Cultura

Auto-ajuda feminina usa filosofia para consumo

Folhapress
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Já faz algum tempo que algumas propagandas de televisão vêm se apropriando de idéias que filósofos, poetas e pensadores levaram séculos, inúmeras guerras e conflitos para criar e transmitir. Estas idéias são simplesmente transformadas em fórmulas prontas, achatadas e “felizes”: “A vida é mais emocionante quando se é piloto e não passageiro”; “Não deixe que a pilha de documentos tape a vista da janela”; “Viva as diferenças”; “A vida é feita de mulheres reais, com curvas reais” e várias outras semelhantes.

Da mesma maneira, alguns livros de auto-ajuda, já banalizados pela mídia e pela indústria cultural, mascaram-se de gravidade e densidade e douram pílulas fáceis com citações, aprendizados, viagens à Índia e visitas a xamãs.

Os livros “Comer, Rezar, Amar” e “Sexo no Cativeiro” seguem essa receita. Não há como discordar de Elizabeth Gilbert, a autora do primeiro, quando ela diz, por exemplo, que “a culpa é só a maneira que seu ego encontrou para fazer você pensar que está fazendo algum progresso moral”. Também é admirável seu esforço por encontrar a si própria em suas viagens para a Itália, a Índia e a Indonésia e as dificuldades pelas quais ela passa para aprender a meditar e a desapegar-se de si.

Já Esther Perel, terapeuta de casais, no livro “Sexo no Cativeiro”, cita Octavio Paz, D.H. Lawrence, Simone de Beauvoir e muitos outros, para nos ensinar que o anseio pela segurança no casamento é paradoxal à sobrevivência do desejo erótico, que o aconchego permanente é uma segurança frouxa, que “amor tem a ver com ter; desejo com querer” e que “o frenesi social mascara uma sede profunda de contato humano”.

O problema, entretanto, é idêntico ao dos livros declarados de auto-ajuda, que também nos contam verdades muitas vezes precisas sobre nosso comportamento e personalidade. Em literatura não se parte de verdades; chega-se a elas, invariavelmente sem mencioná-las. E é o processo narrativo tortuoso, desafiador e desviante que constrói os espaços para as perguntas, quase nunca para as respostas que, quando existem, são sempre e necessariamente hesitantes.

Respostas prontas são mercadorias em prateleiras. Usa-se, descarta-se e compra-se uma nova, assim que o mercado exige.

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