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O mistério das ararinhas-azuis


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O velho Salomão Gantus fechou sua banca de revista na Rua 1º de Agosto antes das 4 da tarde, para espanto dos fregueses. Soube que havia aterrissado um avião “de duas asas” no chapadão ao lado do Cemitério da Saudade. Maravilhou-se com a máquina que só havia visto igual no cinema do Simonetti. Apaixonou-se pelos pilotos vestidos com jaquetas de couro, gorro e óculos de proteção. Era uma das primeiras experiências do Correio Aéreo Nacional, na ligação Rio-São Paulo-Campo Grande. O pouso teve causa na falha em um dos pistões provocada pela vela suja. O sol começou a se pôr e a prudência aconselhava a espera do novo dia. O velho Salomão não teve dúvidas: convidou os seus novos heróis para ir a sua casa. Apesar de modesta lá não faltava a coalhada com pão sírio, além do quibe cru, do tabule e do babaganuche. Nasceu uma bela amizade entre o revisteiro e os tenentes Eduardo Gomes e Lavanère Wanderley. Por causa do Salomão o CNA elegeu Bauru como ponto de apoio. A logística era do velho bauruense que esperava os pilotos com água fresca, quibe frito e jornais do dia. Diante da necessidade de um local mais seguro, doaram a Prefeitura algumas áreas de terra nos Altos para que a cidade tivesse um “campo de aviação” a altura do seu progresso. Tínhamos, nesta altura, um diretor da Noroeste, major Marinho Lutz, apaixonado pela aeronáutica. O avião era perfeito para a fiscalização de mais de mil quilômetros de vias férreas Mato Grosso adentro. Decidiu aceitar o projeto de um carioca sonhador, tocador de violão, que o Ministério da Fazenda enviara a Bauru para ajudar a administrar o orçamento da NOB. Nasceu o Aeroclube e foram construídos os hangares. Em breve a Panair do Brasil escalava em Bauru com seus DC-6 na rota do Centro-Oeste. Os passageiros desciam e, ali mesmo no Aeroporto, era servido o almoço pelo bufê da Lalai. Um dia o ministro brigadeiro Eduardo Gomes mandou um avião buscar o velho Gantus para condecorá-lo com a Medalha do Mérito Aeronáutico, em solenidade no Campo dos Afonsos.

Isso é história! Saudosismo é ir ver a Ângela Maria cantar “Babalu”. Nada contra. A tradição contada compõe a herança cultural, legado de crenças, usos, costumes, técnicas e feitos transmitidos de geração em geração. Comer sanduíche bauru, ou feijão com arroz em vez do sebento hambúrguer do MacDonald´s não é “saudosismo”, no sentido pejorativo de valorização demasiada do passado. O complexo de atividades que caracterizam um grupo social, no sentido antropológico, é cultura. A forma evolutiva das tradições e valores constroem uma civilização.

Meu trovador emérito Antonio V. Ruffato, certo dia preocupado porque a história de Bauru estava em vias de ficar privada do seu maior divulgador, “o nosso querido Bauru Ilustrado”, saiu-se com esta obra-prima: “Hoje eu revivo o passado, /da terra por que me ufano.../Graças ao Bauru Ilustrado,/obra de arte do Luciano”. Confesso que, com todo respeito, prefiro o poeta ao urbanista. Meu amigo da ABL equipara-se a Baudelaire que cantou “A perda do halo”, ou seja, a dessacralização das coisas que nos são caras em nome do dinheiro e do progresso. O Manifesto Comunista de Marx tem um impulso dialético que subjaz a esse pensamento: “A burguesia não pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção (...) Todas as nossas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado (...)”

As pessoas não agem contra as tradições por maldade. A lógica capitalista é movida por uma “razão instrumental” afirmou o sociólogo britânico Steve Fuler (O Intelectual, ed. Relume-Dumará, 2005). O problema começa de fato quando os “fins” passam a ser identificados estreitamente com os “meios”. Essa é a base crítica de Adorno, filósofo da Escola de Frankfurt, ao “caráter autoritário da razão”. O capital se transcende e volta-se contra ele mesmo no sacrifício dos valores, trocados pela ilusão econômica. O filósofo pós-modernista Jean Baudrillart, que morreu na semana passada, trabalhou o conceito do simulacro: diz que o mundo que se conhece atualmente é uma simulação construída sobre a representação de representações. Numa interpretação bem pop, o filósofo diria, em relação ao nosso caso, que a burguesia bauruense projeta e executa de acordo com seu imaginário ou intenções e depois, a própria burguesia substitui o que foi feito por aquilo que acha que deve fazer. E o povo que se dane. É por isso que o mundo está terminando em barranco. O que interessa é a disneyficação. O bairro-jardim que nunca deu certo e outras formas de simulacro do paraíso.

Não me preocupa o Aeroclube que, apesar do nome é uma escola antes de reunir privilegiados alados. Arrepia é que, daqui a pouco alguém vai duvidar com uma lógica instrumental difícil de ser desfeita neste mundo objetivo: “Para que serve um mico-leão-dourado?” “Qual o mistério de tanto espaço para meia-dúzia de ararinhas-azuis?”. O Zoológico daria um belo empreendimento imobiliário.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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