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Entrevista da semana: Simonetti: ‘Seremos anjos um dia’

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 12 min

Nascido no espiritismo, o bauruense Richard Simonetti é um dos expoentes da doutrina na atualidade não só pelo trabalho à frente do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), mas também pela extensa obra literária que explica a filosofia e ilumina questões do cotidiano com os seus ensinamentos.

Bancário aposentado desde 1986, Simonetti dedica os seus dias ao espiritismo, doutrina que, segundo ele, pode acelerar o processo de evolução dos seres humanos rumo à perfeição a qual eles foram destinados por Deus.

Na entrevista a seguir, o escritor fala de sua obra, do Ceac, da falta de religiosidade na atualidade e como o espiritismo tem chamadoa atenção das pessoas e se tornado um tema recorrente na televisão.

Jornal da Cidade - O senhor sempre foi espírita?

Richard Simonetti - Tive a felicidade de nascer num berço espírita. A minha mãe e o meu pai eram espíritas, eram médiuns, trabalhavam no centro. Tive um problema na infância por ser espírita porque não era batizado. No espiritismo não existe batismo. As professoras ficavam estarrecidas dizendo que eu era pagão e não iria para o céu. Elas até conversaram com os meus pais, mas eu não fui batizado. O espiritismo não tem práticas ritualísticas.

JC - O senhor não é médium como seus pais?

Simonetti - Não. Não sou um psicógrafo. Eu sou apenas um escritor de idéias e pensamentos que desenvolvo. A mediunidade é um dom. Na verdade, todo ser humano é médium, nós temos sensibilidade e influência do mundo espiritual. Muitas idéias e pensamentos que surgem nas nossas cabeças, tanto para o bem quanto para o mal, que a gente não sabe de onde surgem, geralmente refletem a presença de espíritos. O mundo espiritual, não está longe da Terra em região inacessível. Onde nós estamos é o mundo espiritual mas nós não o percebemos porque usamos essa espécie de armadura que é o corpo humano. Quando a gente encarna fica submetido a essas “janelinhas” para o mundo exterior que são os cinco sentidos. Existem indivíduos dotados de uma sensibilidade maior, dotados de uma adequação física de modo que o corpo não lhes impõe entraves para o contato com o mundo espiritual. É o chamado médium.

JC - O espiritismo é uma religião, uma filosofia ou uma ciência?

Simonetti - O espiritismo é uma filosofia que tem bases científicas e conseqüências religiosas. O espiritismo é uma mensagem que vem da espiritualidade, a doutrina dos espíritos. É o espiritualismo não especulativo. As religiões de modo geral são especulativas em relação a como seria a vida espiritual. No espiritismo nós temos essa informação recebida da espiritualidade através de médiuns, que são pessoas dotadas de sensibilidade para entrar em contato com o mundo espiritual e assim nós ficamos sabendo o que o acontece após a morte, o que nós vamos enfrentar, de onde viemos. Essa é a filosofia espírita, a visão espírita do mundo.

JC - Como é possível confirmar a veracidade dessas informações?

Simonetti - Aí entramos no aspecto científico do espiritismo, o empenho de verificar se essas informações são informações são aceitáveis. Kardec (Allan, pseudônimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail que em 1857 começou a codificação da doutrina com o lançamento do “Livro dos Espíritos”, obra-chave do espiritismo) usava o que chamava de controle universal das manifestações. Ele formulava perguntas aos espíritos, que eram submetidas a vários médiuns de localidades diferentes e que não tinham contato entre si e depois analisava as respostas para ver se elas batiam. Assim ele começou a se certificar que a informação realmente vinha de mentores espirituais que trabalhavam na codificação e não simples fantasia da cabeça do médium. Então o espiritismo começa como uma filosofia, ele se propõe a mostrar que a vida continua e que há o intercâmbio com o além, que é o aspecto científico e, porque nos orienta para uma vida melhor, fala da existência de Deus, do espírito imortal, ele tem conseqüências religiosas.

JC - O espiritismo é uma doutrina cristã?

Simonetti - O espiritismo é eminentemente cristão. Não questão 625 do “Livro dos Espíritos”, Kardec pergunta ao mentor espiritual que o orientava qual a maior figura da humanidade e o mentor respondeu Jesus Cristo. Kardec considera que o Evangelho é a mais nobre mensagem oferecida ao homem porque, sendo Jesus o espírito puro e perfeito em trânsito pela Terra, o próprio criador o inspirava. Ele não era Deus encarnado mas ele refletia o pensamento de Deus. É lógico que, se Jesus trouxe a maior de todas as mensagens, consubstanciada no amor, que é a lei suprema de Deus, evidentemente o espiritismo não poderia permanecer alheio aos seus princípios. Então Kardec se deu ao trabalho de escrever em 1864 “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, isso é, o evangelho interpretado à luz da orientação que vinha da espiritualidade, lançando luzes sobre questões controvertidas do evangelho.

