Articulistas

Israel me decepcionou


| Tempo de leitura: 3 min

Foram as primeiras palavras que eu ouvi de meu velho amigo de infância, que visitava Israel pela primeira vez em sua vida. Já estou acostumado a escutar, com certa regularidade, todo o tipo de críticas sobre Israel da boca de uns e outros que nos visitam, mas desta vez a observação do meu amigo me surpreendeu. Isto porque o conheci quando era um jovem e ferrenho sionista sonhando em fazer aliá. Acabou fazendo dinheiro. Ele percebeu meu espanto e foi se explicando: “Durante toda a minha vida sonhei e acreditei que Israel era um belíssimo país, liderado por pessoas como Ben-Gurion, onde prevalecia a justiça social e havia a mais extraordinária experiência chamada kibutz. Um país sem corrupção, que deveria servir de exemplo para o mundo. E o que foi o que eu encontrei?” Daí para frente ele começou a me contar sobre suas decepções. Para começar, ele foi passar um fim de semana em um kibutz, onde participou de uma convenção econômica. Foi então que ele descobriu, para sua grande decepção, que o kibutz acabava de ser privatizado. Conversando com os veteranos residentes, deu-se conta da nova realidade de Israel, onde o romântico pioneirismo, que construiu os alicerces do país, deixou de existir e se adaptou às novas circunstâncias econômicas.

Meu amigo estava furioso e me mostrava os jornais que acabava de ler em inglês e espanhol. Não conseguia entender como é que publicavam tantas coisas ruins sobre Israel, sem falar das acusações terríveis contra o Presidente e outros políticos, que estavam sendo alvo de investigações de todos os tipos. Para ele, isso era muito ruim para a imagem de Israel no exterior e, na sua opinião, “essas coisas” deveriam ser resolvidas discretamente. Curiosamente, também em Israel se fazem ouvir vozes acusando os meios de comunicação de criarem um clima negativo com as notícias que publicam. Não estamos aqui para defender a imprensa israelense, que não necessita da defesa de ninguém. Ela cumpre o seu papel com toda a seriedade, como um baluarte da democracia israelense. Ninguém está feliz com a descoberta de que em Israel existe corrupção, políticos envolvidos em escândalos e um Presidente temporariamente afastado por suspeitas de ilegítimo comportamento de natureza sexual. Além da imprensa, também a Justiça é atacada. O alvo principal é a Suprema Corte de Israel. A Justiça em Israel é incorruptível. Não há vacas sagradas quando se trata de cumprir a Lei. Como a Imprensa e a Justiça são implacáveis, dá a falsa impressão de que Israel está tremendo nas bases. Alguns analistas assustados chegam a dizer que está havendo em Israel uma verdadeira “Caça às Bruxas”. Um deles chegou ao exagero de dizer que em Israel está funcionando uma guilhotina política, e que é preciso moderar e aceitar as imperfeições inerentes ao sistema democrático. São pontos de vista. Na realidade, o que está acontecendo em Israel é um processo saudável em um país que está em permanente estado de ebulição e evolução. Nada é escondido e, gostem ou não gostem, a roupa suja é lavada em público. Não há imunidade para os transgressores, sejam eles quem forem. Ao meu querido amigo, diria que ele deveria sim estar decepcionado, se ao contrário fosse.

O autor, Marcos Wasserman, é advogado em Tel Aviv, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il

Comentários

Comentários