabrielzinho do Irajá – De cantar e versar. Também gosto de atuar. Foi a peça “Mágico de Oz”, inclusive, que me levou para a novela “América”. Todos os componentes da peça eram cegos e, em uma das apresentações, a diretora Glória Perez estava lá para escolher duas crianças para atuar na novela. Aí ela escolheu a Dudinha e eu.

JC – A deficiência visual chegou a atrapalhar seu trabalho?

Gabrielzinho do Irajá – Às vezes eu até esqueço que sou deficiente, nem tenho tempo para pensar nisso. Canto, brinco em casa, no computador, ouço televisão, novela, vou para a escola. Para mim, não só o cego, como todo deficiente, é igual a qualquer pessoa. Ele não pode ficar só trancado dentro de uma casa, não é mesmo?

JC – É verdade. Afinal de contas, a deficiência é um problema como outro qualquer.

Gabrielzinho do Irajá – Sim. É um probleminha que não muda em nada. Todas as pessoas têm o direito de viver.

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Trechos de músicas

“...que toda criança sinta o sabor da bonança/ não perca a esperança/ pois essa lambança não tarda a acabar/ tem adolescente perdendo a infância/ pra ir trabalhar e outros na rua com fome e com sede à procura de um lar/ que São Cosme Damião proteja/ na paz de Deus...”

“Axé da beijada”

“Eh madrugada/ se mostra calma e serena, lua no céu prateada/ ninar meu sonho em cada verso uma linda estrada/ tão longa, tão perfumada...”

“Ninar meu sonho”

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CD reúne artistas consagrados

A linguagem é simples, o tom, afinado e o ritmo, cheio de energia. Contagiando todos os ouvidos, é desta forma que Gabrielzinho do Irajá canta o samba em seu primeiro CD, “Ninar meu samba”. Lançado recentemente, o álbum traz 15 canções e participações de artistas muito especiais. Entre eles, Dudu Nobre, Luiz Carlos da Vila, Velha Guarda da Portela, Arlindo Cruz, Dorina, Nana Caymmi e Zeca Pagodinho.

Em clima descontraído, o pequeno Gabrielzinho mostra que sua voz é de criança, mas a ginga não fica atrás dos grandes bambas. Nas faixas “Rosa Morena” e “Rara beleza”, por exemplo, ele encanta o público com seu jeito alegre de falar sobre o amor. O mesmo vale para o agitado pout-pourri “Mil volts de amor/se o pagode é partido”. Problemas sociais também são tema do CD. Em “Axé da beijada”, por exemplo, o garoto fala sobre crianças carentes: “...não é só dos doces que eles precisam pra se alimentar, tem muita criança carente de abrigo, de escola e livro afim de estudar...”. Já em “Pátria amada”, faz um apelo contra a violência, as balas perdidas, pobreza e falta de fé.

Outro grande destaque do CD fica por conta das belas homenagens feitas por Gabrielzinho. Além de festejar a Vila Isabel e o bairro de Irajá, ele declara, em ritmo de samba, seu afeto pela escola em “Cadê a água” e faz um emocionante agradecimento à sua mãe e a todas as mães do mundo em “Meu primeiro amor”: “...sugando a vida em teus seios, eu consegui sobreviver... sempre me deu muito carinho, me aqueceu com teu calor, eu nunca me senti sozinho, foi pra você o meu primeiro amor...”.

Não é preciso ser um expert em samba para sacar que o garoto tem futuro. Ouvir seu CD é como acompanhar uma verdadeira roda de samba, com toda a diversidade que marca o estilo musical. Como disse o bamba Luiz Carlos da Vila, “Gabrielzinho do Irajá enxerga longe”. Muito longe!

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