Cultura

Sobre mundos: Expressar o inexpressável

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, conversavam descontraidamente um pianista e um monge. O pianista contava ao amigo um pouco sobre sua dedicação à arte: “Se deixo de treinar um dia, eu percebo depois ao tocar o piano. Se deixo de treinar dois dias, meus amigos percebem depois. Se deixo de treinar três dias, meu público acaba percebendo”. “O mesmo acontece comigo”, disse o monge balançando a cabeça, “se deixo de rezar um dia, Deus percebe imediatamente. Se deixo de rezar dois dias, eu percebo depois. Se deixo de rezar três dias, meus amigos percebem. Se deixo de rezar quatro dias, não percebo mais Deus”.

A palavra analogia vem do grego “aná-logon” que quer dizer simplesmente “em relação a”. A analogia é parecida com a metáfora, pois procura estabelecer ou ressaltar um ponto de semelhança entre coisas diferentes. Justamente por não corresponder exatamente ao que queremos comparar, a analogia pode criar um equivoco, ou seja, significados que levem a uma distorção. Usando analogias posso levar a uma redução injusta do que pretendo apresentar ou posso também criar expectativas ilusórias.

Por ser uma semelhança, a analogia também pode se tornar um unívoco, ou seja, ela pode trazer consigo significados que permaneçam como uma união obrigatória e, portanto, criem um estigma sobre uma determinada coisa ou pessoa. Por fim, a analogia pode simplesmente levar a um sinônimo, algo que possui o mesmo significado, o que não cria conseqüências tão marcantes. De qualquer forma, a analogia é sempre utilizada para um melhor reconhecimento de alguma coisa. Uma situação “A” é descrita por um objeto “B”, porque os dois possuem uma relação com “C” e a relação desta coisa “C” com B é conhecida.

Por exemplo, “João corre como um cavalo” ou “a idéia me veio como um raio”. Como todos sabem que um cavalo pode cavalgar em grande velocidade e um raio pode cair inesperadamente, assim fica claro a potencialidade de João e de que forma me surgiu determinada idéia.

Utilizamos analogias diariamente e em todas as áreas do conhecimento. Porém, o seu uso é talvez demasiadamente freqüente nas religiões. A palavra em si não aparece, por exemplo, no Novo Testamento, mas podemos dizer que nele a analogia é uma das formas mais utilizadas. O discurso de que Deus é pai, não está, sem dúvida alguma, querendo transmitir a idéia de que temos uma filiação biológica com Deus ou de que Deus possui uma paternidade biológica conosco.

Mas a analogia “Deus é pai” deseja nos transmitir a noção de uma relação entre Deus e o homem que pode ser compreendida pelo ser humano como uma relação entre pai e filho. De fato, a analogia atinge seu objetivo se tivermos boas lembranças da relação que possuímos com nosso pai biológico. Caso a relação pai e filho não nos traga boas recordações, teremos alguma dificuldade em compreender a comparação. Como também não podemos reduzir Deus à figura de um pai. Muitas vezes, seria mais interessante se utilizássemos a analogia da mãe. “Deus é mãe”, como afirmou o papa João Paulo I.

De qualquer forma, em relação a Deus, todo discurso se torna uma analogia, ou seja, Deus está sempre entre a semelhança e a diferença. Como dizia Santo Ignácio de Loyola: “Deus sempre é maior”. Querer reduzir Deus às imagens que possuímos ou até mesmo às palavras que temos em nosso vocabulário é não respeitar sua divindade, ou seja, cair em idolatria, sem percebermos. Da mesma forma, Jesus utiliza a semente de mostarda ou do fermento para falar do Reino de Deus. Um reino que possui seu início quase que minúsculo como uma semente de mostarda, mas que, se desenvolvido, transforma-se em uma árvore onde as aves do céu se abrigam. Um reino que é como o fermento que se mistura com a farinha e despercebidamente faz com que a massa se desenvolva.

O lado positivo da analogia é que ela nos faz pensar e nos leva ao questionamento, a partir do momento que estamos abertos a nos perguntar onde deve se desenvolver esta semente de mostarda ou agir este fermento. Com certeza não é na vida pós-morte e muito menos este reino de Deus não fica reduzido ao interior da pessoa humana. Se refletirmos logicamente, a analogia citada atinge concretamente o bem comum de toda a humanidade. A imagem de toda a humanidade vivendo em bem-estar e em harmonia com a natureza seria a realização do Reino de Deus e, também, a analogia do próprio Deus.

Portanto, buscar o Reino de Deus significa caminhar em direção à perfeição do que é terreno. Isso significa que o nosso agir neste mundo deve ser um passo para uma sociedade justa e fraterna, uma sociedade que seja uma árvore que gere vida para todos. Para isso, é necessário sermos fermento na massa e não simplesmente massa a ser manipulada. Como já disse Millor Fernandes: “para defendermos os direitos civis temos que ser civis direitos”. Não é por menos que já no início da Bíblia está escrito que os seres humanos foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Seria muito bom se esta analogia não gerasse distorções.

Comentários

Comentários