Olá, tio! Bateu saudades! Do senhor; da família; dos ônibus amarelinhos. Há muito estou pra ir aí abraçá-lo, mas quando se vê... o tempo voou! Sobre a saudade, algum poeta assim expressou-se: “Saudade, asa de dor do pensamento.” Bauru perdeu recentemente dois expressivos nomes, pessoas queridas dessa comunidade. Flávio de Angelis, com quem nunca tive proximidade, mas o admirava por saber de sua postura humanística e senso de justiça. Vivenciamos a mesma geração. E Aucione Torres, renomado professor, dotado da sensibilidade com que são abençoados os grandes artistas. Com simplicidade, perseguiu seu ideal de amor às artes, tornando-se Doutor, com justo reconhecimento e mérito. De sua irmã Norma sempre fui muito amiga e a guardo no coração, no rol de amizades para sempre.
Então, tio Alexandre, diante dessas perdas, que considero precoces, diante de outras perdas e do fluxo dos dias e anos que decepcionam as pessoas com o mundo, decido enviar-lhe esta singela manifestação de afeto, pois a ternura... sempre existirá. Tio, sabemos que o senhor auxiliou muita gente! Não só como filantropo – as vezes assistencialista, mas há casos em que a fome não espera a disponibilidade do peixe no anzol.
Construiu seu patrimônio com muito Trabalho Honesto, zelando sempre pela boa qualidade dos serviços prestados pela sua extinta e saudosa ECCB. Gerou muitos empregos, contribuindo sem dúvidas para o crescimento e progresso de sua amada Bauru. Os mais antigos moradores conhecem e respeitam sua história. Homem simples, porém inteligente, o senhor criou soluções de combustível na 2ª Guerra. Um jovem idealista e pobre – somos de origem humilde –, mas que soube desde muito cedo ter Amor ao Trabalho.
É certo que alguns funcionários a quem o senhor deu a mão e a confiança, revestidos pela ganância, o traíram. Outros ainda, assessores totalmente descompromissados com a ética, pela incompetência ou vaidade, mais se confundiram que ajudaram. Mas se estes que pegaram carona no financeiro ou jurídico da empresa o esqueceram, nós, seus consangüíneos, e a população usuária de transporte coletivo, não o esquecemos. Quase sempre utilizo ônibus urbano. Discretamente tenho ouvido queixas, como: faz uma hora que aguardo tal ônibus! – O coletivo quebrou, esperamos mais de quarenta minutos! – No tempo do Quaggio, o socorro vinha rápido! - dentre outras. Há pouco mais de um ano, conheci distinta professora da tradicional e empreendedora família Guedes de Azevedo. Disse-me ela: Lecionei por mais de trinta anos, e tomava ônibus diariamente. Jamais cheguei atrasada!
É certo, Tio, que Bauru cresceu muito, embora desordenadamente. Há tempos escrevi que a livre concorrência se fazia necessária objetivando melhorias à cidade; à população. Mas parece que isto não aconteceu de forma digna, decente. Quebrou-se o monopólio (e a ECCB) e, dizem, o substituíram por outro. Presumidamente, isto foi muito lucrativo para os envolvidos. Esperava-se então excelente qualidade nos serviços das concessionárias. Claro! Novidade no começo, foi uma festa!. O que se percebe agora, tio Alexandre, passado largo tempo da falência da ECCB, é o total desrespeito aos usuários e ao funcionários. Constantes atrasos acontecem, pois motoristas exercem dupla, perigosa e estressante função: dirigem e cobram passagens. O que estabelece a convenção coletiva?. Os “abrigos”, tio, onde existem, continuam muito precários!.
Considero legítimo o reajuste no valor das passagens, embora pese no bolso dos que tomam até 4 conduções diárias. Mas a comparação da Transurb entre Bauru e outras cidades não procede. Morei em diversas, mas citarei Piracicaba (pouco maior que Bauru). Lá existe um sistema confortável e seguro de transporte; precisão de horários; motorista tem como única função dirigir e zelar pela segurança dos passageiros. É obrigatório o uso de cartões magnéticos ou bilhetes de passagem. Também há diversos terminais rodoviários (integração), onde as pessoas aguardam protegidas das intempéries e violência. Aí, tio, reflito sobre o que disse o professor Zarcíllo Barbosa, cujas crônicas sempre leio com carinho: O que deve ser importante em Bauru para os bauruenses? (JC-11/02/07)
Em nosso último contato, tio Alexandre, o senhor, humilde e resignadamente, comentou: Perdi tudo! Se eu pudesse voltar no tempo, faria muitas coisas de forma diferente (na vida pessoal e profissional). Algum motivo existe pra que eu passe por isto. Pois bem, tio, o senhor não perdeu a Fé, a Dignidade, e nem o Bom Humor, que está nos genes de nossa família. Nesta ocasião, quero reverenciar a todos que lucidamente atravessaram o século XX, adentrando o séc. XXI. São pessoas que se encantaram com a revolução tecnológica, decepcionando-se com a involução do ser humano.
Um abraço, então, à sra. Carlota Santinho Brêga, minha doce vizinha, de respeitada família bauruense. Abraço a dona Millie Raab, de Araçatuba, pianista e avó querida da Maria Teresa F. Piccino e Carlinhos Forastieri. Reverências ao sr. Shinishi Ogawa, ativo produtor rural. Dona Dinda!!! do Nordeste (15 filhos), que aprende a lidar com o computador para ter atividade quando as pernas não mais andarem (sic). E já que a homenagem é para os quase centenários que aqui estão, ou se despediram há pouco tempo, com a benção da lucidez, registro a saudade deixada pela terna tia Maria Dondice Forastieri; e a generosa Rosalinda Quaggio Bonachela (sua prima, tio).
Ao senhor, tio Alexandre, e aos que aqui permanecem, deixo o meu carinho e o pensamento de Norberto Bobbio (filósofo e jurista italiano, falecido aos 94 anos): Nada de parar! Devemos continuar a escavar em nosso intimo... cada vulto, gesto, palavra ou canção que parecia perdida para sempre, uma vez reencontrada nos ajuda a viver. (N. Bobbio ” tempo da memória”).
Carmen Lígia Forastieri Quaggio