JC - Quando o senhor começou a escrever livros sobre espiritismo?

Simonetti - Sendo de família espírita eu tive uma iniciação, mas foi só quando já estava uns 20 anos é que comecei a ter uma participação no movimento espírita. Logo me integrei no Ceac, entrei para a diretoria, comecei a trabalhar e, por volta de 1963, é que resolvi escrever alguma coisa e mandar para um órgão da Federação Espírita Brasileira chamado Reformador. Aquilo foi publicado e me animou. Fui escrevendo mais e, aos poucos, fui desenvolvendo o que considero hoje uma tarefa que escrever. Já tenho 43 livros escritos, 42 publicados.

JC - Suas obras explicam a doutrina, trazem ensinamentos para a vida. Como os temas surgem?

Simonetti - Eles vão surgindo de acordo com o que a gente está fazendo. Um livro que acho muito importante, que uns dos mais recentes, lançado em outubro do ano passado, é “Suicídio - Tudo o que Você Precisa Saber”. Considero um livro importante porque não temos uma literatura sobre o tema. O livro dá uma idéia da conseqüência do suicídio. Todas as religiões condenam o suicídio só que falta ao escritor de outra religião elementos que lhe permitam uma abordagem mais significativa do tema. Abordagem a partir de informações daqueles que se suicidaram. Segundo a palavra dos suicidas, não há sofrimento na Terra que se compare ao sofrimento deles. Como nós vivemos numa época conturbada, onde os índices de suicídio estão se tornando alarmantes não só no Brasil, mas no mundo todo, acho importante uma obra sobre o tema para a pessoa entender que suicídio não é solução para o seu problema, vai apenas agravá-lo. No centro a gente encontra pessoas que tiveram familiares que se mataram e são pessoas desesperadas para saber se podem ajudar de alguma forma. É possível. As pessoas devem esquecer o que aconteceu, não se envolver ou ficar lembrando, porque não é bom para a pessoa nem para quem cometeu suicídio. O melhor é orar, seguir a vida e entregar nas mãos de Deus.

JC - Muitas pessoas vão aos centros após perderem entes queridos. Essa procura por consolo na hora da perda é o que mais leva a conhecer o espiritismo?

Simonetti - Essa é uma das razões que levam a pessoa a procurar o espiritismo. As religiões de um modo geral são confortadoras, nós dizem: “ele foi para Deus”, “está descansando”, “está esperando o juízo final”... Cada religião tem o seu ponto de vista, mas isso é muito vago porque você não tem informações sobre a pessoa. No espiritismo isso é possível. Chico Xavier é o testemunho desta realidade. Ele recebeu milhares de mensagens de pessoas que desencarnaram e se comunicavam com os familiares através da psicografia de Chico. A família pegava a carta e via que ali estava a pessoa que morreu, pela letra, pelo jeito de se expressar, por informações que só a pessoa sabia. Existem casos em que a Justiça aceitou cartas psicografadas como provas da inocência de pessoas que eram acusadas de assassinatos. Eram cartas escritas pelas vítimas. São milhares e milhares de mensagens, não somente através do Chico, mas através de muitos médiuns que trazem conforto às famílias. O espiritismo por isso é chamado de o consolador prometido por Jesus. Jesus falou que viria mais tarde um consolador, um espírito de verdade que viria lembrar os seus ensinamentos e transmitir ensinamentos novos.

JC - O seu dia-a-dia gira em torno do Ceac?

Simonetti - Gira em torno do espiritismo, do centro, como presidente. O centro é uma grande empresa, temos 140 funcionários, então há muito trabalho. Fora isso, faço palestras pelo Brasil e o Exterior, além de escrever os livros. Faço a parte doutrinária e a parte administrativa. O centro é hoje uma das maiores organizações assistenciais, de filantropia e doutrina espírita no Brasil. O centro hoje atente cerca de 25 mil pessoas anualmente. Só no albergue, centro de triagem de imigrantes, que está com o Ceac desde 1951, a gente atende de 12 a 13 mil pessoas por ano. O resto nós atendemos nos núcleos de periferia. Temos seis núcleos na periferia, uma creche/berçário para 160 crianças, núcleos que dão acompanhamento escolar, aprendizado profissionalizante, assistência às famílias, uma série de trabalhos que desenvolvemos com a ajuda dos cerca de 900 voluntários que nós temos. Só no grupo Irmã Sheilla, que visita os hospitais, humanizando o atendimento, dando carinho aos pacientes, temos cerca de 400 voluntários.

JC - Como o centro se mantém financeiramente?

Simonetti - Temos várias fontes de renda, como contribuições, o telemarketing. Tem gente que critica o telemarketing mas é assim que entramos em contato com uma grande parte da população e podemos fazer sobre as necessidades do centro. Quem ajuda pelo telemarketing está ajudando o necessitado da periferia. O dinheiro que a gente arrecada em sua maior parte vai para a periferia. Também temos contribuintes regulares, temos uma editora, uma livraria grande que funciona no centro, uma lanchonete, dois bazares...

JC - Como o senhor avalia o espiritismo hoje?

Simonetti - Ele se desenvolveu muito no Brasil como idéia. As pessoas hoje falam abertamente sobre espiritismo, com raras exceções, não existe aquele preconceito que existia antigamente. Hoje parece até que dá um status ser espírita. Há um certo respeito. Então vivemos uma época muito boa, há uma receptividade às idéias espíritas. As pessoas que se dão ao trabalho de ler alguma coisa de espiritismo dificilmente deixam de aceitar as idéias espíritas. Agora, se você perguntar o número de adeptos do espiritismo no Brasil vai ver que é reduzido. Segundo o IBGE, apenas 3% da população é espírita. Mas se você fizer um levantamento para saber se as pessoas acreditam em reencarnação, 50% acreditam; se perguntar se acreditam em manifestações dos espíritos, mais de 50% aceitam o fato de que os espíritos se manifestam.

JC - O senhor acredita que falta religiosidade às pessoas?

Simonetti - Não há dúvida. Hoje as pessoas são absorvidas pelas coisas materiais, pelo trabalho, pela necessidade de subsistência. As pessoas passam a semana inteira trabalhando e no fim de semana querem espairecer. Não há espaço e talvez não há interesse da pessoa procurar uma atividade religiosa. Isso acontece no mundo todo. A Europa, por exemplo, é muito materialista. As igrejas de lá são mais movimentadas por turistas do que pela população. Isso é péssimo porque a religião não é só o nosso apoio, a nossa ajuda, é o nosso freio também. Quem não tem religião pode perder as medidas das suas ações. Pelo Brasil se fala tanto de corrupção e ela atinge todos os níveis da população, há sempre aquele anseio de se resolver com o “jeitinho brasileiro”. Esse jeitinho é um ato de desonestidade que se pratica para tirar vantagem. Isso acontece porque a pessoa não tem princípio religioso, por isso o bandido mata, o traficante explora suas vítimas. Falta o senso moral que a religião pode oferecer para a pessoa perceber que ela tem que respeitar o semelhante, ajudar o próximo. A educação formal é importante, o governo, precisa investir em educação mas não podemos esquecer de que na Europa o povo é educado e lá os índices de suicídio são os mais altos do mundo. É uma vida sem sentido, uma vida materialista, hedonística, com o indivíduo pensando apenas nos seus lazeres sem uma preocupação com os objetivos da existência humana. Se você perguntar para o homem comum por que ele vive, por que ele está na Terra, ele não saberá responder. Se a pessoa não sabe isso, o que esperar dela?

JC - Por que nós estamos na Terra?

Simonetti - Existe um projeto divino. Nós fomos criados para a perfeição como ato de amor de Deus, dotados de potencialidades criadoras que nós devemos desenvolver com os nossos próprios esforços. Seremos co-partícipes na obra da criação. A humanidade ainda é muito atrasada, mas estamos a caminho. O mal que existe na Terra, que é um dos planetas mais humildes na sociedade dos mundos, um lugar de provas e espiações, vem da imperfeição humana. Nós somos espíritos em crescimento. Nós seremos anjos um dia, atingiremos a perfeição através do processo reencarnatório. A idéia espírita a respeito da evolução é muito bonita, porque você sabe que está destinado à perfeição. Você será um dia preposto de Deus, integrado no ritmo da harmonia universal... Quanto tempo isso vai levar depende de cada um de nós. Poderá levar muito tempo ou pouco tempo. O espiritismo se propõe a acelerar esse processo na medida em que nos conscientiza de uma forma perfeita quanto às conseqüências do comportamento humano.

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Perfil

Nome completo: Richard Simonetti

Local de nascimento: Bauru

Idade: 71 anos

Esposa: Tânia Regina Simonetti

Filhos: Graziela Simonetti (30 anos), Alexandre Simonetti (26 anos), Carolina Simonetti (19 anos) e Giovana Simonetti (17 anos)

Hobby: Escrever e ler

Livro de cabeceira: A obra de André Luiz psicografada por Francisco Cândido Xavier

Filme: “Quase Deuses”, de Joseph Sargent

Estilo musical predileto: Música suave

Time de coração: São Paulo

Para quem daria nota 10: Francisco Cândido Xavier

Para quem daria nota 0: Traficantes de drogas

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